Segunda Confissão Helvética - Comentada
História
O nome Confissão Helvética tem origem no antigo povo de cultura celta chamado helvécios que habitava a região da Suíça. Um primeiro documento foi escrito no ano de 1536 pelos teólogos Heinrich Bullinger e Leo Jud de Zurique, Megander de Berna, Myconius Oswald e Grynaeus de Basel, Bucer e Capito de Estrasburgo, com outros representantes de Schaffhausen, St. Gall, Mülhausen e Biel. Aquele documento ficou conhecido como Primeira Confissão Helvética ou Segunda Confissão de Basiléia.
Mais tarde veio o segundo documento, este que é conhecido como A Segunda Confissão Helvética. Elaborada em 1562 por Heinrich Bullinger, que a encaminhou ao Eleitor palatino Frederick III, a pedido deste. Esta Confissão foi publicada tanto em Latim como em Alemão, foi apreciada e aprovada pelas igrejas da Suíça, que tinham achado a Primeira Confissão demasiado curta e demasiado Luterana. Esta foi então adotada pelas igrejas reformadas, não só na Suíça, mas também na Escócia (1566), na Hungria (1567), na França (1571), na Polônia (1578), e ao lado do Catecismo de Heidelberg é a mais amplamente reconhecida das Confissões das Igrejas Reformadas.
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1. Da Sagrada Escritura como a verdadeira Palavra de Deus.
Escritura Canônica
Cremos e confessamos que as Escrituras Canônicas dos santos profetas e apóstolos de ambos os Testamentos são a verdadeira Palavra de Deus, e têm suficiente autoridade de si mesmas e não dos homens. O próprio Deus falou aos patriarcas, aos profetas e aos apóstolos, e ainda nos fala a nós pelas Santas Escrituras.
E nesta Escritura Sagrada a Igreja Universal de Cristo tem a mais completa exposição de tudo o que se refere à fé salvadora e à norma de uma vida aceitável a Deus; e a esse respeito é expressamente ordenado por Deus que a ela nada se acrescente ou dela nada se retire.
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Comentário: A Bíblia é o Livro de Deus. Na verdade ela é um compêndio de sessenta e seis livros que foram escritos num período de aproximadamente mil e quinhentos anos, começando com Moisés e vindo até o profeta Malaquias, em torno de quatrocentos anos antes de Cristo. Cerca de quatrocentos anos depois de Malaquias veio o Messias, Jesus Cristo. Então foram escritos os livros do Novo Testamento todos no primeiro século da era cristã. Os escritores sagrados são quarenta e os mais diversos em termos de cultura, formação e conhecimento. Entre eles havia legisladores, juízes, reis, guerreiros, pescadores, teólogos. Escreveram nos mais diversos lugares, sob as mais diversas circunstâncias, com os mais diversos propósitos, em várias línguas, em várias formas e maneiras de expressão e comunicação. Tudo isso para revelar Deus – seus atributos, suas obras, seu modus operandi. Tudo isso faz da Bíblia um livro único, inigualável, incomparável, insubstituível na História e absolutamente necessário à Humanidade. O próprio Deus deu dons, inspirou homens e os moveu a escrever em seu nome, o que faz a Bíblia ser perfeita e infalível.
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A Escritura ensina plenamente toda a piedade.
Julgamos, portanto, que destas Escrituras devem derivar-se a verdadeira sabedoria e piedade, a reforma e o governo das igrejas, também a instrução em todos os deveres da piedade; enfim, a confirmação de doutrinas e a refutação de todos os erros, assim como todas as exortações segundo a palavra do apóstolo: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão...” - 2ª Timóteo 3.16-17. E ainda: “Escrevo-te estas cousas, diz o apóstolo a Timóteo, para que fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus...” - 1ª Tim 3.14-15.
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Comentário: Não necessitamos de outra fonte para nos orientar e guiar a não ser as preciosas e sagradas escrituras. Nelas encontramos tudo quanto necessitamos saber sobre quem é Deus e quem é o homem, qual é a condição do pecador diante de Deus e o que deve ele fazer para ser reconciliado com seu Criador através do Redentor Jesus Cristo e viver para ele. Nelas aprendemos o que é a Igreja e como a Igreja deve viver, adorar e cultuar a Deus.
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A Escritura é a Palavra de Deus.
O mesmo apóstolo diz aos tessalonicenses: Tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes, não como palavra de homens, e, sim, como, em verdade é, a palavra de Deus… - 1ª Tessalonicenses 2.13. E o Senhor disse no Evangelho: Não sois vós os que falais, mas o Espírito de vosso Pai é quem fala em vós - Mateus 10.20; portanto, quem vos der ouvidos, ouve-me a mim; e, quem vos rejeitar, a mim me rejeita; quem, porém, me rejeitar, rejeita aquele que me enviou, - Mateus 10.40; Lucas 10.16; João 13.20.
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Comentário: O Senhor Jesus disse que suas palavras são espírito e vida [João 6.63] logo a Bíblia fala hoje, é a voz do Deus vivente. Quando lemos as palavras do Senhor elas soam nos nossos ouvidos espirituais e nos conectam com ele próprio. Jesus mesmo sempre honrou a Palavra escrita. Ele usou a Palavra contra Satanás na tentação do deserto, repetindo ao tentador: Está escrito – Mateus 4.4, o mesmo que ele repete muitas outras vezes nos evangelhos [4.7; 4.10; 11.10; 21.13; 26.24; 26.31, etc]. Como é maravilhoso termos em nossas mãos esse tesouro onde encontramos a preciosa verdade. É só abri-la para ouvirmos o “Assim diz o Senhor” que quando penetra o coração do homem transforma-o poderosamente.
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A pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus
Portanto, quando esta Palavra de Deus é agora anunciada na Igreja por pregadores legitimamente chamados, cremos que a própria Palavra de Deus é anunciada e recebida pelos fiéis; e que nenhuma outra Palavra de Deus pode ser inventada, ou esperada do céu: e que a própria Palavra anunciada é que deve ser levada em conta e não o ministro que a anuncia, pois, mesmo que este seja mau e pecador, contudo a Palavra de Deus permanece boa e verdadeira.
Nem pensamos que a pregação exterior deve ser considerada infrutífera pelo fato de a instrução na verdadeira religião depender da iluminação interior do Espírito; porque está escrito: Não ensinará jamais cada um ao seu próximo... porque todos me conhecerão - Jeremias 31.34, e nem o que planta é alguma cousa, nem o que rega, mas Deus que dá o crescimento - 1ª Coríntios 3.7. Pois, ainda que ninguém possa vir a Cristo, se não for levado pelo Pai (cf. João 6.44), se não for interiormente iluminado pelo Espírito Santo, sabemos contudo que é da vontade de Deus que sua Palavra seja pregada também externamente. Deus poderia, na verdade, pelo seu Santo Espírito, ou diretamente pelo ministério do anjo, sem o ministério de São Pedro, ter ensinado a Cornélio (cf. At 10.1ss); não obstante, ele o envia a São Pedro, a respeito de quem o anjo diz: Ele te dirá o que deves fazer - Atos 11.14.
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Comentário: Desde o princípio da humanidade Deus fala com o homem. Embora Deus pudesse se comunicar com o homem de outras maneiras, pois é o seu Criador, todavia essa é a maneira mais comum dele se comunicar – falando. Deus poderia haver criado os céus e a terra de outra forma, mas criou todas as coisas falando. Deus é o Deus que fala, assim ele se revela ao homem, assim ele se comunica com o homem, falando. Deus ama falar. O Senhor Jesus é o Verbo (Palavra) de Deus e assim falou conosco por meio dele - Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho – Hebreus 1.1.
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A iluminação interior não elimina a pregação exterior
Aquele que ilumina interiormente dando aos homens o Espírito Santo é o mesmo que deu aos discípulos este mandamento: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura - Marcos 16.5. E assim, em Filipos, São Paulo pregou a Palavra externamente a Lídia, vendedora de púrpura; mas o Senhor, internamente, abriu o coração da mulher (Atos 16.14). E o mesmo São Paulo, numa bela gradação, em Romanos 10.17, chega, afinal, a esta conclusão: E assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo.
Reconhecemos, entretanto, que Deus pode iluminar quem ele quiser e quando quiser, mesmo sem ministério externo, pois isso está em seu poder; mas aqui falamos da maneira usual de instruir os homens, que nos foi comunicado por Deus, tanto por mandamento como pelo exemplo.
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Comentário: Então Deus pode operar e, de fato opera de muitas maneiras. Mesmo quando o pecador ouve o chamado pela pregação do evangelho, ainda assim é preciso a operação do Espírito Santo, para que ele discirna a voz de Deus e a ela se submeta. O chamado exterior que vem pela pregação é convertido pelo Espírito Santo num chamado interior e eficaz para salvar os eleitos. Contudo, o Senhor trabalha num tipo e noutro e ambos o glorificam, pois cumprem seu propósito.
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Heresias
Detestamos, portanto, todas as heresias de Artêmon, dos maniqueus, dos valentinianos, de Cerdon e dos marcionitas, os quais negaram que as Escrituras procediam do Espírito Santo; ou não aceitaram algumas partes delas, ou as interpelaram e corromperam.
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Comentário: Negar que as Escrituras Sagradas são sopradas pelo Espírito Santo nos vasos por ele escolhidos, é próprio daqueles que não têm o Espírito Santo. Que a graça geral opera e faz coisas maravilhosas não podemos negar, mas em se tratando do plano da redenção e dos mistério do Reino dos céus, entra em operação a graça específica e salvadora. As coisas do Espírito são misteriosas e somente os homens espirituais podem discerni-las. Para os homens carnais as coisas espirituais parecem loucura - As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que do Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais. Ora o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente - 1.a Coríntios 2.13-14.
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Apócrifos
Contudo, não dissimulamos o fato de que certos livros do Velho Testamento foram chamados Apócrifos pelos antigos autores, e Eclesiásticos por outros, porquanto alguns admitiam que fossem lidos nas igrejas, não, porém, invocados para confirmar a autoridade da fé. Assim também Santo Agostinho, em sua De Civitate Dei, livro 18, cap. 38, observa que “nos livros dos Reis, nomes e livros de certos profetas são citados”; mas acrescenta que “eles não se encontram no Cânon”; e que “os livros que temos são suficientes para a piedade”.
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Comentário: Os livros denominados apócrifos são aqueles que pelo seu próprio conteúdo não demonstram estar em linha com a sã doutrina, com os preceitos e os padrões divinos, e destoam dos demais livros reconhecidamente inspirados. Não são desaconselhados, podemos lê-los e tirar boas lições, mas é necessário lembrar que eles não são inspirados como os que compõem o Cânon Sagrado. Portanto não são autoritativos quanto a doutrina e regra de fé. Contudo, o fato de alguns doutores discordarem deste ou daquele livro, o que aconteceu ao longo da História e ainda acontece, por si só, não significa que esses livros não sejam inspirados. O certo é que nos sessenta e seis livros que temos reunidos em nossa Bíblia está todo o Conselho de Deus para guiar o pecador à salvação e reconciliação com Deus. Isso é reconhecido e está mais do que comprovado.
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2. Da interpretação das Escrituras Sagradas; e dos santos pais, dos concílios e das tradições
A verdadeira interpretação da Escritura
O Apóstolo São Pedro disse que as Escrituras Sagradas não são de interpretação particular (2ª Pedro 1.20). Assim não aprovamos quaisquer interpretações; pelo que nem reconhecemos como a verdadeira ou genuína interpretação das Escrituras a que se chama simplesmente a opinião da Igreja Romana, isto é, a que os defensores da Igreja Romana claramente sustentam que deve ser imposta à aceitação de todos. Mas reconhecemos como ortodoxa e genuína a interpretação da Escritura que é retirada das próprias Escrituras segundo o gênero da língua em que elas foram escritas, segundo as circunstâncias em que foram registradas, e pela comparação de muitíssimas passagens semelhantes e diferentes, e que concorda com a regra de fé e amor, e mais contribui para a glória e a salvação dos homens.
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Comentário: A interpretação das Escrituras é tão antiga quanto as próprias Escrituras. Quando o apóstolo Pedro escrevia já comentava os escritos do apóstolo Paulo - E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição - 2ª Pedro 3.15-16, o mesmo pode ser dito do apóstolo Judas - Mas vós, amados, lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo; Os quais vos diziam que nos últimos tempos haveria escarnecedores que andariam segundo as suas ímpias concupiscências – Judas 1.17-18. Portanto ninguém tem o direito de sair por aí fazendo a sua interpretação pessoal e particular. A Igreja tem uma história e nessa história há um exército de estudiosos, teólogos, doutores, sábios e piedosos que escreveram concordemente com os pontos cardeais da doutrina cristã. E tudo quanto divergia disso foi rejeitado pelos sínodos e descartado como heresias destruidoras. Graças a Deus podemos hoje ter em nossas mãos a doutrina cristalina dos dias apostólicos. A Grande Reforma foi um marco histórico na vida da Igreja de Cristo justamente porque revisou as doutrinas que a Igreja vinha ensinando, viu os desvios das antigas veredas, as doutrinas apostólicas, e chamou-a de volta ao antigo modelo. Os reformadores elaboraram importantes documentos onde redigiram sistematicamente as doutrinas da redenção. Cremos que nossa única regra de fé são as Escrituras Sagradas e nenhum escrito pode ser colocado no mesmo nível autoritativo, contudo os catecismos e as confissões são importantes guias de estudos sistemáticos da doutrina que nos fazem permanecer nas Escrituras. Sínodos e concílios podem até rever pontos de documentos históricos, mas nunca contrariar as Escrituras Sagradas. A Palavra de Deus é inerrante, infalível, imutável, eterna, suficiente. Ela é a única regra de fé do povo de Deus para sempre. Boas tradições devem ser preservadas conforme disse o apóstolo Paulo: Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa - 2ª Tessalonicenses 2.15, mas tradições simplesmente humanas devem ser rejeitadas. Graves erros, contudo, têm ocorrido ao longo da história, por alguns que tentam reinterpretar as Escrituras. Temos uma catolicidade histórica que se baseia na interpretação do próprio Senhor Jesus e de seus apóstolos. Se não é uma interpretação histórica seguida pelos santos homens de Deus desde os apóstolos de Cristo, se for novidade, precisamos avaliar e julgar com todo cuidado porque pode bem ser um desvio e heresia. Vivemos dias em que não apenas vemos uma reinterpretação e atualização, mas ainda algumas passagens sendo reescritas, o que é um grave pecado, uma relativização das Escrituras. É preciso sabedoria para notar alguma tendência a mudanças e é preciso coragem para combater qualquer tentativa de relativizar as Escrituras como se fossem palavras de homem.
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Interpretação dos santos pais
Por isso, não desprezamos as interpretações dos santos pais gregos e latinos, nem rejeitamos as suas discussões e os seus tratados sobre assuntos sagrados, sempre que concordem com as Escrituras; mas respeitosamente divergimos deles, quando neles encontramos coisas estranhas às Escrituras ou contrárias a elas. E não julgamos fazer-lhes qualquer injustiça nesta questão, visto que todos eles, unanimemente, não procuram igualar seus escritos com as Escrituras Canônicas, mas nos mandam verificar até onde eles concordam com elas ou delas discordam, aceitando o que está de acordo com elas e rejeitando o que está em desacordo.
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Comentário: Esse deve ser o espírito. Todos devemos reconhecer falhos e sujeitos a cometer erros. O que for destoante das Sagradas Escrituras deve ser rejeitado e combatido. Todos precisamos ter a bravura de bons apologistas e não aceitar intromissão de opiniões de homens no terreno sagrado das Escrituras Divinas. Devemos estar prontos para corrigir possíveis erros do passado e também admitir que podemos também nos equivocar. Nesse terreno santo todos precisamos de muita humildade.
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Concílios
Nessa mesma ordem colocam-se também as definições e cânones dos concílios. Por esse motivo, nas controvérsias religiosas não aceitamos como imposição as simples opiniões dos santos pais ou os decretos dos concílios; muito menos, os costumes herdados ou, até, o fato de ser uma opinião partilhada por uma multidão ou consagrada por um longo tempo. Quem é o juiz? Portanto, em questão de fé, não admitimos juiz algum, a não ser o próprio Deus, que, pelas Santas Escrituras, proclama o que é verdadeiro, o que é falso, o que deve ser seguido ou o que deve ser evitado. Assim, apoiamo-nos exclusivamente nos julgamentos de homens espirituais, por eles tomados à Palavra de Deus. Jeremias e outros profetas condenaram severamente os concílios de sacerdotes estabelecidos contra a lei de Deus; e nos advertiram diligentemente que não ouvíssemos os nossos pais, nem trilhássemos os seus caminhos, porque eles, andando segundo suas próprias invenções se desviaram da lei de Deus.
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Comentário: Uma boa prática é observarmos os frutos produzidos pelos homens em sua época. Houve épocas de avivamento em que Deus interveio na História da Humanidade fazendo maravilhas e salvando milhares de almas. Produziram muitos e profundos escritos e deixaram lindo exemplo de piedade em sua geração. Se Deus se agradou deles foi porque buscaram sinceramente fazer sua vontade e agradá-lo. Mas também houve épocas de secura e poucos frutos verdadeiros, de fraco testemunho na sociedade. Muitas vezes nesses períodos surgiram heresias perigosas. Aí, não importando quem falou ou ensinou tais heresias, devemos rejeitar como terríveis ervas daninhas para o Jardim de Deus.
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Tradições de homens
Rejeitamos, igualmente, as tradições humanas, mesmo que venham adornadas de títulos atraentes, como se fossem divinas e apostólicas, entregues à Igreja de viva voz pelos apóstolos e, como pelas mãos de varões apostólicos, aos bispos que os sucederam, as quais, quando comparadas com as Escrituras delas discrepam, e por essa discrepância revelam que, de modo nenhum, são apostólicas. Como os apóstolos não se contradisseram entre si quanto à doutrina, assim os varões apostólicos não ensinaram nada contrário aos apóstolos. Ao contrário, seria ímpio afirmar que os apóstolos, de viva voz, tivessem ensinado coisas contrárias aos seus escritos. São Paulo afirma claramente que ele ensinava as mesmas coisas em todas as igrejas (1ª Cor 4.17). E mais: Porque nenhuma outra cousa vos escrevemos, além das que ledes e bem compreendeis (2ª Cor 1.13). Também, em outra passagem, testifica que ele e seus discípulos - a saber, os varões apostólicos - andavam do mesmo modo e, ligados pelo mesmo Espírito, faziam todas as coisas (2ª Cor 12.18). Os judeus também tiveram, no passado, as tradições dos seus anciãos, mas essas tradições foram severamente repelidas pelo Senhor, que mostrou que a sua observância põe entraves à Lei de Deus, e que por meio delas Deus é em vão adorado (Mat 15.1 ss; Mc 7.1 ss).
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Comentário: Há uma tentativa constante de Satanás e seus demônios para corromper as Escrituras Sagradas. Além de distorcer a sã doutrina e misturar a ela elementos do paganismo, o inimigo também usa a tática de tirar e acrescentar, exatamente algo contra o que o Senhor claramente advertiu seu povo - Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que eu vos mando - Deuteronômio 4.2. O inimigo relativiza as Palavras de Deus, a elas acrescentando tradições humanas, filosofias, psicologia, costumes pagãos, superstições. E também subtrai-lhe quando em novas traduções substituem palavras para expressar outra coisa e não aquilo que as palavras inspiradas de fato dizem.
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3. De Deus, sua unidade e trindade
Deus é uno
Cremos e ensinamos que Deus é um em essência ou natureza, subsistindo por si mesmo, todo suficiente em si mesmo, invisível, incorpóreo, imenso, eterno, criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis, o supremo bem, vivo, vivificador e preservador de todas as coisas, onipotente e supremamente sábio, clemente ou misericordioso, justo e verdadeiro. Abominamos a pluralidade de deuses, porque está claramente escrito: O Senhor nosso Deus é o único Senhor (Deut 6.4). Eu sou o Senhor teu Deus. Não terás outros deuses diante de mim (Êx 20.2-3). Eu sou o Senhor, e não há outro; além de mim não há Deus. Deus justo e Salvador não há além de mim (Is 45.5.21). Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e longânimo, e grande em misericórdia e fidelidade (Êx 34.6).
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Comentário: A dificuldade que temos para compreender os mistérios de Deus não justifica desviar os ouvidos para não ouvir. É o próprio Deus quem afirma ser único, então ele é único. Louvado seja o Deus Uno. É assim que o Deus Vivo se revela nas Escrituras e é assim que devemos crer e adorá-lo.
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Deus é Trino
Entretanto, cremos e ensinamos que o mesmo Deus imenso, uno e indiviso é inseparavelmente e sem confusão, distinto em pessoas - Pai, Filho e Espírito Santo - e, assim como o Pai gerou o Filho desde a eternidade, o Filho foi gerado por inefável geração, e o Espírito Santo verdadeiramente procede de um e outro, desde a eternidade e deve ser com ambos adorado.
Assim, não há três deuses, mas três pessoas, consubstanciais, coeternas e coiguais, distintas quanto às hipóstases e quanto à ordem, tendo uma precedência sobre a outra, mas sem qualquer desigualdade. Segundo a natureza ou essência, acham-se tão unidas que são um Deus, e a essência divina é comum ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
A Escritura ensina-nos manifesta distinção de pessoas, quando o anjo diz, entre outras coisas, à bem-aventurada Virgem; Descerá sobre ti o Espírito Santo e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso também o ente santo que há de nascer, será chamado Filho de Deus (Luc 1.35). E, igualmente, no batismo de Cristo, ouve-se uma voz do céu a seu respeito, dizendo: Este é o meu Filho amado (Mat 3.17). O Espírito Santo também apareceu em forma de pomba (João 1.32). E, quando o Senhor mesmo mandou os apóstolos batizar, mandou-os batizar “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mat 28.19). Em outra parte do Evangelho, diz ele: O Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome (João 14.26). E noutro lugar: Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim, .... (João 15.26). Em resumo, recebemos o Credo dos Apóstolos, porque ele nos comunica a verdadeira fé.
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Comentário:
Da
mesma forma que o próprio Deus afirma ser único, em suas
apresentações mostra-se serem três Pessoas, e não há como não
ver isso nas Escrituras. Ora vemos o Pai e Filho juntos, como quando
Jesus disse: Eu
e o Pai somos um - João 10.30,
e …
Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também - João 5.17.
Ora quando vemos o Pai e o Espírito juntos, como lemos:
No princípio, criou Deus [Pai]
os
céus e a terra ... e o Espírito de Deus se movia sobre a face das
águas.
E disse Deus: Haja luz. E houve luz - Gênesis
1.1-3.
Deus
criou… o Espírito estava sobre as águas… Deus disse… . Também
podemos vê-los juntos na redenção:
Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos
abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais
em Cristo.
Como
também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que
fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em caridade; e nos
predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo,
segundo o benefício da sua vontade; para louvor e glória da sua
graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado. Em quem temos a
redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as
riquezas da sua graça,… Com o fim de sermos para louvor da sua
glória, nós, os que primeiro esperamos em Cristo; em quem também
vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da
vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o
Espírito Santo da promessa - Efésios 1.3-13.
Deus
Pai elegeu, Cristo redimiu, o Espírito Santo selou. Portanto, nosso
Deus é Trino e nisto devemos crer e assim adorá-lo.
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Heresias
Portanto, condenamos judeus e maometanos, e todos quantos blasfemam da Trindade Santa e digna de adoração. Condenamos, também, todas as heresias e os heréticos que ensinam que o Filho e o Espírito Santo são Deus apenas de nome, e ainda que há algo criado e subserviente, ou subordinado a outro, na Trindade, e que nela há algo desigual, maior ou menor, corpóreo ou corporeamente concebido, diferente quanto aos costumes ou à vontade, confuso ou solitário, como se o Filho e o Espírito Santo fossem os sentimentos e propriedades de um Deus o Pai, como pensavam os monarquistas, os novacianos, Praxeas, os patripassianos, Sabélio, Paulo de Samosata, Êcio, Macedônio, os antropomorfitas, Ário e outros semelhantes.
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Comentário: O único Deus verdadeiro e digno de crédito revelou-se a nós como sendo um Ser eterno, infinito, onipotente, onisciente, onipresente, todo suficiente, sendo o criador, o redentor e o mantenedor de todas as coisas nos céus e na terra. Ele declarou desde o início ser o único Deus, sendo que todos os demais pretensos deuses são falsos e mentiras. Deus reivindica absoluta exclusividade e não admite em hipótese alguma nem mesmo mencionarmos o nome de outro deus, seja ele qual for - E em tudo o que vos tenho dito, guardai-vos; e do nome de outros deuses nem vos lembreis, nem se ouça da vossa boca - Êxodo 23.13. Essa exclusividade de Deus e de seu povo, é que atrai o inconformismo e o ódio do mundo, porque os homens aceitam qualquer deus desde que esse deus não queira ser único; eles aceitam qualquer religião desde que essa religião não reivindique exclusividade. O Deus que cremos e anunciamos revelou-se a nós como sendo trino, isto é três pessoas num só Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e é assim que o reconhecemos o adoramos. Como nos ensina o Credo Atanasiano, Deus é um só, contudo três pessoas distintas, da mesma substância ou essência, e com todos os atributos iguais. Tudo quanto diferir deste ensino bíblico confirmado pela tradição dos nossos pais, deve ser rejeitada. Como dissemos anteriormente, nossa dificuldade para compreender uma doutrina, não justifica as tentativas de reescrevê-la.
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4. Dos ídolos ou imagens de Deus, de Cristo e dos santos
Imagens de Deus.
Visto que Deus como Espírito é, em essência, invisível e imenso, não pode, certamente, ser expresso por qualquer arte ou imagem. Por essa razão, não tememos afirmar com a Escritura que imagens de Deus não passam de mentiras. Assim, rejeitamos não somente os ídolos dos gentios mas também as imagens dos cristãos.
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Comentário: Deus mesmo proibiu a confecção de imagens, primeiro porque é ofensivo à sua glória e na sua sabedoria sabe que isto é altamente prejudicial a nós. É uma grande ofensa a Deus uma criatura tentar imaginá-lo e representá-lo. Qual seria o produto da imaginação de uma criatura caída sobre o Criador, se não um insulto e zombaria? Toda tentativa de representação de Deus é muito prejudicial uma vez que acaba formando um ídolo, porque Deus não pode ser representado de nenhuma forma.
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Imagens de Cristo
Embora Cristo tenha assumido a natureza humana, não a assumiu para fornecer modelo a escultores e pintores. Afirmou que não veio “revogar a lei ou os profetas” (Mat 5.17). E as imagens são proibidas pela lei e pelos profetas (Deut 4.15; Is 44.9). Afirmou que a sua presença corporal não seria de proveito para a Igreja, e prometeu que estaria junto de nós, para sempre, pelo seu Espírito (João 16.7). Quem, pois, haveria de crer que uma sombra ou semelhança de seu corpo traria qualquer benefício para as almas piedosas? (2ª Co 5.5). Se ele vive em nós pelo seu Espírito, somos já os templos de Deus (1ª Co 3.16). Mas, “que ligação há entre o santuário de Deus e os ídolos?” (2ª Co 6.16).
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Comentário: Fazer representações de Jesus Cristo é igualmente ofensivo ao Senhor da Glória o qual não pode ser visto por ninguém. Todas as tentativas de representar o nosso Senhor se mostram ridículas e assustadoras, além de pecaminosas. Conforme já observamos anteriormente, se Deus proibiu a confecção de imagens e representações suas, obviamente toda arte nessa direção está proibida. Isto é suficiente para os obedientes. Deixa-nos ainda claro em sua Palavra que não necessitamos de imagens para o nosso serviço a Deus. Basta-nos a sua promessa de que está sempre conosco e especialmente quando nos reunimos em seu nome para adorá-lo.
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Imagens de santos
E desde que os espíritos bem-aventurados e os santos do céu, quando viviam aqui na terra, rejeitaram qualquer culto de si mesmos (At 3.12 ss; 14.11 ss; Apoc 14.7; 22.9) e condenaram as imagens, poderá alguém achar plausível que os santos e anjos celestiais se agradem com suas imagens, diante das quais os homens se ajoelham, descobrem as cabeças e dispensam outras honras?
Para instruir os homens na religião e relembrá-los das coisas divinas e da sua salvação, o Senhor ordenou que se pregasse o Evangelho (Mc 16.15) - e não que se pintassem quadros para ensinar os leigos. Instituiu também os sacramentos, mas em nenhum lugar estabeleceu imagens.
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Comentário: Como Deus proibiu a confecção de imagens para representá-lo está proibida toda representação para adoração, seja de Deus, de Cristo, dos santos ou dos anjos. O Senhor nos instruiu como devemos adorá-lo: “em espírito”, e isto dispensa tudo que apele para os nossos sentidos físicos. “A fé vem pelo ouvir” diz o apóstolo, então não precisamos ver nem sentir, mas ouvir e crer. Todo leigo pode ouvir, isso mostra a falácia dos desobedientes que empurram sobre os leigos a responsabilidade pela sua idolatria. Quem quiser adorar pelos sentidos físicos cairá em engano, porque satanás se aproveitará da sua rebeldia para enganá-lo.
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A escritura dos leigos
Demais, para onde quer que volvamos os olhos, vemos as criaturas de Deus, vivas e verdadeiras ao nosso olhar, as quais, se bem examinadas como convém, causam ao observador uma impressão muito mais viva do que todas as imagens ou pinturas vãs, imóveis, frágeis e mortas, feitas pelos homens, das quais com razão disse o profeta: “Têm olhos, e não veem” (Sal 115.5).
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Comentário: Concordamos que é muito mais inspirativo e edificante observar a criação de Deus e meditar em suas obras do que fixar os olhos numa pedra esculpida, num metal forjado ou num barro modelado pelos homens, por mais artísticos que sejam.
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Lactâncio, Epifânio e Jerônimo
Por isso aprovamos a opinião de Lactânio, escritor antigo, que diz: “Indubitavelmente nenhuma religião existe onde há uma imagem”. Afirmamos, também, que o bem-aventurado bispo Epifânio procedeu bem quando, ao encontrar nas portas de uma igreja um véu no qual estava pintada uma figura que se dizia ser de Cristo ou de algum santo, rasgou-o e o arrancou dali, por ver, contra a autoridade da Escritura, a figura de um homem afixada na Igreja de Cristo. Por isso, ele ordenou que dali por diante tais véus, que eram contrários à nossa religião, não fossem afixados na Igreja de Cristo, mas antes fossem removidas essas coisas duvidosas, indignas da Igreja de Cristo e dos fiéis. Além disso, aprovamos esta afirmação de Santo Agostinho sobre a verdadeira religião: “Não seja a nossa religião um culto de obras humanas: os próprios artistas que as fazem são melhores do que elas; no entanto, não devemos adorá-los” (De Vera Religione, IV, 108).
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Comentário: Sim, todo tipo de imagens religiosas é condenado nas escrituras sagradas. Deus cuidou especificamente desse assunto quando falou: O dia em que estiveste perante o SENHOR teu Deus em Horebe,... Então o SENHOR vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes figura alguma.... Guardai, pois, com diligência as vossas almas, pois nenhuma figura vistes no dia em que o SENHOR, em Horebe, falou convosco do meio do fogo; Para que não vos corrompais, e vos façais alguma imagem esculpida na forma de qualquer figura, semelhança de homem ou mulher; Figura de algum animal que haja na terra; figura de alguma ave alada que voa pelos céus; Figura de algum animal que se arrasta sobre a terra; figura de algum peixe que esteja nas águas debaixo da terra - Deuteronômio 4.10-18. Deus proibiu o culto aos ídolos do paganismo e também proibiu o culto a ele através de imagens. A transgressão desse mandamento é injustificável e sempre punida. Como já comentamos, Deus não pode jamais ser representado, por causa da sua infinitude, sua excelsa majestade e sua glória. Qualquer tentativa, pois, de representação de Deus constitui-se um insulto e grande ofensa a ele. Por mais que queiram os protetores de imagens defendê-las no culto cristão, suas justificativas colidem frontalmente com o mandamento que Deus escreveu de próprio punho e o trouxe pessoalmente à terra: Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás - Êxodo 20.4-5. Quanto a honrar a memória dos santos que estão na glória, bem faremos se respeitarmos aquilo que eles respeitavam. Como foi dito, se em vida neste mundo não aceitaram qualquer honra pessoal, como é princípio dos santos, obviamente, também não desejam receber agora por meio de imagens suas. De modo que fazer imagens dos santos não está em linha com a sabedoria das sagradas escrituras e nem condiz com a racionalidade e inteligência que Deus nos deu.
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5. Da adoração, do culto e da invocação de Deus por Jesus Cristo, único Mediador
Somente Deus deve ser adorado e cultuado
Ensinamos que somente o verdadeiro Deus deve ser adorado e cultuado. Esta honra não concedemos a nenhum outro, segundo o mandamento do Senhor: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto (Mat 4.10). Sem dúvida, todos os profetas censuraram severissimamente o povo de Israel todas as vezes que este adorou e cultuou deuses estranhos e não o único Deus verdadeiro. E ensinamos que Deus deve ser adorado e cultuado como ele mesmo nos ensinou a cultuá-lo, a saber, “em Espírito e em verdade” (João 4.23ss), e não com qualquer superstição, mas com sinceridade, segundo a sua Palavra; para que, em tempo algum, não venha ele a dizer-nos: Quem vos requereu o só pisardes os meus átrios? (Is 1,12; Jer 6,20). São Paulo também diz: Deus não é servido por mãos humanas, como se de alguma cousa precisasse,... (At 17,25).
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Comentário: Como há um único Deus verdadeiro, ele é o único que deve ser servido e adorado no céu e na terra. Além disso ele é tudo que precisamos, tem tudo que necessitamos para nos preencher e somente nele nos completamos. Então, para que precisaríamos de outro ou por que buscaríamos outro? Satanás insufla no pecador o desejo de possuir Deus e não de ser submisso a ele. Desde que seduziu os nossos pais no Éden, o Caçador de almas tenta da mesma forma. Deus nos conhece melhor do que nós a nós mesmos e sabe que só encontramos satisfação, paz, segurança, contentamento nos sujeitando a ele. Ele nos criou de tal forma que só encontramos realização quando o servimos. O inimigo das nossas almas tenta nos convencer que podemos encontrar autossatisfação se formos libertos do governo de Deus; duas coisas impossíveis, tanto escaparmos de Deus quanto obtermos aquilo que somente ele pode nos dar, fora dele.
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Só Deus deve ser invocado pela exclusiva mediação de Cristo
Em todas as crises e provações de nossa vida invocamos somente a ele e isso pela mediação de Jesus Cristo, nosso único mediador e intercessor. Eis o que nos é claramente ordenado: Invoca-me no dia da angústia: eu te livrarei, e tu me glorificarás (Sal 50,15). Temos uma promessa generosíssima do Senhor, que disse: Se pedirdes alguma cousa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome (João 16,23), e: Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei (Mat 11.28). Está escrito: Como, porém, invocarão aquele em que não creram? (Rom 10.14). Nós cremos em um só Deus, e só a ele invocamos, e o fazemos mediante Cristo. Porquanto há um só Deus, diz o Apóstolo, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem (1ª Tim 2.5). Também se diz: Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo... (1ª João 2.1).
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Comentário: Que devemos invocar unicamente o nome de Deus, ele mesmo deixa isso muito claro, pois não há outro deus vivo a não ser o Pai do nosso Senhor Jesus Cristo. E não existe outro ser que se compare a esse que se revelou a nós em Jesus Cristo e estabeleceu seu Filho para ser o nosso Mediador. Jesus é o conector entre Deus e o homem, entre o céu e a terra. Somente Jesus Cristo reconcilia o homem com Deus. Sendo ele Deus-Homem, quem nele crê é reconciliado, justificado, regenerado e adotado na grande Família. Todo pecador que quiser ir a Deus deve fazê-lo pela mediação do Senhor Jesus Cristo.
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Os santos não devem ser adorados, cultuados ou invocados
Por essa razão não adoramos, nem cultuamos nem invocamos os santos dos céus, nem outros deuses, nem os reconhecemos como nossos intercessores ou mediadores perante o Pai que está no céu. Deus e Cristo, o Mediador, nos são suficientes. Nem concedemos a outros a honra que é devida somente a Deus e ao seu Filho, porque ele claramente disse: A minha glória, pois, não a darei a outrem (Is 42.8). E porque São Pedro disse: Porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos, a não ser o nome de Cristo (At 4.12). Nele, os que dão seu assentimento pela fé não buscam coisa alguma além de Cristo.
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Comentário: Se algum homem pudesse fazer algo para se salvar, o Filho de Deus não teria vindo ao mundo para morrer por nós. Se qualquer da raça humana pudesse, por sua própria justiça ajudar a outros, a vinda de Cristo seria desnecessária. Se houvesse qualquer outro meio para reconciliar o homem com Deus, toda a história da redenção não faria qualquer sentido. A realidade é que não há absolutamente nada que o homem possa fazer para se salvar, nem para se ajudar quanto a sua própria salvação, muito menos teria condições para além de se ajudar a si mesmo ainda ajudar a outros. Isto é subestimar a sabedoria e soberania de Deus, insultar a Cristo e desprezar o seu sacrifício.
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A honra devida aos santos
Entretanto, não desprezamos os santos nem os tratamos como seres vulgares. Reconhecemo-los como membros vivos de Cristo e amigos de Deus, que venceram gloriosamente a carne e o mundo. Por isso nós os amamos como irmãos e também os honramos; não, porém, com qualquer espécie de culto, mas os encaramos com apreciação e respeito e com justos louvores. Também os imitamos, pois com ardentíssimos anseios e súplicas desejamos ser imitadores da sua fé e das suas virtudes, partilhar com eles a salvação eterna, habitar eternamente com eles na presença de Deus e regozijar-nos com eles em Cristo. Neste ponto aprovamos o que diz Santo Agostinho: “Não seja a nossa religião um culto dos mortos. Pois, se viveram vidas santas, não devemos supor que estejam à procura de tais honras; ao contrário, querem que adoremos Aquele por cuja iluminação eles se alegram de que sejamos conservos dos seus méritos. Devem, portanto, ser honrados pela imitação, e não adorados por religião”, etc. (De Vera Religione, LV, 108).
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Comentário: Primeiro é preciso dizer que os santos que estão nos céus são nossos irmãos por causa de Jesus Cristo. Aos deuses do paganismo nós desprezamos e repudiamos porque sabemos que não passam de invenções dos homens e são verdadeiros demônios. Mas aos homens e mulheres que viveram piedosamente aqui na terra, muitos dos quais selaram o seu testemunho com o próprio sangue, a esses temos em grande estima, tentamos imitar sua vida e esperamos um dia a honra de estar onde eles estão. Agora, invocar o nome deles, solicitar-lhes ajuda sob quaisquer circunstâncias não é de forma alguma honrá-los mas envergonhá-los. A invocação aos santos, assim como fazer imagens deles é uma clara desobediência a Deus e a sua Palavra.
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Relíquias dos santos
Muito menos cremos que as relíquias dos santos devem ser adoradas ou cultuadas. Aqueles santos antigos pareciam ter honrado suficientemente seus mortos, se de modo decente tinham entregado seus restos mortais à terra, depois que os espíritos subiram ao alto. E consideravam que as mais nobres relíquias de seus ancestrais eram suas virtudes, sua doutrina e sua fé, as quais, como eles as recomendavam pelo louvor dos seus mortos, assim se esforçavam para imitá-las enquanto viviam na terra.
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Comentário: Por outro lado, também ir atrás de conseguir algumas relíquias dos santos que estão na glória, é outra ignorância que revela um nível deprimente de analfabetismo bíblico. Isso é superstição, idolatria, paganismo que jamais deveria sequer ser nomeado no meio do povo de Deus. É muito claro, à luz das escrituras sagradas, que não há nenhum proveito espiritual em reter peças de vestimentas ou objetos que pertenceram a algum santo, ou mesmo o que resta dos seus corpos. Ao contrário, isso é uma prática abominável que traz grande prejuízo e perturbação no meio da Igreja. Estenda-se aqui a superstição de considerar alguns lugares sagrados, como Jerusalém, Rio Jordão, ou ainda objetos como pedras, terra e água trazidas de lá como se tivessem poder milagroso. Nada disso é cristianismo.
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Juramento só pelo nome de Deus
Aqueles homens antigos não juravam senão pelo nome do único Deus, Javé, como ordenava a lei divina. Como por ela é proibido jurar pelo nome de deuses estranhos (Êx. 23.13; Deut. 10.20), assim não juramos em nome dos santos, como se exige de nós. Rejeitamos, portanto, em todas estas questões, uma doutrina que atribui mais do que o devido aos santos que estão nos céus.
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Comentário: Então, como já vimos, Deus é um só e Ele estabeleceu como Mediador entre Si e os pecadores o Seu próprio Filho, Jesus Cristo. Por isso está escrito que há um único Mediador entre Deus e os homens e esse é Jesus Cristo de Nazaré [1ª Timóteo 2.5], e também que o único nome debaixo do céu, dado a nós, pelo qual somos salvos é o de nome de Jesus [Atos 4.10-12]. Deus é o objeto da nossa adoração e Ele mesmo estabeleceu como deseja ser adorado. Só podemos adorar a Deus através de Jesus Cristo, na face de Jesus Cristo, unicamente. Qualquer outra forma de aproximação de Deus é invenção da mente humana tendenciosa ao subjetivismo e superstição. A adição dos santos que estão nos céus como sendo co-mediadores ou co-intercessores é uma dessas perigosas invenções da mente caída, sempre pronta a desviar-se da verdade objetiva dos mandamentos de Deus. Os santos que estão nos céus, gozam da presença de Deus, sim, mas não são oniscientes e nem onipresentes, atributos incomunicáveis de Deus. Portanto nenhum dos santos, nem mesmo o mais sublime e glorioso pode ouvir uma oração sequer aqui da terra, muito menos muitas orações a um só tempo. Isso é atributo exclusivo e incomunicável do Todo-poderoso e nenhuma criatura recebeu tal capacidade. É, portanto, além de desobediência, também tolice invocar os santos; eles não podem ouvir. Guardar relíquias dos santos é pura tolice e cultuá-las estultice, pura superstição e paganismo tomando o lugar da Palavra de Deus no coração do homem. O mandamento apostólico que a igreja apostólica deve observar é: Fugi da idolatria - 1ª Coríntios 10.14, porque nenhum idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus - Efésios 5.5.
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6. Da Providência de Deus
Todas as coisas são governadas pela Providência de Deus
Cremos que tudo o que há no céu e na terra, e em todas as criaturas, é preservado e governado pela providência deste Deus sábio, eterno e onipotente. Davi o testifica e diz: Excelso é o Senhor acima de todas as nações, e a sua glória acima dos céus. Quem há semelhante ao Senhor nosso Deus, cujo trono está nas alturas; que se inclina para ver o que se passa no céu e sobre a terra? (Sal 113,4 ss). Outra vez: Esquadrinhas... todos os meus caminhos. Ainda a palavra me não chegou à língua, e tu, Senhor, já a conheces toda (Sal 139, 3 ss). São Paulo também testifica e declara: Nele vivemos, e nos movemos, e existimos (At 17, 28), e dele e por meio dele e para ele são todas as cousas (Rom 11, 36). Portanto Santo Agostinho, muito acertadamente e segundo a Escritura, declarou em seu livro De Agone Christi, cap. 8: “O Senhor disse: ‘Não se vendem dois pardais por um asse? e nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai’” (Mat 10.29). Assim falando, ele quis mostrar que aquilo que os homens consideram de valor insignificante é governado pela onipotência de Deus. Porquanto aquele que é a verdade diz que as aves do céu são alimentadas por ele e os lírios do campo são vestidos por ele; e diz também, que os cabelos de nossa cabeça estão contados (Mat 6.26 ss).
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Comentário: Sim, Deus governa efetivamente sua criação no céu e na terra, os seres visíveis e os invisíveis, tanto a parte caída quanto a parte redimida, nada deixando fora do seu governo soberano e meticuloso. Rege anjo por anjo, homem por homem, tanto bons quanto maus, todo ser vivente em todas as instâncias da sua criação. Cada partícula das coisas, cada movimento delas é governado precisamente, de modo que nada escapole do seu perfeito domínio. O Senhor também governa todos os movimentos das suas criaturas e todas as circunstâncias que as envolvem, conduzindo todas as coisas para o fim que ele próprio decretou desde a antiguidade. Ele o faz tranquila e solenemente, pelo seu poder onipotente.
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Os Epicureus
Condenamos, portanto, os epicureus que negam a providência de Deus e todos quantos blasfemem dizendo que Deus está ocupado com os céus e nem nos vê, nem vê nossos interesses, nem cuida de nós. Davi, o rei-profeta, também os condenou, quando disse: Senhor, até quando exultarão os perversos? Dizem: O Senhor não vê; nem disso faz caso o Deus de Jacó. Atendei, ó estúpidos dentre o povo; e vós insensatos, quando sereis prudentes? O que fez o ouvido, acaso não ouvirá? e o que formou os olhos, será que não enxerga? (Sal 94, 3.7-9).
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Comentário: Para muitos as coisas se resumem no que podem ver e não compreendem nada além dos cinco sentidos. Obviamente que os homens naturais jamais penetrarão esses mistérios, porque os mistérios do reino dos céus são revelados somente aos que estão dentro do mesmo reino [Lucas 8.10]. Para compreender os mistérios espirituais é preciso ser nascido do Espírito, porque tais coisas estão ocultas aos cinco sentidos naturais e comuns.
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Os meios não devem ser desprezados
Entretanto, não desprezamos como inúteis os meios pelos quais opera a providência divina, mas ensinamos que devemos acomodar-nos a eles, na medida em que nos são recomendados na Palavra de Deus. Eis por que desaprovamos as afirmações temerárias daqueles que dizem que, se todas as coisas são geridas pela providência de Deus, então nossos esforços e diligências são inúteis. Seria o bastante deixarmos tudo ao governo da divina providência e não nos preocuparmos nem fazermos coisa alguma. São Paulo reconhecia que navegava sob a providência de Deus, que lhe dissera: … deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma (At 23.11), e em adição lhe havia prometido: Porque nenhuma vida se perderá de dentre vós... pois nenhum de vós perderá nem mesmo um fio de cabelo (At. 27.22-34). Todavia, quando os marinheiros estavam pensando em abandonar o navio, ele mesmo disse ao centurião e aos soldados: Se estes não permanecerem a bordo, vós não podereis salvar-vos (At 27.31). Deus, que destinou a cada coisa o seu fim, ordenou o começo e os meios pelos quais a coisa atinge seu alvo. Os pagãos atribuem as coisas à fortuna cega e ao acaso incerto. No entanto, São Tiago não deseja que digamos: Hoje, ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos e teremos lucros, mas aconselha: Em vez disso, deveis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como faremos isto ou aquilo (Tiago 4.13-15). E Santo Agostinho diz: “Tudo o que para os homens vãos, na natureza parece acontecer por acidente, realiza simplesmente a sua Palavra, porque não acontece senão por sua ordem” (Enarrationes in Psalmos, 148). Assim, parecia acontecer por mero acaso quando Saul, enquanto procurava as jumentas de seu pai, inesperadamente se encontrou com o profeta Samuel. Mas previamente o Senhor dissera ao profeta: Amanhã a estas horas te enviarei um homem da terra de Benjamim (1º Sam 9.16).
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Comentário: Providência não é apenas Deus provendo alguma coisa para si ou para sua criação, mas muito mais que isso. Providência significa que ele sustenta, mantém, governa, administra e dirige toda a criação e criaturas. Controla seus atos, suas atividades e todas as circunstâncias que as envolvem, dirigindo tudo e todos para um propósito específico que decretou desde o início. Nada foge ou escapa ao seu controle absoluto e soberano. Ele conhece tudo, vê tudo e tudo gere tanto no céu como na terra, no mundo visível e no invisível. Nada está fora do seu campo de visão nem de fora de seu alcance ou fora de seu domínio. Quando o Senhor Jesus disse: É-me dado todo o poder no céu e na terra - Mateus 28.18, o Pai estava lhe conferindo esse posto de Gestor Universal. Negar essa doutrina é negar a veracidade das Escrituras e consequentemente questionar o próprio Deus. Questionar a soberania absoluta de Deus é irreverente, insultuoso e blasfemo. A Escritura nos ensina que Deus atinge os fins que decretou valendo-se dos meios que também ordenou para cumpri-los. Assim sendo devemos ser zelosos no uso de todos os meios que Deus nos orientou usar, especialmente a oração e o testemunho. Exatamente porque sabemos que Deus tem muitos eleitos na terra, devemos anunciar zelosamente o evangelho da salvação a toda criatura debaixo do céu. Se sabemos que Deus fará muitas coisas através da oração do seu povo, então devemos orar ainda mais intensamente como Igreja do Senhor. A soberania de Deus é uma motivação muito grande para a nossa oração. Quanto mais a Igreja compreender essa doutrina tanto mais orará, pregará zelosamente o evangelho, enfim, buscará obedecer a vontade revelada de Deus, deixando os resultados com Ele e entregando-lhe toda a glória. Amém.
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7. Da criação de todas as coisas: dos anjos, do diabo e do homem
Deus criou todas as coisas
Este Deus bom e onipotente criou todas as coisas, visíveis e invisíveis, pela sua Palavra coeterna, e as preserva pelo seu Espírito coeterno, como Davi testificou, quando disse: Os céus por sua palavra se fizeram, e pelo sopro de sua boca o exército deles (Sal 33.6). E, como diz a Escritura, tudo o que Deus fez era muito bom, e foi feito para proveito e uso do homem. Ora, afirmamos que todas aquelas coisas partiram de um princípio.
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Comentário: Deus é bom, tudo quanto ele faz é bom, toda sua criação é boa. Ele mesmo avaliou a criação e concluiu que tudo quanto havia feito era muito bom [Gênesis 1.31]. Sendo a bondade um atributo de Deus, portanto imutável, tudo quanto ele faz, invariavelmente é bom. Mesmo quando na concepção humana, algo pareça não ser completamente bom, devemos lembrar que nossa perspectiva é temporal e olhamos de baixo para cima, mas podemos estar certos de que Deus sempre e em todas as coisas, tem um propósito bom.
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Maniqueus e Marcionitas
Portanto, condenamos os maniqueus e os marcionitas que impiamente imaginaram duas substâncias e duas naturezas, a do bem e a do mal; também dois princípios e dois deuses, um contrário ao outro, um bom e um mau.
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Comentário: O dualismo é um dos pensamentos religiosos mais antigos da humanidade. O bem e o mal se contrapondo e lutando no mundo como se dois deuses fossem. Ora parece que o mal está em vantagem, ora que o bem está vencendo. Até mesmo muitos cristãos têm uma cosmovisão parecida com o antigo dualismo. Muitos parecem supor que Deus faz um grande esforço para conter Satanás e os demônios em suas atividades malignas. E também se esforça muito para salvar todos os homens mas encontra muita resistência e acaba meio que frustrado em seus desígnios. Essa deformidade doutrinária surge pela falta de compreensão da soberania de nosso maravilhoso Senhor.
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Dos anjos e do diabo
Entre todas as criaturas, os anjos e os homens são os mais excelentes. Dos anjos declara a Santa Escritura: “Fazes a teus anjos ventos, e a teus ministros, labaredas de fogo” (Sal 104.4). Diz ainda: “Não são todos eles espíritos ministradores enviados para serviço, a favor dos que hão de herdar a salvação?” (Heb 1.14). Do Diabo testifica o próprio Senhor Jesus: “Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade. Quando ele profere a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (João 8.44). Portanto, ensinamos que alguns anjos persistiram na obediência e foram designados para fiel serviço a Deus e aos homens, mas outros caíram pela sua própria vontade e foram precipitados na ruína, tornando-se inimigos de todo o bem e dos fiéis, etc.
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Comentário: As Escrituras fazem silêncio sobre a queda do grande Querubim e dos milhares de seres celestiais que o seguiram na sua rebelião contra o Criador. Tudo que sabemos é que houve na eternidade uma queda entre os seres angelicais e que tal queda separou em definitivo os anjos eleitos, os quais permanecem na presença de Deus, daqueles rebeldes que se insurgiram contra o trono de Deus e foram expulsos do céu. Essa insurreição trouxe sobre tais criaturas uma condenação definitiva e eterna, não havendo para eles redenção [Mateus 25.41; 2a Pedro 2.4; Judas 1.6].
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Do homem
Já do homem diz a Escritura que no princípio ele foi criado bom, à imagem e semelhança de Deus, que Deus o colocou no Paraíso e lhe sujeitou todas as coisas (Gênesis 2). Isso é o que Davi magnificamente celebra no Salmo 8. Além disso, Deus lhe deu uma esposa e os abençoou. Afirmamos também que o homem consiste de duas substâncias diferentes numa pessoa: de uma alma imortal, que, quando separada do corpo, nem dorme nem morre, e de um corpo mortal que, porém, ressuscitará dos mortos no juízo final, de modo que desde então o homem todo, na vida ou na morte, viva para sempre.
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Comentário: Semelhantemente aos anjos rebeldes, o homem também incorreu em transgressão e traiu Deus, quebrando sua aliança [Oséias 6.7]. Diferentemente, porém, dos anjos que caíram na eternidade e sua caída foi em definitivo, o homem caiu no tempo e Deus havia feito provisão para sua redenção. O Redentor foi anunciado logo após a queda, ainda no Éden [Gênesis 3.15]. O homem, que foi feito à imagem e semelhança de Deus, é uma alma vivente, composto de uma parte espiritual e outra física. Aquele que crê em Deus e recebe a redenção em Jesus Cristo, morrendo fisicamente, sua alma é recolhida por Deus e na ressurreição do último dia receberá um corpo novo, incorruptível, semelhante ao de Jesus [1a Coríntios 15.52-53; Filipenses 3.21].
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As seitas
Condenamos todos os que ridicularizam ou mediante argumentos subtis põem em dúvida a imortalidade das almas, ou dizem que a alma dorme ou é parte de Deus. Em resumo, condenamos todas as opiniões de todos os homens, por mais numerosos que sejam, que ensinam diversamente do que, a respeito da criação, dos anjos e dos demônios, e do homem, nos foi ensinado pelas Santas Escrituras na Igreja apostólica de Cristo.
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Comentário: “Creio em Deus Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra”. Assim reza o nosso Credo e nessa fé histórica nos mantemos. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez - João 1.3. Ele não apenas criou mas também mantém, sustenta e preserva todas as coisas para o fim que lhes decretou. Desde o Éden o inimigo usa as próprias criaturas para distorcer as santas palavras de Deus, mas, como disse o Senhor: … as ovelhas não os ouviram - João 10.8. Então, que falem os hereges para a sua própria perdição, pois quem não tem temor de torcer as palavras do Altíssimo, pecou contra a misericórdia e está destituído da graça. Em seu conselho eterno aprouve a Deus criar anjos e homens como seres inteligentes, livres e responsáveis. Uma parte dos anjos caiu numa rebelião encabeçada por Satanás. A esses Deus condenou sumariamente pois se tornaram essencialmente malignos e inimigos de Deus e de todo o bem. O homem criado, sendo seduzido por Satanás, também traiu Deus, desobedecendo-o, tornando-se um aliado dos anjos rebeldes. Deus interveio para desfazer essa amizade fatal e salvar uma parte da descendência caída. Assim, os anjos eleitos não caíram na rebelião de Satanás, já os homens caíram todos, mas os que Deus elegeu foram redimidos pelo sacrifício de Cristo na cruz. Enquanto neste mundo caído, estamos sujeitos a muitas tentações e fraquezas, porque nosso corpo ainda não foi redimido. Quando deixarmos este mundo para ir à nossa verdadeira morada, deixaremos a velha casa para trás juntamente com o pecado e nossa alma voará para o Paraíso, enquanto nosso corpo aguardará a ressurreição do último dia. a desfrutar da comunhão do Senhor e de todos os santos. Mas imediatamente após a nossa saída deste mundo iremos para onde estão os anjos e todos os redimidos do Cordeiro, aqueles que foram comprados da terra, perdoados da culpa do pecado, livres da corrupção e do poder do pecado, para sempre livres da presença do pecado, onde seguirão “o Cordeiro para onde quer que vá” - Apocalipse 14.4. Esse é o ensino da santa Igreja apostólica católica desde o princípio. Tudo quanto destoar disso deve ser rejeitado pelo povo de Deus.
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8. Da queda do homem, do pecado e sua causa
A queda do homem
Desde o início foi o homem por Deus criado à imagem de Deus, em justiça e santidade de verdade, bom e reto, mas, por instigação da serpente e pela sua própria culpa, ele se afastou da bondade e da retidão e tornou-se sujeito ao pecado, à morte e a várias calamidades. E qual veio ele a ser pela queda – isto é, sujeito ao pecado, à morte e a várias calamidades – tais são todos os que dele descenderam.
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Comentário: Tendo sido Adão criado à imagem e semelhança de Deus, ele não estava sujeito ao pecado e não precisava pecar. Foi ele colocado numa plataforma onde tinha todas as condições para escolher obedecer e ser fiel a Deus. Então veio a serpente com sua sutileza e o sugestionou com respeito a árvore proibida por Deus, induzindo-o a relativização da ordem de Deus. Adão deu ouvidos à sua mulher e ambos comeram da árvore que Deus havia proibido, caindo da vida para a morte e colocando toda sua descendência sob a mesma condição. Quando Adão teve um filho é dito que ele era “à sua semelhança, conforme a sua imagem, e chamou o seu nome Sete” – Gênesis 5.3. Obviamente que o homem continua sendo à imagem e semelhança de Deus, porém, a Bíblia já faz essa ressalva dizendo ser o filho de Adão à sua imagem e semelhança, mostrando que todos os descendentes de Adão já nasceriam caídos, com pecado, culpados, herdeiros dos espinhos e cardos - Gênesis 3.18.
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Pecado
Por pecado entendemos a corrupção inata do homem, que se comunicou ou propagou de nossos primeiros pais, a todos nós, pela qual nós – mergulhados em más concupiscências, avessos a todo o bem, inclinados a todo o mal, cheios de toda impiedade, de descrenças, de desprezo e de ódio a Deus – nada de bom podemos fazer, e, até, nem ao menos podemos pensar por nós mesmos. Além disso, à medida que passam os anos, por pensamentos, palavras e obras más, contrárias à lei de Deus, produzimos frutos corrompidos, dignos de uma árvore má (Mat 12.33ss). Por essa razão, sujeitos à ira de Deus, por nossas próprias culpas, estamos expostos ao justo castigo, de modo que todos nós teríamos sido por Deus lançados fora, se Cristo, o Libertador, não nos tivesse reconduzido.
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Comentário: A maior desgraça da humanidade se chama pecado. O pecado é o mal maior de onde procede toda miséria humana. A natureza pecaminosa é inimiga de Deus, rejeita-o e despreza-o. O pecado cega o homem de tal modo que ele não tem desejo de servir a Deus e não se importa com tantas advertências com respeito a sua própria condenação. Ele cria o seu próprio deus e o faz conforme sua semelhança: com olhos, mas que não veem, ouvidos que não podem ouvir, boca que não fala, pés que não andam, mãos que não se movem. Quanto mais tempo o homem fica sob o domínio do pecado, tanto mais consolida sua própria condenação e fica mais parecido com satanás: mais endurecido, mais rebelde, mais orgulhoso, mais egoísta e mais perto do lago de fogo.
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Morte
Por morte entendemos não só a morte corpórea, que todos nós teremos de experimentar uma vez, por causa dos pecados, mas também os suplícios eternos devidos aos nossos pecados e à nossa corrupção. Eis o que diz o apóstolo: “Estando vós mortos nos vossos delitos e pecados... éramos por natureza filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia... e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo” (Ef 2.1 ss). E também: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rom 5.12).
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Comentário: Morte, num certo sentido, é um estado de punição e condenação, porque é o salário do pecado. Caindo Adão, caiu da vida para a morte e nesse estado permaneceria eternamente, se Deus não fizesse provisão para restaurá-lo e trazê-lo de volta à vida. O caminho inverso é feito pelo Redentor, ele é a ponte que reconecta Adão à vida. Cada descendente de Adão já nasce do lado em que Adão caiu e para ser restabelecido à plataforma da vida precisa vir por meio do Senhor Jesus Cristo. Quem não fizer esse caminho em obediência a Deus, permanece onde nasceu e irá para a condenação eterna.
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Pecado original; pecados atuais
Reconhecemos, portanto, que há pecado original em todos os homens. Reconhecemos que todos os outros pecados que deste provêm são chamados, e verdadeiramente são, pecados, qualquer que seja o nome que lhes seja dado – pecados mortais, veniais ou mesmo aquele que é chamado pecado contra o Espírito Santo, que nunca é perdoado (Mc 3.29; 1ª João 5.16). Confessamos também que os pecados não são iguais: embora surjam da mesma fonte de corrupção e incredulidade, alguns são mais graves que os outros. Como disse o Senhor, haverá mais tolerância para Sodoma do que para a cidade que rejeita a palavra do Evangelho (Mat 10.14ss; 11.20ss).
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Comentário: Cada membro da família de Adão é concebido em pecado e já nasce sob o pecado e sob a sentença de morte. Cada dia que vivemos agravamos a situação e aumentamos a dívida adâmica que herdamos por nascimento, porque continuamos a pecar até deixarmos este corpo e este mundo. Graças, porém, a Deus que não abandonou Adão na plataforma da morte, o que, se houvesse feito, o faria justamente. Mas o Deus de amor e misericórdia interveio, estendeu-lhe a poderosa mão e lhe ofereceu perdão e reconciliação por meio do Redentor que viria. Tudo quanto Adão devia fazer é o que também nós devemos: crer e confiar em Deus. Esse crer, obviamente, implica arrependimento e obediência, para o que necessitamos da assistência do Espírito Santo.
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As seitas
Condenamos, portanto, todos os que ensinaram o contrário disto, especialmente Pelágio e todos os pelagianos, juntamente com os jovinianos, que, com os estóicos, consideravam todos os pecados como iguais. Em toda esta questão concordamos com Santo Agostinho, que das Escrituras Sagradas extraiu seu ponto de vista e por elas o defendeu. Mais ainda, condenamos Florino e Blasto, contra quem escreveu Irineu, e todos os que fazem Deus o autor do pecado.
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Comentário: As seitas espalham suas falsas doutrinas torcendo a Palavra de Deus. Alguns não aceitam a completa corrupção do homem caído e supõem que ele não precisa de completa restauração e sim apenas alguma ajuda para sair da cova em que caiu, parecendo dizer que a queda não foi um desastre completo e que bastam alguns remendos para colocar tudo em ordem novamente. Outros parecem sugerir ser o próprio Deus o autor do pecado, o que por si só se mostra um pensamento blasfemo e repulsivo. O que vemos claramente nas escrituras é que a queda causou na criação um estrago ímpar e sem precedentes, e que se fez necessária uma nova criação. O pecado de Adão estragou tudo, por isso a Bíblia nos fala duma nova criação. Novo homem, novo céu e nova terra porque tudo foi arruinado pelo pecado de Adão, que é único responsável e culpado pelo seu pecado.
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Deus não é o autor do pecado; e até onde se pode dizer que Ele endurece
Está claramente escrito: “Tu não és Deus que se agrade com a iniquidade. Aborreces a todos que praticam iniquidade. Tu destróis os que proferem mentira” (Sal 5.4ss). E de novo: “Quando ele profere a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (João 8.44). Além disso, há em nós suficiente pecado e corrupção, não sendo necessário que Deus em nós infunda uma nova e ainda maior depravação. Quando, portanto, se diz nas Escrituras que Deus endurece, cega e entrega a uma disposição réproba de mente, deve-se entender que Deus o faz mediante um justo juízo, como um Juiz vingador e justo. Finalmente, sempre que na Escritura se diz ou parece que Deus faz algo mau, não se diz, por isso, que o homem não pratique o mal, mas que Deus o permite e não o impede, segundo o seu justo juízo, que poderia impedi-lo se o quisesse, ou porque ele transforma o mal do homem em bem, como fez no caso do pecado dos irmãos de José, ou porque ele próprio controla os pecados, para que não irrompam e grassem mais largamente do que convém. Santo Agostinho escreve em seu Enchiridion: “De modo admirável e inexplicável não se faz além da sua vontade aquilo que contra a sua vontade faz. Pois não se faria, se ele não o permitisse. E, no entanto, ele não o permite contra a vontade, mas voluntariamente. O bom não permitiria que se fizesse o mal, a não ser que, sendo onipotente, pudesse do mal fazer o bem”. É isso o que ele diz.
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Comentário: Reafirmamos os oráculos de Deus que nos ensinam que ele não é o autor do pecado, pois Deus é Santo, Santo, Santo, e jamais pode dele sair qualquer coisa que não seja boa, perfeita, pura e essencialmente santa. O pecado é um fruto impuro e essencialmente maligno que surgiu no coração das criaturas em consequência do seu orgulho e desobediência. Em sua infinita sabedoria Deus usa o próprio pecado para punir o pecador, entregando-o ao pecado. Com os seus eleitos, fá-lo temporariamente, mas aos réprobos, eternamente. Então, muitas vezes, como juízo, Deus pode endurecer o homem no pecado, cegá-lo quanto ao pecado e entregá-lo a uma disposição mental inclinada ao pecado para sua própria condenação.
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Questões curiosas
As demais questões – tais como, se Deus quis que Adão caísse, ou se o incitou à queda, ou por que não impediu a queda e outras semelhantes – nós as reconhecemos como curiosas (salvo, talvez, se a impiedade dos heréticos ou de outros homens grosseiros nos leve a explicá-las também, com base na Palavra de Deus, como frequentemente o fizeram os piedosos doutores da Igreja), sabendo que o Senhor proibiu o homem de comer do fruto proibido e puniu sua transgressão. Sabemos também que as coisas que se fazem não são más com respeito à providência, à vontade e ao poder de Deus, mas com respeito a Satanás e à nossa vontade que se opõe à vontade de Deus.
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Comentário: Que o homem foi criado bom nós sabemos pela própria declaração do Espírito Santo que disse: E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom - Gênesis 1.31. E quem melhor que o próprio Criador para avaliar Suas obras? Uma criatura perfeita tinha que ter moto própria, até para que pudesse escolher voluntariamente servir e amar a Deus. Contudo, instigados pela serpente, tanto Eva quanto Adão foram atraídos pelas falsas promessas do inimigo de Deus e transgrediram o mandamento do Senhor. Embora fossem enganados e caíssem numa cilada, obviamente foram responsabilizados pelas suas decisões e tiveram que responder por elas e sofrer as consequências. Além disso, sua desobediência foi a porta de entrada para o pecado na humanidade. Pelo pecado entrou a morte e tanto esta quanto aquela passaram a todos os descendentes do primeiro casal. Em Adão todos pecaram, por isso todos estão condenados à morrer em consequência disso. E morrer não apenas fisicamente, senão também espiritualmente, que é a morte mais trágica. O pecado leva tanto o corpo quanto a alma à morte eterna, que é a separação eterna de Deus e punição num terrível lugar “onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga” - Marcos 9.44. Embora todos nós quando vimos à este mundo já trazemos conosco o pecado herdado de Adão, suficiente para nos condenar, não paramos aí, antes aumentamos muito nossa culpa diante de Deus, pecando mais e mais enquanto estamos nesse corpo caído. Por isso mesmo que o ensino apostólico é que mesmo depois de regenerados devemos lutar intensamente contra o pecado, resistindo-o até à morte se necessário for. Embora para a mente limitada da criatura e ainda caída, seja difícil compreender a questão: “Como o mal entrou na criação?”, temos que pensar sempre que em Deus ele não se originou porque Deus é a essência de todo o bem, e como o sumo bem jamais poderia dar origem ao pecado e ao mal. Parafraseando Santo Tomás de Aquino, as trevas são uma consequência natural da ausência da luz na criação, assim também o mal é a ausência do bem na criatura. Uma ausência que propicia e efetiva a entrada do mal. O mal surgiu no vácuo deixado pelo bem. Somos filhos de Deus e não precisamos conhecer todos os seus mistérios nem investigá-los. O que ele nos revelou é plenamente suficiente para a nossa salvação e para nos prostrar diante dele em humilde adoração. O adorador não é um investigador curioso buscando satisfazer suas especulações, mas é um servo satisfeito com a graça, rendido pelo amor de Deus, absorvido pela beleza do Redentor, que se prostra e adora sem reservas, cheio de admiração e gratidão.
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9. Do livre arbítrio e da capacidade humana
Nesta questão, que sempre produziu muitos conflitos na Igreja, ensinamos que se deve considerar uma tríplice condição ou estado do homem.
Qual era o homem antes da queda
Há o estado em que o homem se encontrava no princípio, antes da queda; era certamente reto e livre, de modo que podia continuar no bem ou declinar para o mal, mas inclinou-se para o mal e se envolveu a si mesmo e a toda a raça humana em pecado e morte, como se disse acima.
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Comentário: Deus criou tudo perfeito conforme sua própria natureza. Ele é perfeito e tudo quanto faz é segundo esse seu atributo. Perfeição é o que se vê em todas as suas obras. Nelas não há falta, não há erro, não podem ser melhoradas. Cada coisa que ele fez cumpre exatamente seu papel. Assim o homem foi feito conforme a natureza de Deus: perfeito para cumprir o propósito para que fora criado. A queda o desequilibrou, corrompeu e o inclinou para as coisas fora Deus.
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Qual se tornou o homem depois da queda
Depois, importa considerar qual se tornou o homem depois da queda. Sem dúvida, seu entendimento não lhe foi retirado, nem foi ele privado de vontade, nem foi transformado inteiramente numa pedra ou árvore; mas seu entendimento e sua vontade foram de tal sorte alterados e enfraquecidos que não podem mais fazer o que podiam antes da queda. O entendimento se obscureceu, e a vontade, que era livre, tornou-se uma vontade escrava. Agora ela serve ao pecado, não involuntária mas voluntariamente. Tanto é assim que o seu nome é “vontade”; não é “não-vontade”.
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Comentário: O pecado causou no homem uma mudança intrínseca, sua própria natureza foi modificada. Ele não perdeu completamente seus atributos originais, mas eles foram acidentados e sofreram alterações funcionais. Depois que provou da droga da serpente, seu instinto viciou e tornou-se dependente. Daí porque não tem vontade para servir ao Deus Santo, mas volta-se para o pecado mesmo sendo advertido e castigado com os cardos e espinhos.
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O homem pratica o mal por sua própria vontade
Portanto, quanto ao mal ou ao pecado, o homem não é forçado por Deus ou pelo Diabo, mas pratica o mal espontaneamente e nesse sentido ele tem arbítrio muito livre. Mas o fato de vermos, não raro, que os piores crimes e desígnios dos homens são impedidos por Deus de atingir seus propósitos não tolhe a liberdade do homem na prática do mal, mas é Deus que pelo seu próprio poder impede aquilo que o homem livremente determinou de modo diverso. Assim, os irmãos de José livremente determinaram desfazer-se dele, mas não o puderam, porque outra coisa parecia bem ao conselho de Deus.
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Comentário:
Certamente
porque o homem tem uma vontade própria é que ele é justamente
responsabilizado pelos seus atos. Depois da queda a sua vontade
tornou-se mais compatível com a dos inimigos de Deus. A vontade dos
anjos eleitos e dos santos que estão na glória é alinhada com a
vontade de Deus. Já a vontade dos seres caídos é contrária a
vontade de Deus. Porém, quando o pecador
é liberto e assistido pelo Espírito Santo, ele busca alinhar sua
vontade à vontade de Deus. Há
em cada cristão um desejo de fazer a vontade de Deus que luta contra
a vontade caída - Porque,
segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus;
Mas vejo
nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu
entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus
membros - Romanos 7.22-23.
Deus, contudo, intervém muitas vezes para conter a maldade, a
violência, as injustiças que os homens fariam se não fossem
governados pelo Senhor.
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O homem por si só não é capaz do bem
Com referência ao bem e à virtude, o entendimento do homem, por si mesmo, não julga retamente a respeito das coisas divinas. A Escritura evangélica e apostólica requer regeneração de todos aqueles de entre nós que desejamos ser salvos. Por conseguinte, nosso primeiro nascimento de Adão em nada contribui para nossa salvação. São Paulo diz: “O homem natural não aceita as cousas do Espírito de Deus...” (1ª Co 2.14). E em outra passagem ele afirma que nós, por nós mesmos, não somos capazes de pensar nada de bom (2ª Co 3.5). Ora, sabe-se que a mente ou entendimento é a luz da vontade, e quando o guia é cego, é óbvio até onde a vontade poderá chegar. Por isso, o homem ainda não regenerado não tem livre arbítrio para o bem e nenhum poder para realizar o que é bom. O Senhor diz no Evangelho: “Em verdade, em verdade vos digo: Todo o que comete pecado é escravo do pecado” (João 8.34). E o apóstolo São Paulo diz: “Por isso o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar” (Rom 8.7). O entendimento das coisas terrenas, porém, não é inteiramente nulo no homem decaído.
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Comentário: O que era possível antes da queda, tornou-se impossível depois, isto é, se antes da queda o homem podia fazer o bem e evitar o mal, depois dela, tornou-se inapto para o bem e mais apto para o mal. Por isso o Senhor observou: … como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus?... - Mateus 12.34. Após comer do fruto proibido o homem não consegue fazer o bem e nem evitar o mal - Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço - Romanos 7.19. Porém, o que é regenerado tem suas faculdades renovadas e, assistido pelo Espírito Santo pode desejar o bem e também executá-lo.
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Compreensão das artes
Deus em sua misericórdia permitiu que permanecesse o talento natural, apesar de este distar muito daquele que existia no homem antes da queda. Deus manda o homem cultivar o seu talento e, ao mesmo tempo, lhe acrescenta dons e favores. E é manifesto que não fazemos nenhum progresso em todas as artes sem a bênção de Deus. Certamente, a Escritura atribui todas as artes a Deus; e, na verdade, até os pagãos atribuem a origem das artes a deuses, que seriam os seus inventores.
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Comentário: Se existiu alguém talentoso foi Adão, especialmente antes da queda. Ele usava todo o seu potencial para o bem. Ele muito hábil, inteligente, perfeitamente equilibrado em sua vontade e emoções. Ele não teve dificuldade para nomear cada um dos animais que Deus havia criado. Deus criou e deu a ele essa tarefa, a qual cumpriu prodigiosamente - Havendo, pois, o SENHOR Deus formado da terra todo animal do campo e toda ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome. E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo animal do campo… - Gênesis 2.19-20. A queda arruinou isso também nos descendentes de Adão, contudo, Deus ainda, por sua misericórdia capacita a muitos homens. Muitos deles usam seus talentos para o bem da humanidade, mas outros também usam para a sua própria satisfação.
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Quais são os poderes dos regenerados, e de que modo é livre o seu arbítrio
Finalmente, devemos ver se os regenerados têm e até que ponto têm livre arbítrio. Na regeneração, o entendimento é iluminado pelo Espírito Santo, para que compreenda os mistérios e a vontade de Deus. E a própria vontade não é somente mudada pelo Espírito, mas é também equipada com poderes, de modo, que ela espontaneamente deseje o bem e seja capaz de praticá-lo (Rom 8.1ss). Se não concedermos isso, negaremos a liberdade cristã e introduziremos uma servidão geral. Mas também o profeta registra o que Deus diz: “Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei” (Jer 31.33; Ez 36.26ss). E o Senhor também diz no Evangelho: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8.36). E São Paulo também escreve aos filipenses: “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo, e não somente de crerdes nele” (Fp 1.29). E outra vez: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus” (v. 6). E ainda: “Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (2.13).
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Comentário: Embora na queda o livre arbítrio do homem tenha sido encolhido pelo envenenamento, e por isso se inclina para o mal de forma geral, quando regenerado ele é liberto do poder daquela natureza envenenada. Sendo assim, ele tem mais desejo pelo bem, e movido pelo Espírito Santo também granjeia aquilo que almeja executar.
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Os regenerados operam não só passiva, mas ativamente
Entretanto, ensinamos que há duas coisas a serem observadas: Primeiro, que os regenerados, na sua eleição e operação, não agem só passiva mas ativamente. São levados por Deus a fazer por si mesmos o que fazem. Santo Agostinho muito bem afirma que “Deus é nosso ajudador. Mas ninguém pode ser ajudado, se não aquele que faz alguma coisa”. Os maniqueus despojavam o homem de toda ação e o faziam semelhante a uma pedra ou a um pedaço de pau.
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Comentário: Para todos os fins o pecador é responsabilizado pelos seus atos porque é um agente livre, especialmente em relação ao mal. E quando dizemos “mal” não é necessariamente aquilo que é extremamente maligno, mas aquilo que não está alinhado com a vontade de Deus. Assim, para que um homem possa fazer o bem, mesmo o regenerado, precisa ser motivado e potencializado pelo Espírito Santo. Para vir a Deus ele precisa ser primeiro liberto da inclinação pecaminosa e convencido da verdade pelo poder do Espírito Santo. Só então ele fará movimentos em direção a Deus.
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O livre arbítrio é fraco nos regenerados
Segundo, nos regenerados permanece a fraqueza. Desde que o pecado permanece em nós, e nos regenerados a carne luta contra o espírito até o fim de nossa vida, eles não conseguem realizar livremente tudo o que planejaram. Isso é confirmado pelo apóstolo em Rom 7 e Gal 5. Portanto, é fraco em nós o livre arbítrio por causa dos remanescentes do velho Adão e da corrupção humana inata, que permanece em nós até o fim de nossa vida. Entretanto, desde que os poderes da carne e os remanescentes do velho homem não são tão eficazes que extingam totalmente a operação do Espírito, os fiéis são por isso considerados livres, mas de modo tal que reconhecem a própria fraqueza e não se gloriam de modo algum em seu livre arbítrio. Os fiéis devem ter sempre em mente o que Santo Agostinho tantas vezes inculca, segundo o apóstolo: “o que tendes que não recebestes? Se, pois, o recebestes, por que vos vangloriais, como se não fosse um dom?” A isso ele acrescenta que aquilo que planejamos não acontece imediatamente, pois os resultados das coisas estão nas mãos de Deus. Esta a razão por que São Paulo ora ao Senhor para promover sua viagem (Rom 1.10). E esta é também a razão pela qual o livre arbítrio é fraco.
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Comentário: A regeneração não faz do novo homem um ser perfeito, mas o mofo da velha natureza permanece em sua carne e o segue até a sepultura. Então, obviamente que mesmo ele sendo libertado da escravidão do pecado ainda pode ceder àqueles antigos vícios. Desta forma o novo homem ainda tem muitas fraquezas em si mesmo e precisa clamar a Deus continuamente para não ceder aos apelos e assédios dos inimigos da sua alma, que estão todos unidos contra ele para que não faça o certo ainda que tenha consciência do bem e do mal. Daí a necessidade de tomarmos a nossa cruz a cada dia e seguirmos a Cristo. Somente nessa companhia o pecador pode ser vitorioso em evitar o mal e praticar o bem.
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Nas coisas externas há liberdade
Todavia, ninguém nega que nas coisas externas tanto os regenerados como os não-regenerados gozam de livre arbítrio. O homem tem em comum com os outros animais (aos quais ele não é inferior) esta natureza de querer umas coisas e não querer outras. Assim, ele pode falar ou ficar calado, sair de sua casa ou nela permanecer, etc. Contudo, mesmo aqui deve-se ver sempre o poder de Deus, pois essa foi a causa por que Balaão não pôde ir tão longe quanto desejava (Num, cap. 24), e Zacarias, ao voltar do templo, não podia falar como era seu desejo (Luc, cap. 1).
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Comentário: Em relação às coisas comuns e exteriores, a liberdade que temos é maior, pois mesmo caído o homem tem, além de capacidade para escolher e decidir, a inteligência que o diferencia dos seres irracionais. Contudo, até mesmo nas coisas mais simples e terrenas como comer e beber, poderá, assediado e seduzido pelo inimigo, agir errado, fora dos princípios e dos preceitos de Deus.
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Heresias
Nesta questão, condenamos os maniqueus, os quais afirmam que o início do mal, para o homem bom, não foi de seu livre arbítrio. Condenamos, também, os pelagianos, que afirmam que um homem mau tem suficiente livre arbítrio para praticar o bem que lhe é ordenado. Ambos são refutados pela Santa Escritura, que diz aos primeiros: “Deus fez o homem reto”; e aos segundos: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8.36).
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Comentário: O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, com liberdade de escolha, de pensamento, de ação, de reação; ele tinha liberdade para amar ou não amar, servir ou não, seguir ordens ou não... Como alguém já definiu muito bem: um agente livre, um ser com livre agência. Foi nessas condições que ele tomou a decisão mais desastrosa da sua vida e fez o pior negócio que poderia ter feito, trazendo sobre sua casa a maior desgraça. As consequências da sua desobediência a Deus trouxeram sobre toda a sua descendência a maldição, a condenação e a morte. A queda não matou o homem no que diz respeito ao seu entendimento e vontade, mas o aleijou, pois sua vontade que antes da queda era livre, agora ficou escrava do pecado. Não significa que ele ficou de tal maneira dominado de modo que sirva ao pecado forçosamente, mas o faz por inclinação natural. O que antes da queda era antinatural, pois ele não tinha a natureza pecaminosa, depois da queda passou a ser natural. O homem peca por natureza; sua natureza foi tão corrompida e adulterada que se Deus não impedisse, cada homem pecaria loucamente até destruir-se. Depois da queda, se não fora a assistência da graça de Deus, cada homem poderia tornar-se tão mau e perverso quanto um diabo; potencial para tanto não lhes falta. Por outro lado, em relação ao que é bom, o homem não tem desejo ou espontaneidade para tal. O Espírito de Deus precisa auxiliá-lo, estimulá-lo, encorajá-lo, do contrário ele se enveredará para o caminho do mal continuamente. Por isso mesmo, cada um daqueles que o Senhor determinou salvar, precisa ser regenerado, isto é, libertado da inclinação pecaminosa e reconduzido à comunhão de Deus, então tratado e ensinado sob as vistas de Deus. Nesta obra o Espírito de Deus muda sua inclinação interior e redireciona a sua vontade, capacitando-o a fazer o bem. Contudo, é preciso lembrar que, embora na regeneração haja livramento da escravidão do pecado, não há livramento da presença do pecado. O pecado continua habitando em nossa carne, por isso, mesmo o regenerado ainda tem muitas fraquezas, e deverá lutar contra o pecado enquanto estiver neste mundo. O homem natural não tem temor de Deus, o regenerado tem; o homem natural não se importa em ofender a Deus com seus pecados, o regenerado se importa muito; o homem natural odeia a lei de Deus, enquanto o regenerado ama a sua lei; o homem natural não luta contra o pecado, mas joga com o pecado que é seu líder; o regenerado combate o pecado porque deseja agradar a Deus, seu novo Senhor. Por isso, embora o crente seja ainda fraco e eventualmente ainda peque, já não cai mais onde o homem natural, que não tem o Espírito Santo, cai. Isto é, um verdadeiro crente não vive em pecados grosseiros como aqueles que se entregam ao pecado. Agora ele vive numa nova dimensão e perspectiva de vida.
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10. Da predestinação de Deus e da eleição dos santos
Deus nos elegeu pela graça
Deus, desde a eternidade, livremente e movido apenas pela sua graça, sem qualquer respeito humano, predestinou ou elegeu os santos que ele quer salvar em Cristo, segundo a palavra do apóstolo: “Ele nos escolheu nele antes da fundação do mundo” (Ef 1.4); e de novo: “... que nos salvou, e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos, e manifestada agora pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus” (2ª Tim 1.9-10).
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Comentário: Deus escolheu e elegeu homens para a salvação na mesma condição que escolheu e elegeu os anjos, na eternidade. Antes de criar, Deus planejou tudo de maneira sábia e soberana. Seus decretos foram promulgados antes da criação. Os anjos que não caíram seguindo o querubim rebelde, não caíram porque foram escolhidos e preservados por Deus. Aqueles dentre os homens que não permanecem na queda e se convertem a Deus o fazem porque Deus os escolheu. Escolha e eleição são implicações da graça soberana do Criador.
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Somos eleitos ou predestinados em Cristo
Portanto, não foi sem medo, embora não por qualquer mérito nosso, mas em Cristo e por causa de Cristo que Deus nos elegeu, para que aqueles que agora se encontram enxertados em Cristo pela fé também sejam eleitos, mas sejam rejeitados aqueles que estão fora de Cristo, segundo a palavra do apóstolo: “Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados” (2ª Co 13.5).
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Comentário: Cristo havia sido estabelecido no concerto eterno como o Salvador dos homens eleitos. Logo todos os salvos o são em Cristo e fora de Cristo não há salvo algum. O Pai escolheu dentre os homens um certo número e os deu ao seu Filho. Tanto o Redentor quanto os redimidos foram escolhidos na eternidade. Porque convinha que aquele para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles. Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos – Hebreus 2.10-11.
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Somos eleitos para um fim determinado
Finalmente, os santos são eleitos em Cristo por Deus para um fim determinado, que o apóstolo esclarece, quando diz: “Ele nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo... para o louvor da glória de sua graça” (Ef 1.4-6).
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Comentário: Tanto a criação quanto redenção têm como objetivo glorificar a Deus. Na criação ele revela seu poder onipotente, sua absoluta soberania, sua infinita sabedoria. Com a queda Deus revela sua justiça, ira santa e indignação contra o pecado e o mal, na redenção ele revela seu todo poderoso amor, sua benevolente misericórdia e sua preciosa e soberana graça.
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Devemos bem esperar acerca de todos
E, embora Deus conheça os que são seus, e nalgum lugar se faça menção do reduzido número dos eleitos, devemos, contudo, bem esperar acerca de todos, e não julgar apressadamente nenhum homem como rejeitado. São Paulo diz aos filipenses: “Dou graças ao meu Deus por tudo que recordo de vós” (ora, ele fala de toda a Igreja dos filipenses), “pela vossa cooperação no Evangelho... Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Fp 1.3-7).
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Comentário: Deus nos ordena a amar o nosso próximo como a nós próprios, e isto significa que devemos desejar a salvação de todos, orar e trabalhar para que projetemos a luz do evangelho sobre todos os que estão ao nosso redor e que o reino de Deus alcance os rincões mais longínquos da terra e encha toda a terra. Assim como nós fomos alcançados pela maravilhosa graça, devemos desejar que apraza a Deus alcançar todos quantos lhe trouxer glória e louvor. Assim como temos firme a promessa de que a obra que ele iniciou em nós há de ser completada, desejamos que todos quantos têm ouvido as boas novas de Deus cheguem ao pleno conhecimento do Senhor Jesus Cristo e sejam reunidos no seu redil.
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Sobre se são poucos os eleitos
E, quando perguntaram ao Senhor se eram poucos os que seriam salvos, ele não respondeu que poucos ou muitos seriam salvos ou condenados, mas antes exortou todo homem a “esforçar-se por entrar pela porta estreita” (Luc 13.24). É como se dissesse: “Não vos compete inquirir com muita curiosidade acerca dessas questões, mas antes esforçar-vos por entrar no céu pelo caminho estreito”.
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Comentário: De fato não cabe a nós investigar sobre os mistérios que Deus reservou exclusivamente para si mesmo, que é o de fazer todas as coisas como lhe apraz [Atos 1.6]. Somos seus servos e o servo não precisa saber as coisas do seu Amo, mas apenas obedecê-lo fielmente. Nenhum homem merece a salvação, esta é uma dádiva de Deus, que dá ao pecador que ele escolher a absolvição de seus pecados. Os decretos e propósitos de Deus dizem respeito somente a ele.
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O que deve ser condenado nesse caso
Por isso, não aprovamos as afirmações ímpias de alguns que dizem: “Poucos são os eleitos, e, como eu não sei se estou no número desses poucos, não me privarei dos prazeres”. Outros dizem: “Se sou predestinado ou eleito por Deus, nada me impedirá da salvação, já certamente determinada, seja o que for que eu fizer. Mas, se estou no número dos rejeitados, nenhuma fé ou arrependimento poderá valer-me, visto que a determinação de Deus não pode ser mudada. Portanto, todas as doutrinas e advertências são inúteis”. Mas o ensino do apóstolo contradiz estes homens: “O servo do Senhor deve ser apto para instruir... disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento ... livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele, para cumprirem a sua vontade” (2ª Tm 2.24-26).
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Comentário: O fato de sabermos sobre os mistérios que Deus reservou somente para si, deveria nos causar muito mais temor e reverência. Uma das provas da eleição de Deus é justamente o desejo de agradar a Deus e tudo fazer para promover sua glória. Se o pecador ama de fato a Deus, pode ter certeza de que Deus o amou primeiro e isto lhe traz consolo e segurança. A certeza de que Deus o amou o levará a viver em profunda gratidão a ele, a separar-se do mundo e do pecado. A eleição leva a fé, ao arrependimento e a santificação. Ela nos atrai para Cristo. O eleito crê na eleição e se prostra em adoração e gratidão a Deus. Ele pode ter dúvidas mas jamais duvida.
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As admoestações não são inúteis pelo fato de a salvação vir da eleição
Santo Agostinho também mostra que devem ser pregadas tanto a graça da livre eleição e predestinação como também as admoestações e doutrinas da salvação (De Bono Perseverantiae, cap. 14 ss).
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Comentário: A salvação é uma obra monergista porque provém unicamente da eleição de Deus. Uma vez eleito Deus fará o pecador chegar a si por obra do Espírito Santo. Contudo ela não é imposta ao pecador de forma absolutista contra a sua vontade. Deus espera a sua resposta e consentimento para realizá-la, mesmo porque o Espírito Santo trabalha no coração daquele que será chamado inclinando-o para o Senhor.
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Se somos eleitos
Condenamos, portanto, aqueles que, fora de Cristo, perguntam se são eleitos, e o que sobre eles decretou Deus antes de toda a eternidade, pois deve ser ouvida a pregação do Evangelho e deve-se crer nele, e deve-se ter como fora de dúvida que, se alguém crê e está em Cristo, é eleito. Com efeito, o Pai nos revelou em Cristo o eterno propósito da sua predestinação, como ainda há pouco expus, pelo que diz o apóstolo, em 2ª Tim 1.9-10. Deve-se, pois, ensinar e antes de tudo considerar quão grande amor do Pai para conosco nos foi revelado em Cristo. Devemos ouvir o que o próprio Senhor diariamente nos prega no Evangelho, como ele nos chama e diz: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mat 11.28); “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). E ainda: “Não é a vontade de vosso Pai celeste que pereça um só destes pequeninos” (Mat 18.14).
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Comentário: A doutrina da eleição tem um lugar próprio para ser ensinada. Como está nos Cânones de Dort: “Por isso, também hoje essa doutrina deve ser ensinada na Igreja de Deus, para a qual ela foi particularmente destinada, em tempo e lugar apropriados, com espírito criterioso, de modo reverente e santo, sem curiosa investigação dos caminhos do Altíssimo, para a glória do santíssimo nome de Deus, e para o vivo consolo do seu povo.” Não evangelizamos falando dessa doutrina, mas devemos pregar o amor de Deus pelos pecadores que “deu seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê, não pereça mas tenha a vida eterna” – João 3.16.
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Seja, pois, Cristo o espelho, no qual contemplemos a nossa predestinação
Teremos um testemunho bastante claro e seguro de que estamos inscritos no Livro da Vida, se tivermos comunhão com Cristo, e se ele for nosso e nós dele em verdadeira fé.
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Comentário: Como já foi dito, a escritura nos ensina que só temos o que Deus nos dá. Se amamos a Deus é porque “ele nos amou primeiro” - 1.a João 4.19. Se cremos em Deus e no plano da redenção por meio de Jesus Cristo é porque ele nos revelou isto e nos deu fé para crer.
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Tentação sobre a predestinação
Na tentação sobre a predestinação, que é, talvez, mais perigosa do que qualquer outra, console-nos o fato de que as promessas de Deus são universais para os fiéis, pois ele diz: “Pedi, e dar-se-vos-á... Pois todo o que pede recebe” (Luc 11.9-10). É, finalmente, o que pedimos com toda a Igreja de Deus: “Pai nosso que nos céus” (Mat 6.9). Fomos enxertados no corpo de Cristo, pelo batismo, e da sua carne e do seu sangue nos alimentamos frequentemente em sua Igreja, para a vida eterna. Fortalecidos por essas bênçãos, segundo o preceito de São Paulo recebemos ordem de operar a nossa salvação com temor e tremor.
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Comentário: De certa forma somos encorajados a “tomar posse” da vida eterna - Milita a boa milícia da fé, toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado, tendo já feito boa confissão diante de muitas testemunhas - 1.a Timóteo 6.12, e do reino de Deus - E, desde os dias de João Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele – Mateus 11.12. Isto nos ensina que quando somos despertados pelo Espírito de Deus sobre a salvação e o reino de Deus, devemos almejar, aspirar e desejar fazer parte da salvação e do reino de Deus. Finalmente, por mais que cause desconforto em alguns e até ojeriza em outros, a doutrina da eleição tem proporcionado muita segurança e grande gozo aos santos de todos os tempos. Grande e doce paz enche o coração do crente em Jesus Cristo, saber que ele foi escolhido entre os milhares de milhares, mas que o motivo dessa escolha não está nele e sim no secreto conselho de Deus. Tal conhecimento, ao contrário do que supõem alguns, jamais causa orgulho, senão apenas traz alegria com temor. A compreensão de tão grande bênção propulsiona o redimido a responder com uma vida de gratidão e obediência a Deus, especialmente pelo fato de Deus o haver escolhido para ser santo, separando daqueles aos quais abandona em seus pecados. O temor, porém, é constante e, em nenhum momento os eleitos se sentem merecedores da salvação, muito menos em detrimento dos demais homens. Esse pensamento os move a evangelizar e chamar a todos os que ainda não conhecem o evangelho de Jesus porque jamais fazem qualquer juízo contra quem quer que seja, ou consideram alguém um caso sem solução. Ninguém deve questionar sobre a quantidade ou o número dos eleitos, pois isso é mistério de Deus e só a Ele pertence. O homem é uma criatura curiosa e tende a investigar e buscar explicações para o que vê e ouve. Contudo, a Bíblia não nos dá explicações para os atos soberanos de Deus. Somos informados apenas que Deus fez tudo o que fez simplesmente porque ele é Deus, e isto deve nos satisfazer. Contudo, parece-nos que por algumas parábolas e que o Senhor Jesus contou e também por algumas afirmações que fez, esse número é sempre menor do que os que se perdem em cada geração. De quatro partes da semente do semeador, apenas uma parte frutifica. Poucos são os que acertam a porta estreita que conduz à vida e muitos são os entram pela porta larga que leva à destruição. Muitos são chamados e poucos são escolhidos... Mas, como dissemos, isso tudo é um grande mistério. A nós cabe esforçar-nos para entrar e perseverar até o fim, e enquanto isso proclamar a todos que venham também conosco. A benção da eleição é tão grande que nenhum eleito jamais pensou: “já que sou eleito vou viver minha vida como bem entendo”, porque isso seria um pensamento ímpio. Antes os eleitos anseiam por santificar-se e viver inteiramente para Deus, porque para isto foram escolhidos - para serem santos. Assim, não resta dúvida quanto a eleição divina, todos quantos ouvem o chamado do evangelho e creem em Cristo, passando a viver com e para Cristo, separado do pecado, é um eleito. Nisto deve permanecer e perseverar até o fim.
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11. De Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, único Salvador do mundo
Cristo é verdadeiro Deus
Além disso, ensinamos que o Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, foi, desde a eternidade, predestinado ou pré-ordenado pelo Pai para ser o Salvador do Mundo. E cremos que ele nasceu, não somente quando da Virgem Maria assumiu a carne, nem apenas antes que se lançassem os fundamentos do mundo, mas antes de toda a eternidade e certamente pelo Pai, de um modo inexprimível. Isaías diz: “E da sua linhagem quem dela cogitou?” (cap. 53.8). E Miquéias diz “E cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Miq 5.2). Também São João disse no Evangelho: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”, etc. (cap. 1.1). Portanto, quanto à sua divindade, o Filho é co-igual e consubstancial com o Pai; verdadeiro Deus (Fp 2.11), não de nome ou por adoção ou por qualquer dignidade, mas em substância e natureza, como disse o apóstolo São João: “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1ª João 5.20). São Paulo também diz: “A quem constituiu herdeiro de todas as cousas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as cousas pela palavra do seu poder” (Heb 1.2 ss). E no Evangelho o Senhor mesmo também disse: “Glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo” (João 17.5). Em outro lugar do Evangelho também está escrito: “Os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque... também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (João 5.18).
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Comentário: Que Jesus Cristo é o Filho de Deus e igual ao Pai, é tão amplamente ensinado, profetizado e cumprido nas Escrituras que duvidar da divindade de Cristo é colocar em dúvida não apenas a Bíblia mas toda a história eclesiástica e todo o plano da redenção. Na Bíblia encontramos do começo ao fim provas da divindade de Jesus Cristo, fato observado também por historiadores seculares e confirmado com acontecimentos históricos entre as nações da terra. Não há como falar da história antiga sem falar do povo de Israel e muito menos falar da história moderna sem falar da Igreja de Jesus Cristo. O que Jesus Cristo fez não poderia ter sido feito por alguém menos que Deus. Os reflexos e resultados da obra da redenção realizado por Cristo podem ser vistos até hoje e serão vistos até o fim da humanidade. A própria oposição que a Igreja vem sofrendo neste mundo desde o seu início e seu triunfo sobre essa oposição, mostra que Jesus não foi um homem comum nem o fundador de uma religião como querem os adversários do cristianismo, colocando este no mesmo patamar que as demais religiões. Não há como negar que Jesus Cristo mudou o curso da história da humanidade. Tudo que existe neste mundo está de alguma forma vinculado a Cristo e ao Cristianismo.
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As seitas
Abominamos, pois, a doutrina ímpia de Ário e de todos os arianos contra o Filho de Deus, e especialmente as blasfêmias do espanhol, Miguel Serveto, e de todos os servetanos, que Satanás, por meio deles, retirou do inferno, por assim dizer, e vai espalhando por todo o mundo, audaciosa e impiamente.
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Comentário: É possível ver até mesmo na desgraça que são as falsas doutrinas e as seitas com nome de cristãs, quão grande é o Senhor Jesus Cristo e quão importante é a sua Igreja na terra. Nenhuma religião sofre tantos ataques do inferno quanto sofrem o evangelho de Jesus e sua Igreja. Nada incomoda mais o inferno do que o nome de Jesus Cristo e seus santos seguidores. Nenhum assunto é tão menosprezado e sofre tanta oposição, rejeição e desperta tanto ódio no coração dos adversários quanto o Santo Evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo. A dupla natureza do Salvador não pode ser questionada senão por uma mente ímpia e perversa que tem motivações diversas e usa dessa prática para encobrir e justificar seus próprios pecados. Primeiramente é certo que as profecias deviam se cumprir. E uma análise cuidadosa dos profetas revela esse fato maravilhoso – Jesus é Deus em carne. Além disso uma compreensão das necessidades do homem caído nos levam ao perfil daquele que seria o Salvador dos eleitos. Em Adão toda a humanidade pecou e obviamente para redimir o povo de Deus, um homem isto é alguém da raça humana, deveria morrer como Substituto. Alguém para nos substituir à altura tinha que ser cem por cento humano como nós. Nascer, crescer, viver, morrer como nós; sentir como nós, estar sujeito às mesmas circunstâncias e fraquezas que nós. Assim foi nosso Senhor Jesus neste mundo, tão humano quanto podia tornar-se, sem o pecado. Mas nosso Salvador necessariamente tinha que ser Deus mesmo. Os inimigos das nossas almas, dos quais estávamos prisioneiros, são tão malignos e poderosos, que, nenhuma criatura, jamais poderia nos livrar deles. O pecado é um mal eterno, essencialmente maligno, eternamente maldito que nem o inferno dará cabo dele. Nunca conseguiríamos dominar um só pecado sem a graça de Deus. Satanás é um dos querubins mais poderosos que o Senhor criou e jamais um ser humano poderia derrotá-lo. Nosso Redentor tinha que ser ninguém menor do que o próprio Deus. Ainda mais, os sacrifícios que o sacerdotes humanos ofereciam eram imperfeitos e precisavam ser repetidos. Nosso Sacerdote deveria oferecer um sacrifício que fosse perfeito e que tivesse efeitos e validade eternos. Ainda o único padrão de justiça, de santidade, de perfeição que satisfaz a Deus é o Seu próprio. Nenhum humano poderia fazer um sacrifício que satisfizesse Deus, a não ser Seu próprio Filho. Quando Deus chama seus eleitos neste mundo, atribui a cada um deles a justiça de Cristo, por isso a salvação não pode ser alcançada pelo homem, porque este jamais conseguiria atingir a justiça perfeita ainda que não houvesse caído. Sim, Jesus Cristo é Deus juntamente com o Pai e o Espírito Santo.
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Cristo é verdadeiro homem, tendo verdadeira carne
Cremos também e ensinamos que o eterno Filho do eterno Deus se fez Filho do homem, da semente de Abraão e David, não com concurso carnal do homem, como diz Ébion, mas concebido do Espírito Santo com toda a pureza e nascido da sempre virgem Maria, como a história evangélica cuidadosamente nos explica (Mat, cap.1). E São Paulo diz: “Ele não assumiu a natureza de anjos, mas a da semente de Abraão”. Também o apóstolo São João diz que todo aquele que não crê que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus. Portanto, a carne de Cristo não era nem imaginária nem trazida do céu, como erradamente sonhavam Valentino e Márcion.
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Comentário: O Salvador dos filhos de Adão precisava ser da mesma espécie, porém sem o pecado que Adão passa de geração a geração a todos os seus filhos. Um homem pecador não serviria, obviamente, para ser o remidor dos pecadores; um anjo ou qualquer outra criatura não poderia ser o remidor dos homens. Tinha que ser um homem e este homem não poderia ter o pecado de Adão. Logo, ele não poderia nascer do sêmen de Adão. Por isso Jesus Cristo foi gerado pelo Espírito Santo no ventre da jovem, virgem Maria - E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus - Lucas 1.35.
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Alma racional em Cristo
Além disso, nosso Senhor Jesus Cristo não possuiu uma alma desprovida de percepção e de razão, como pensava Apolinário, nem carne sem alma, como ensinava Eudômio, mas alma com sua razão e carne com seus sentidos, pelos quais por ocasião de sua paixão ele suportou dores reais, como ele mesmo testifica quando diz: “A minha alma está profundamente triste até à morte” (Mat 26.38); “Agora está angustiada a minha alma” (João 12.27).
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Comentário: É muito claro nas escrituras que o Filho de Deus foi feito homem completo – corpo e alma humanos. Assim exigia a justiça divina, que o homem que fosse morrer para expiar os nossos pecados, fosse um homem exatamente como nós, corpo físico e alma como nós. Ele não podia ser alguém diferente de nós por isso foi feito em tudo semelhante a nós - Pelo que convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo - Hebreus 2.17. Ele sofreu no corpo e na alma a penalidade pelos nossos pecados. O homem é essencialmente uma alma que habita um corpo, por isso é chamado de alma vivente (Gênesis 2.7). Ele precisa ser salvo como alma e corpo, não existe salvação apenas para o corpo ou somente para a alma. Ele pecou sendo alma e corpo, ele precisa ser redimido como alma e corpo. O Redentor precisaria ter um corpo e uma alma e assim é o Senhor Jesus Cristo.
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Duas naturezas em Cristo
Reconhecemos, portanto, duas naturezas ou substâncias, a divina e a humana, num e no mesmo Senhor nosso Jesus Cristo (Heb, cap. 2). E dizemos que elas estão ligadas e unidas uma com a outra de tal modo que não foram absorvidas, ou confundidas, ou misturadas, mas unidas ou integradas numa Pessoa - com as propriedades das naturezas intactas e permanentes.
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Comentário: Cristo tinha de fato um corpo de carne como Ele próprio afirmou mesmo depois da ressurreição: Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho - Lucas 24.39. O fato de não podermos explicar algo não nos dá o direito de inventar uma explicação. Deus realmente é misterioso. Cristo também possuía uma alma racional, humana, como a nossa. Assim, ele sofreu tanto no corpo quanto na alma pelos nossos pecados. Todos os seus sofrimentos foram muito reais. E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo - Hebreus 2.14. Assim é o nosso Salvador: verus Deus et verus homo. Não cinquenta por cento Deus e cinquenta por cento homem, mas totalmente Deus e totalmente homem. De modo que o Senhor Jesus Cristo não é um misto de Deus mais homem, mas, digamos com toda reverência, uma composição maravilhosa e inexplicável do Filho Eterno e Jesus de Nazaré. De uma forma, Unigênito, gerado desde toda a eternidade, de outra, Primogênito, nascido no tempo, de mulher, mas também gerado por Deus, sendo conquanto Um só Cristo Redentor. Assim, a encarnação mudou a história do tempo e da eternidade, do homem e da Trindade. O Filho Eterno saiu do céu veio à terra, recebeu um corpo de carne e retornou ao céu, após morte e ressurreição, naquele corpo glorificado. Maravilha das maravilhas.
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Não dois, mas um só Cristo
Assim, não adoramos dois, mas um Cristo, o Senhor, Um verdadeiro Deus e verdadeiro homem, segundo a natureza divina, consubstancial com o Pai, e segundo a natureza humana, consubstancial com os homens e semelhante a nós em todas as coisas, excepto no pecado (Heb 4.15).
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Comentário: Desde sempre, a Trindade compõe um Único Deus, Três em Um. A encarnação do Filho não acrescentou uma quarta pessoa a Trindade, mas trouxe ali a natureza humana, na bendita pessoa do Filho. Foi essa maravilha que uniu o homem a Deus para sempre. Cristo sendo Deus está unido a Trindade eternamente, sendo Homem está unido a Humanidade para sempre. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim – João 17.23.
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As seitas
Certamente abominamos o dogma nestoriano, que de um Cristo faz dois e dissolve a união da Pessoa. Semelhantemente, execramos totalmente a loucura de Eutiques e dos monotelitas ou monofisitas, que destrói a propriedade da natureza humana.
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Comentário: Os mistérios de Deus são para ser apreciados antes de ser completamente compreendidos. Lemos, apreciamos, ficamos maravilhados e adoramos esse Deus maravilhoso. Quando a mente natural tenta explicar tais mistérios, entra em contradições e confusão. A fé não tenta obter explicações e nem compreensão de todas as coisas, ela adora a Deus. Diante do inexplicável, o homem de fé se humilha, reconhece sua limitação, concorda com Deus, se prostra e adora.
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A natureza divina de Cristo não sofreu e a humana não está em toda a parte
Portanto, de modo nenhum ensinamos que a natureza divina em Cristo sofreu, ou que Cristo em sua natureza humana ainda está neste mundo e ainda em toda parte. Pois nem pensamos nem ensinamos que a realidade do corpo de Cristo cessou depois de sua glorificação, ou que foi deificado e deificado de tal modo que ele tenha deposto as suas propriedades com respeito ao corpo e à alma, e estes se tenham mudado inteiramente em uma natureza divina e passado a ser uma substância una.
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Comentário: Está escrito que após ter feito expiação pelos nossos pecados, Jesus subiu ao céu e lá está - ... havendo feito por si mesmo a purificação das nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas – Hebreus 1.3. É no céu que adoramos o Filho de Deus. Lá está ele, corpo e alma humanos, unidos à divindade, para sempre. Já em sua divindade o Senhor Jesus está em todo lugar porque ele é onipresente, porém em seu corpo físico está no céu. Ele só retornará à terra no último dia para o Juízo Final. Então, ... esse Jesus, que de entre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir – Atos 1.11. Assim sendo, afirmamos que ele não está na terra, nem na Igreja, nem nos elementos da santa comunhão, mas no céu. Contudo, seu Espírito sim, está na terra, na Igreja, nos crentes, nas congregações e na comunhão.
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As seitas
Por isso, de maneira nenhuma aprovamos ou aceitamos as argúcias sem argúcia, intrincadas e obscuras, de Schwenkfeldt e de semelhantes dizedores de sutilezas, nem suas dissertações pouco consistentes sobre essa questão, nem somos schwenkfeldianos.
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Comentário: O problema de muitos crentes é confundir liberdade de consciência com direito de fazer inserções nas escrituras. Ou ainda supor que suas experiências pessoais sejam tão importantes quanto as escrituras. Parece que foi isso que fez o teólogo Kaspar Schwenckfeldt, exaltou sua experiência acima da catolicidade da doutrina. Além de defender que a presença de Cristo está nos sacramentos, ia além e dizia que a própria presença de Cristo estava presente em todos os crentes. É preciso seguir o que está escrito e não ir além como somos advertidos - ... para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito… - 1a Coríntios 4.6. Fazer inserções nas entrelinhas não é uma prática honesta, nem verdadeira exegese.
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Nosso Senhor verdadeiramente sofreu
Cremos, além disso, que nosso Senhor Jesus Cristo verdadeiramente sofreu e morreu por nós em carne, como diz São Pedro (1ª Ped 4.1). Abominamos a impiíssima loucura dos jacobitas e de todos os turcos, que blasfemam do sofrimento do Senhor. Ao mesmo tempo, não negamos que o Senhor da glória foi crucificado por nós, segundo as palavras de São Paulo (1ª Co 2.8).
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Comentário: Cristo Jesus - duas naturezas distintas, uma só Pessoa. Uma natureza humana e outra divina, homem e Deus. Suas naturezas não se misturam, seu lado humano é cem por cento humano, e seu lado divino, cem por cento divino. Em seu lado humano tem a mesma essência que nós (exceto que nunca provou o pecado), em seu lado divino tem a mesma essência que Deus Pai. É realmente uma grande maravilha. Em sua natureza humana está limitado a um corpo físico, assentado ao lado de Deus Pai. Quando esteve na terra condicionou-se às limitações de um corpo físico como outro qualquer e só podia estar em um lugar de cada vez. Contudo, em sua natureza divina nunca esteve limitado, mas sempre esteve em todo lugar. Por outro lado em sua natureza divina nunca sofreu nem morreu, nunca foi abandonado pelo Pai. O abandono e separação que sentiu na cruz foi em sua natureza humana. Sua vida como homem foi de sofrimento do começo ao fim. Desde que se esvaziou da sua glória para vir ao mundo, renunciou, abdicou e humilhou-se até a morte, mas nunca deixou de ser Deus. O que lemos? Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz – Filipenses 2.6-8. Homem Deus é o nosso Salvador, assim ele ascendeu à glória e está assentado no lugar mais exaltado do céu, à destra do Todo-poderoso. Assim, de lá ele tornará a esse mundo para julgá-lo.
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Comunicação de propriedades de linguagem
Aceitamos e aplicamos pia e respeitosamente a comunicação de propriedades de linguagem derivada da Escritura e usada por toda a antiguidade para explicar e reconciliar passagens aparentemente contraditórias.
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Comentário: Cremos que a Bíblia nunca se contradiz. Toda dificuldade que encontramos em sua interpretação está em nossa capacidade cognitiva. Pelo fato de sermos criaturas nunca compreenderemos perfeitamente tudo, e temos a agravante de ser criaturas caídas, o que piora a nossa capacidade de compreensão. Devemos nos humilhar debaixo da poderosa mão de Deus e ele nos guiará a toda a verdade.
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Cristo verdadeiramente ressuscitou dos mortos
Cremos e ensinamos que o mesmo Jesus Cristo nosso Senhor, em sua verdadeira carne na qual fora crucificado e morrera, ressuscitou dos mortos, e que não foi outra carne que ressuscitou, mas a que foi sepultada, nem foi o espírito que subiu ao alto em vez da carne, mas ele reteve seu verdadeiro corpo. Portanto, ainda que os seus discípulos pensassem ver o espírito do Senhor, ele lhes mostrou as mãos e os pés marcados realmente com os sinais dos cravos e das feridas, e ajuntou: “Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo, apalpai-me e verificam, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Luc 24-39).
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Comentário: Já vimos sobejo de provas que o Filho Eterno entrou na humanidade com um corpo e alma humanos, e assim ele viveu, morreu, ressurgiu e tornou ao céu, onde foi entronizado e coroado como o Rei dos reis e Senhor dos senhores. A encarnação não foi por um tempo mas para a eternidade.
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Cristo verdadeiramente subiu ao céu
Cremos que nosso Senhor Jesus Cristo, em sua própria carne, subiu acima de todos os céus visíveis ao supremo céu, isto é, à habitação de Deus e dos bem-aventurados, à destra de Deus o Pai. Embora isso signifique participação igual em glória e majestade, considera-se, contudo, também como um lugar definido, acerca do qual o Senhor, falando no Evangelho, diz: “Vou preparar-vos lugar” (João 14.2). O apóstolo São Pedro também diz: “Ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as cousas” (At 3.21). E do céu o mesmo Cristo retornará para o juízo, quando a impiedade no mundo estiver no seu máximo e quando o Anticristo, tendo corrompido a verdadeira religião, tiver envolvido todas as coisas com superstição e impiedade, e tiver cruelmente assolado a Igreja com sangue e fogo (Dn, cap. 11). Mas Cristo voltará para reclamar os seus, e pela sua vinda destruir o Anticristo e julgar os vivos e os mortos (At 17.31). Os mortos ressuscitarão (1ª Tes 4.14 ss), e os que naquele dia (que é desconhecido de todas as criaturas - Mc 13.32) estiverem vivos serão transformados “num abrir e fechar de olhos”, e todos os fiéis serão arrebatados ao encontro de Cristo nos ares, para assim entrarem com ele nas benditas mansões e viverem para sempre (1ª Co 15.51ss). Mas os incrédulos ou os ímpios descerão com os demônios para o inferno a fim de arderem para sempre e nunca serem libertados dos tormentos (Mat 25.46).
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Comentário:
O
céu é um lugar físico, real e ao mesmo tempo espiritual, mas
localizável
e definido.
Não
é um estado etéreo simplesmente, mas um local atualmente separado
da terra, que um dia será unido a nova terra para sempre. Foi para
esse lugar que Jesus foi, e
quando
tornou para lá, ele não desapareceu diante dos seus discípulos,
mas foi subindo perante os seus olhos - E
quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem
o recebeu, ocultando-o a seus olhos.
E, estando com os olhos
fitos no céu, enquanto ele subia… - Atos 1.9-10.
O trono do Senhor Jesus Cristo está imediatamente acima de nós, por
isso diz: O
céu é o meu trono, e a terra o estrado dos meus pés… Atos 7.49.
A
confissão fala de aparentes contradições, porque de fato elas não
existem nas sagradas escrituras. A dificuldade está sempre conosco.
Para a mente da criatura compreender o Criador e Sua palavra é um
grande desafio e
para
a mente de uma criatura caída fazê-lo é uma impossibilidade, a
menos que o Espírito Santo dissipe as trevas que a envolvem. Só
podemos compreender algo do nosso maravilhoso Deus quando ele
assim o deseja, quando
ele se
revela. A nós cabe nos humilhar debaixo da sua
poderosa mão. Já
a
Bíblia
apresenta muitas provas que Jesus
morreu de fato e ressuscitou de fato. Com o corpo que foi crucificado
sobre o Monte Calvário e sepultado na sepultura de José de
Arimatéia, com o mesmo corpo Jesus saiu da sepultura e subiu ao céu.
Todos os fatos da redenção foram mais que comprovados. Muitas
pessoas testemunharam tanto seus sofrimentos e morte, quanto sua
ressurreição e ascensão. Desde sua ascensão, o Senhor Jesus
permanece assentado à direita do Pai, aguardando o momento acordado
na eternidade para retornar à terra, para o desfecho da História
da humanidade – o Juízo
Final.
Naquele dia ocorrerá a grande ressurreição geral de todos quantos
se encontram no pó da terra, tanto pios quanto ímpios. Após o
grande julgamento dos
ímpios, sua
condenação
e execução da sua sentença, irão
juntamente
com o diabo e seus anjos para o lugar da condenação eterna. Os
justificados pelo sangue do Cordeiro serão apresentados como
pecadores redimidos, que também mereciam a punição eterna, mas
foram alforriados pelo bendito Remidor e serão confirmados por Sua
herança e entrarão com ele
na glória para todo o sempre. Amém.
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As seitas
Condenamos, portanto, todos os que negam a ressurreição real da carne (2ª Tim 2.18), ou que, com João de Jerusalém, contra quem escreveu São Jerônimo, não pensem corretamente acerca dos corpos glorificados. Condenamos também os que ensinam que os demônios e todos os ímpios serão um dia salvos, e que haverá um fim dos castigos. O Senhor declarou com clareza: “Onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga” (Mc 9.44). Condenamos, além disso, os sonhos judaicos de que haverá uma idade áurea na terra antes do Dia do Juízo, e que os piedosos, tendo subjugado todos os seus inimigos ímpios, entrarão na posse de todos os reinos do mundo. Pois a verdade evangélica em Mat, caps. 24 e 25, e Lucas, cap. 18, e o ensino apostólico em 2ª Tess, cap. 2, e 2ª Tim, caps. 3 e 4, apresentam coisa inteiramente diversa.
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Comentário: A Bíblia é tão rica de provas e testemunhas de ressurreição física e trasladação que só mesmo um herege pode levantar a mínima suspeita sobre esse assunto. Primeiro temos o relato do profeta Enoque que viveu neste mundo 365 anos e foi trasladado, isto é, foi levado da terra ao céu num novo corpo. Depois o rosto de Moisés resplandece com a glória de Deus, mostrando que esse corpo será um dia totalmente glorificado. Outro profeta trasladado foi Elias, e Eliseu o viu ser transportado fisicamente à glória pelos carros de fogo. O Senhor orando num monte, com Pedro, Tiago e João, transfigurou-se diante deles num corpo glorificado, quando também apareceram Moisés e Elias falando com Ele. O Senhor Jesus profetizou sobre sua ressurreição física; disse que ficaria três dias e três noites debaixo da terra e dali sairia (Mateus 12.40). Assim disse, assim aconteceu. E quando ele saiu da sepultura à vista dos incrédulos guardas romanos, estes tiveram que testemunhar o que viram, confessar a verdade e depois negá-la sob suborno. Na hora da ressurreição do Senhor Jesus, entre os muitos sinais que aconteceram, ocorreu também que muitos crentes que estavam nas sepulturas ressuscitaram. Eles apareceram para os seus familiares e conhecidos e depois foram para glória eterna (Mateus 27.52-53). Quanto ao castigo dos ímpios não ser eterno, novamente é coisa de quem vive procurando encontrar contradições na Palavra de Deus, e esse, definitivamente, não é o espírito do adorador. A Bíblia é tão clara quanto necessita ser e só não compreende o que tem a mente nas trevas. Eterna salvação (Hebreus 5.9), eterna glória (1ª Pedro 5.10) etecetera; trevas eternas (2ª Pedro 2.17), fogo eterno (Judas 1.7), assim por diante. Jesus falou do céu como um lugar definitivo e também do inferno. Não haverá fim para a punição do pecado porque sua ofensa é infinita, portanto não haverá redenção para os não-eleitos. Também não haverá aniquilamento dos réus porque isso poria um fim no inferno. Ao contrário, as escrituras afirmam continuamente que o fogo jamais se apagará (Mateus 3.12; Marcos 9.43-48). Qualquer afirmação diferente disso é contrariar as escrituras. A punição tanto dos anjos caídos quanto dos ímpios será eterna. Não haverá cessação e tampouco aniquilamento.
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O fruto da morte e ressurreição de Cristo
Além do mais, pela sua paixão e morte e tudo o que, em sua carne e na sua vinda, ele fez e suportou por nossa causa nosso Senhor reconciliou o Pai celestial com todos os fiéis, expiou o pecado, desarmou a morte, arruinou a condenação e o inferno, e, pela sua ressurreição dos mortos, trouxe de novo e restituiu a vida e a imortalidade. Ele é a nossa justiça, a nossa vida e ressurreição, em uma palavra, a plenitude e perfeição de todos os fiéis, a salvação e a mais completa suficiência. O apóstolo diz: “Aprouve a Deus que nele residisse toda a plenitude”, e “Viestes à plenitude da vida nele” (Cl caps. 1 e 2).
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Comentário: Jesus Cristo veio a esse mundo morrer por nós, sendo ele o nosso Cordeiro Pascal. João, o Batista, o precursor do Messias, ao introduzi-lo neste mundo o fez apresentando-o como o Cordeiro de Deus. Ele poderia ter dito “Filho de Davi”, “Filho de Abraão”, “Messias” ou mesmo “Filho do Deus Altíssimo”. Mas quando viu Jesus se aproximando para ser batizado, disse: Eis o Cordeiro de Deus – João 1.29. O Senhor Jesus nasceu sob a lei e tomou sobre si a maldição da lei que era contra nós. Foi golpeado pela espada da lei que estava pendente sobre a nossa cabeça, contendo-a em seu próprio peito. Sorveu até a última gota o cálice da ira de Deus por causa do nosso pecado, deixando-nos assim livres daquela penalidade. Sim, o Senhor sofreu na cruz toda angústia do inferno, inferno onde passaríamos a eternidade se ele não ousasse tomar a nossa frente e nos proteger. Não foi sem causa que já no Getsêmani ele havia suado grandes gotas de sangue. Nosso Campeão enfrentou a cruz, a morte, a sepultura, o inferno, satanás com suas hostes, e os venceu e nos fez participantes do triunfo da sua vitória. Cumprindo a lei por nós e recebendo a punição em nosso lugar, reconciliou-nos com Deus, trazendo-nos consigo para fazer parte da família celestial. Bendito seja, amém.
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Jesus Cristo é o único Salvador do mundo, e o verdadeiro Messias esperado
Ensinamos e cremos que este Jesus Cristo, nosso Senhor, é o único e eterno Salvador do gênero humano, e também do mundo inteiro, em quem pela fé se salvaram todos os que antes da Lei, sob a Lei e sob o Evangelho foram salvos, e em quem se salvarão todos os que ainda vierem a salvar-se até o fim do mundo. É o próprio Senhor quem diz no Evangelho: “O que não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador ... Eu sou a porta das ovelhas” (João 10.1 e 7). E também em outro lugar, no mesmo Evangelho: “Abraão... viu o meu dia e regozijou-se” (cap. 8.56). O apóstolo São Pedro também diz: “Não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”. Cremos, portanto, que seremos salvos mediante a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, como nossos pais o foram (At 4.12; 10.43; 15.11). São Paulo também diz: “Todos eles comeram de um só manjar espiritual, e beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo” (1ª Co 10.3 ss). E assim lemos o que João diz: Cristo era o “Cordeiro que foi morto, desde a fundação do mundo” (Apoc 13.8), e João Batista testificou que Cristo é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1.29). Eis por que professamos e pregamos, com toda a clareza, que Jesus Cristo é o único Redentor e Salvador do mundo, o Rei e o Sumo Sacerdote, o verdadeiro Messias esperado, aquele santo e bendito que todos os tipos da lei e todos os vaticínios dos profetas prefiguraram e prometeram; e que Deus o designou anteriormente e no-lo enviou, de modo que não devemos esperar nenhum outro. Nem nos resta agora outra coisa que darmos a Cristo toda a glória, nele crermos, somente nele descansarmos, desprezando e rejeitando todas as demais ajudas na vida. Com efeito, decaíram da graça e tornam Cristo vão para si todos os que buscam a salvação em qualquer outra coisa que não somente em Cristo (Gal 5.4).
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Comentário: Depois que o homem caiu e foi expulso da presença de Deus, está exilado e cortado da comunhão com o Rei, e o único caminho de volta se chama Jesus Cristo. Do primeiro que retornou até o último a retornar todos devem passar por esse caminho, mesmo porque outro não há. Cada salvo que está no céu e todos que ainda para lá irão, devem sua ida e permanência ali à obra meritória do Senhor Jesus Cristo, a qual havia sido apresentada a Deus desde toda a eternidade. De modo que na economia da Antiga Aliança, quando os cordeiros eram sacrificados no templo, cada um deles apontava para o verdadeiro e real sacrifício, o do Filho de Deus. Todo esforço para salvar-se a si próprio é vão, é desprezar o Cordeiro sacrificado, é ofensivo a Deus, uma vez que Ele já nos deu Seu único Filho por nossos pecados. Toda busca fora de Cristo é vã porque se houvesse outro meio de se chegar ao céu Deus teria enviado sua palavra através dos profetas, ensinando isso, e não teria mandado o Verbo encarnado para morrer por nós.
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Os credos recebidos de quatro concílios
E, para dizer muito em poucas palavras, cremos de todo o coração, e livremente confessamos à viva voz, tudo o que foi definido com fundamento nas Escrituras Sagradas a respeito do mistério da Encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo, compreendido nos Credos e decretos dos quatro primeiros venerandos sínodos reunidos em Niceia, Constantinopla, Éfeso e Calcedônia - juntamente com o Credo do bem-aventurado Atanásio, e todos os credos similares; e condenamos tudo o que for contrário a eles.
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Comentário: Os credos e as confissões têm a função de balizas que nos fazem permanecer nas sagradas escrituras. Não são inspirados mas corroboram para nos manter na tradição apostólica. Sendo assim devemos prezar pelo esforço dos antigos pais, que em seus dias agradaram a Deus sendo zelosos da sã doutrina, e usar tais documentos com o propósito que foram criados.
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As seitas
E dessa maneira mantemos inviolada ou intacta a fé cristã, ortodoxa e católica, sabendo que nada se contêm nos credos atrás citados que não seja conforme com a Palavra de Deus, e que não contribua, ao mesmo tempo, para uma exposição pura da fé.
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Comentário: A importância dos credos, bem como dos demais documentos que mantém a doutrina apostólica é grandiosa. Temos a Palavra de Deus que é a nossa única e indiscutível regra de fé. Porém os documentos históricos expositivos da doutrina apostólica que têm ajudado a Igreja a manter-se nos trilhos são de grande importância. Tais documentos funcionam como sensores laterais que nos fazem permanecer no centro que é a Palavra de Deus. Qualquer desvio para um ou outro lado temos o alerta dos documentos históricos e da boa tradição que ajudaram nossos antigos pais a servir a Deus e a agradá-lo. Portanto devemos atentar para as boas tradições conforme diz o apóstolo - Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa - 2ª Tessalonicenses 2.15. Milhares de santos no passado morreram confessando sua fé nas sagradas escrituras resumida nos credos. Por outro lado várias das nossas confissões e catecismos foram assinados com o sangue de seus autores. Sim, eles têm muito valor. Por desprezarem ou não dar o devido valor aos credos, confissões e catecismos, hoje grandes setores da Igreja afastam-se cada vez mais da tradição apostólica e consequentemente da Palavra de Deus.
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12. Da lei de Deus
A vontade de Deus nos é exposta na Lei de Deus
Ensinamos que a vontade de Deus nos é exposta na Lei de Deus: o que ele quer ou não quer que façamos, o que é bom e justo, ou o que é mau e injusto. Portanto, confessamos que a Lei é boa e santa.
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Comentário: A lei moral de Deus é maravilhosa. Deus quis vir pessoalmente a terra para entregar sua lei ao seu povo. Não a enviou por um anjo, não deu essa tarefa aos profetas, mas ele marcou um dia em que viria pessoalmente falar com seu rebanho. E assim, ele desceu sobre o monte Sinai à vista dos filhos de Israel e entregou-lhes, por meio de Moisés, a sua Santa Lei.
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A lei natural
Esta Lei foi escrita nos corações dos homens pelo dedo de Deus (Rom 2.15), e é chamada a lei natural; foi também esculpida pelo dedo de Deus nas duas tábuas de Moisés e mais pormenorizadamente exposta nos livros de Moisés (Êx 20.1ss; Deut 5.6ss). Para maior clareza, distinguimos: a lei moral contida no Decálogo ou nas duas Tábuas e expostas nos livros de Moisés; a lei cerimonial, que determina as cerimônias e o culto de Deus; e a lei judiciária, que versa questões políticas e domésticas.
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Comentário: Deus tem seus decretos que foram tomados no secreto Conselho da Santíssima Trindade desde toda a eternidade e também os seus mandamentos dados às suas criaturas. Aqueles decretos e seus mandamentos se entrelaçam na história do tempo para compor e cumprir o misterioso processo da criação, queda e redenção, bem como da manutenção de todas as coisas. Seus decretos são irresistíveis e desconhecidos das criaturas. Contudo seus preceitos revelados em suas leis podem ser resistidos, e pelo cumprimento desses preceitos suas criaturas são responsáveis. Assim opera a Providência. Aquilo que torna os homens responsáveis diante de Deus é a sua vontade revelada em sua Lei. Lei que primeiramente foi gravada no próprio coração do homem, como está escrito: Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os - Romanos 2.14-15. Um dia Deus veio pessoalmente à terra sobre o Monte Sinai para trazer sua Lei, agora escrita em tábuas de pedra. Esta Lei, que foi entregue nas mãos de Moisés, foi conhecida como o Decálogo ou Os Dez Mandamentos. Ela compõe a Lei moral de Deus, Lei esta que permanece em vigência. Após isso Deus acrescentou outras leis cerimoniais e judiciais que estiveram em vigência enquanto o povo de Israel era uma nação. Após a vinda do Messias tais leis foram abolidas, permanecendo apenas aquelas que haviam sido colocadas dentro da arca do testemunho, que são as leis morais.
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A lei é completa e perfeita
Cremos que toda a vontade de Deus e todos os preceitos necessários a cada esfera da vida são nesta lei ensinados com toda a plenitude. De outro modo o Senhor não nos teria proibido de lhe adicionar ou de subtrair-lhe qualquer coisa; nem nos teria mandado andar num caminho reto diante desta Lei, sem dela nos declinarmos para a direita ou para a esquerda (Deut 4.2; 12.32, 5.32, cf. Núm 20.17 e Deut 2.27).
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Comentário: Deus é o Grande Legislador e sua Lei é perfeita. O próprio Filho quando veio aqui viveu sob a Lei, obedecendo-a perfeitamente. Por isso o Pai falou desde o céu, aprovando-o: Este é o meu Filho amado em quem eu tenho prazer – Mateus 17.5. Jesus disse amar os mandamentos do Pai - Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor – João 15.10. Jesus, sendo o próprio Deus, não mudou nada da Lei, não complementou, não fez nenhum adendo, mas a confirmou mais uma vez.
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Porque foi dada a lei
Ensinamos que esta Lei não foi dada aos homens para que fôssemos justificados pela sua observância, mas antes para que, pelo seu ensino, conhecêssemos nossa fraqueza, nosso pecado e condenação e, perdendo a confiança em nossas forças, nos convertêssemos a Cristo pela fé. O apóstolo diz claramente: “A Lei suscita a ira”; “pela Lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rom 4.15; 3.20); “porque, se fosse promulgada uma Lei que pudesse dar vida, a justiça, na verdade seria procedente da Lei; mas a Escritura encerrou tudo sob o pecado, para que mediante a fé em Jesus Cristo fosse a promessa concedida aos que creem... De maneira que a Lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé” (Gal 3.21ss).
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Comentário: A Lei moral é o padrão de Deus, reflete a sua vontade perfeita e soberana. Sendo a Lei justa e nós pecadores, obviamente que nossa relação com ela seria desastrosa, pois toda tentativa humana de salvação é por obras e termina em frustração. A Lei exige perfeita obediência e condena a sua transgressão. Sendo assim o pecador não consegue sobreviver a Lei. Ela tira qualquer esperança de salvação por nós mesmos, por nossa justiça ou nossas obras. O apóstolo diz que ela nos guiou a Cristo, isto é nos fez ver que precisamos de socorro e o único que nos pode socorrer é Jesus Cristo e apenas ele. Por isso os crentes amam e guardam a Lei de Deus e nela se deleitam, pois afinal ela nos guia ao Redentor e, usada pelo Espírito Santo, nos modela e conforma a Cristo.
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A carne não cumpre a lei
Ninguém poderia ou pode satisfazer a Lei de Deus ou cumpri-la, por causa de fraqueza da nossa carne que adere e permanece em nós até nosso último suspiro. Outra vez diz o apóstolo: “O que fora impossível à Lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado” (Rom 8.3). Portanto, Cristo é o aperfeiçoador da Lei e o nosso cumprimento dela (Rom 10.4), o qual, com o fim de remover a maldição da Lei, foi feito maldição por nós (Gál 3.13). Assim, ele nos comunica, pela fé, o seu cumprimento da Lei, e a sua justiça e obediência nos são imputadas.
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Comentário: Na Lei que o próprio Deus escreveu nas tábuas de pedra e depois detalhou através dos seus profetas e apóstolos, está expressamente revelada toda a sua vontade para o homem. Todas as áreas da nossa vida são perfeitamente cobertas pela Lei de Deus, até porque Ele melhor do ninguém nos conhece e sabe o que devemos fazer e como devemos fazê-lo para desfrutar da Sua comunhão e viver para a Sua glória. Essa é a única maneira do homem ser realizado e feliz. Portanto a Lei de Deus é completa e perfeita, boa e espiritual. Contudo sabemos que a Lei não nos foi dada para nos salvar. Ela revela o padrão da justiça e santidade de Deus. Nenhum homem jamais pode ser justificado pela observância da Lei, porque também nenhum homem, em sua limitação, pode cumpri-la perfeitamente. Alguém para atingir o elevado padrão da justiça divina precisaria ser divino, e é exatamente isto que o Senhor Jesus Cristo é – divino. Sua justiça é a única justiça aceita diante do tribunal celestial e nenhuma outra mais. Portanto todo salvo é alguém que recebeu de Deus a atribuição da justiça de Cristo. Sem méritos, sem obras, sem justiça própria ou qualquer outra coisa que o recomendasse perante o trono de Deus. O crente é alguém que pode dizer: A minha justiça é a de Cristo, a minha obediência é a de Cristo, o meu cumprimento da Lei está no que Cristo fez. Amém.
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Até que ponto foi a lei ab-rogada
A Lei de Deus é, pois, ab-rogada na medida em que ela não mais nos condena, nem opera ira em nós. Estamos debaixo da graça e não debaixo da Lei. Além disso, Cristo cumpriu todas as formas da Lei. Daí, vindo o corpo, cessaram as sombras, de modo que agora em Cristo temos a verdade e toda a plenitude. Contudo, de modo nenhum rejeitamos por isso a Lei. Lembramo-nos das palavras do Senhor, que disse: “Não vim para revogar, vim para cumprir” (Mat 5.17). Sabemos que na Lei nos são ensinados os padrões de virtudes e vícios. Sabemos que a Lei escrita, quando explicada pelo Evangelho, é útil à Igreja, e que, portanto, sua leitura não deve ser excluída da Igreja. E, embora a face de Moisés estivesse recoberta com um véu, no entanto o apóstolo diz que o véu foi retirado e abolido por Cristo.
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As seitas
Condenamos tudo o que os heréticos, antigos e modernos, ensinaram contra a Lei.
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Comentário: O próprio Deus escreveu de próprio punho um resumo da Lei Moral em duas tábuas de pedra e veio pessoalmente entregá-la num encontro marcado com Seu povo no Monte Horebe. O mediador foi Moisés que subiu ao monte para tomá-la das mãos do próprio Deus. Por causa do pecado do povo com o ídolo do bezerro de ouro, Moisés quebrou aquelas tábuas, porque ficou irado com a infidelidade e traição do povo. Então Deus ordenou que ele preparasse outras tábuas nas quais novamente o Decálogo foi esculpido. Depois Deus acrescentou as leis cerimoniais e as leis judiciais, que estiveram em vigor enquanto o testemunho de Deus na terra estava sobre a nação de Israel. As leis cerimoniais regulamentavam todo o serviço e atividades religiosas cujos tipos e figuras apontavam para o Messias, o Redentor. Eram as sombras que anunciavam a chegada do corpo - “são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” - Colossenses 2.17. Quando o Senhor Jesus veio ele cumpriu todas aquelas figuras, sendo ele próprio a essência e realidade delas. De modo que, depois da morte de Cristo na cruz, qualquer obediência àqueles cerimoniais tornar-se-ia um retrocesso na obra na redenção, que saiu da era dos tipos e está na era da realidade. Reconstruir o velho templo, restabelecer o sacerdócio levítico com os sacrifícios como parecem desejar muitos judeus sinceros, seria uma regressão no plano da redenção, seria andar para trás. Jesus também cumpriu a Lei moral no sentido de que a obedeceu perfeitamente e o fez por nós, em nosso lugar, por isso dizemos que Sua obediência é nossa obediência. A Lei moral, portanto não foi abolida, nunca esteve em desuso, nem será substituída, pois se constitui no padrão moral, absoluto, supremo e eterno de Deus. O Evangelho não cancela nem eclipsa a Lei mas ambos estão em tão plena harmonia quanto os atributos de Deus. A Lei está para a justiça de Deus assim como o Evangelho está para a misericórdia.
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13. Do Evangelho de Jesus Cristo, das promessas, do espírito e da letra
Os antigos tiveram promessas evangélicas
O Evangelho opõe-se à Lei. A Lei opera a ira e anuncia a maldição, enquanto o Evangelho prega a graça e a bênção. São João diz: “Porque a Lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (João 1.17). Não obstante, é perfeitamente certo que aqueles que viveram antes da Lei e sob a Lei não estavam totalmente destituídos do Evangelho. Tinham insignes promessas evangélicas, tais como estas: “A semente da mulher te ferirá a cabeça” (Gên 3.15). “Nela serão benditas todas as nações da terra” (Gên 22.18). “O cetro não se arredará de Judá... até que venha Siló ” (Gên 49.10). “O Senhor teu Deus te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos” (Deut 18.15; At 3.22) etc.
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Comentário: Costuma-se dizer que a Lei está plena do Evangelho e que o Evangelho está cheio da Lei, pois quando se diz que o Evangelho se opõe à Lei, não quer dizer que anule ou negue a Lei. A Lei e o Evangelho são duas metades da mesma porção. A Lei significa o padrão moral de Deus e está relacionada à sua Justiça. O Evangelho significa a boa vontade de Deus para com o homem pecador, incapaz de cumprir o padrão daquela justiça. Por isso se diz que a Lei não salva, apenas mostra a justiça, revela o pecado e, consequentemente, ameaça com a condenação. Não há nada de errado nem de mau na Lei, ao contrário, como disse o apóstolo ela é “santa, e o mandamento santo, justo e bom” - Romanos 7.12. Mesmo na época conhecida como da Lei, encontramos inúmeras promessas evangélicas. De fato desde o Éden encontramos o Evangelho junto com a Lei. Junto com a proibição feita a Adão e Eva para não comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, havia graça de poderem comer de todas as demais árvores do jardim. A mesma proibição da árvore da vida veio após eles terem desobedecido e comido da única árvore que Deus havia proibido que comessem. Quando Adão e Eva traíram Deus, unindo-se ao seu inimigo, o querubim rebelde, a justiça da Lei tinha que ser feita, eles perderam a comunhão com Deus, e consequentemente muitos outros privilégios. Ainda assim, não foram abandonados à sua própria sorte, mas Deus os buscou para salvá-los das consequências trágicas da sua desastrosa escolha. Isso é o Evangelho. Naquele contexto de morte e desolação, Deus lhes falou de um Redentor, da escolha da semente da mulher, cuidou de desfazer a infeliz “amizade” entre a descendência santa e a descendência da serpente. É a obra do Evangelho.
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Promessas dúplices
Reconhecemos que duas espécies de promessas foram reveladas aos antigos, como também a nós. Algumas eram de coisas presentes ou terrenas, tais como as promessas da Terra de Canaã e de vitórias, e como, ainda hoje, as promessas do pão quotidiano. Outras eram naquela ocasião, e são ainda agora, de coisas celestiais e eternas, como a graça divina, a remissão de pecados, a vida eterna por meio da fé em Jesus Cristo.
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Comentário: As promessas materiais ou temporais eram sombras das verdadeiras bênçãos, as espirituais. A posse da terra apontava para a herança eterna, as conquistas e riquezas terrenas que Deus lhes dava apontavam para as riquezas celestiais, que são muito mais reais que as temporais. Tudo era tipológico e didático, eles deviam ter a percepção e olhar além daquelas bênçãos terrenas para aquilo que elas representavam.
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Os patriarcas tiveram promessas não só carnais, mas também espirituais
Os antigos não tiveram, em Cristo, apenas promessas externas ou terrenas, mas também espirituais e celestiais. São Pedro diz: “Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada” (1ª Ped 1.10). Donde também o apóstolo São Paulo diz: “O Evangelho de Deus... foi... outrora prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras” (Rom 1.2). Por isso é bem claro que os antigos não foram inteiramente destituídos de todo o Evangelho.
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Comentário: Quando o testemunho de Deus na terra estava ligado à nação de Israel, havia muitas promessas de bênçãos terrenas. Mas obviamente que as promessas não estavam restritas à terra, tais como saúde física, prosperidade financeira e vitória sobre os inimigos. Também tinham as grandes promessas espirituais referentes a redenção das suas almas e a vida eterna. Deus deu a eles preciosas promessas de salvação temporal e eterna. A salvação temporal era necessária à eles como também à Igreja de hoje, para a manutenção do testemunho de Deus na terra. Mas as bênçãos mais preciosas nunca foram as materiais e sim as graças de Deus. Tanto para o antigo Israel quanto para o novo Israel de Deus, o melhor não são as conquistas ou riquezas materiais e sim os tesouros espirituais, pois apenas esses últimos perdurarão para a eternidade. Mesmo os crentes que viveram no passado, sob a antiga aliança, contemplaram a pátria celestial e viveram como peregrinos na terra. Essa foi a experiência do próprio rei Davi, que mesmo sendo rei, considerava-se um estrangeiro neste mundo - “Ouve, SENHOR, a minha oração, e inclina os teus ouvidos ao meu clamor; não te cales perante as minhas lágrimas, porque sou um estrangeiro contigo e peregrino, como todos os meus pais” - Salmo 39.12. Nada mais despropositado do que o evangelho da prosperidade financeira pregado hoje, quando o testemunho de Deus não está mais ligado a uma nação terrena e sim a um povo espalhado entre as nações. Tal pregação é falsa, adulterada e produz cristãos mundanos, secularizados, materialistas. A boa nova do evangelho é que Cristo chama os pecadores ao arrependimento e lhes promete um tesouro no céu e não na terra.
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Que é propriamente o Evangelho?
E, embora nossos pais tivessem dessa maneira, nos escritos dos profetas, o Evangelho, pelo qual alcançaram a salvação em Cristo pela fé, contudo, o que se chama propriamente “Evangelho” são as notícias alegres e felizes pelas quais, primeiro por João Baptista, depois por Cristo, o Senhor, e depois pelos apóstolos e seus sucessores, se anunciou aos homens que Deus já realizou o que ele prometera, desde o princípio do mundo, e nos mandou, ou melhor nos deu o seu único Filho e nele a reconciliação com o Pai, a remissão dos pecados, toda a plenitude e a vida eterna. Portanto, a história apresentada pelos quatro evangelistas, explicando como isso foi realizado ou cumprido por Cristo, o que Cristo ensinou e praticou, e que aqueles que creem nele têm toda a plenitude, é exatamente o que se chama “Evangelho”. A Pregação e os escritos apostólicos, nos quais os apóstolos nos expõem como o Filho nos foi dado pelo Pai, e nele tudo o que diz respeito à vida e à salvação, são também o que se chama corretamente “doutrina evangélica”, de modo que ainda hoje, se sinceramente pregada, não perde o direito a tão preclara designação.
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Comentário: Os antigos crentes, filhos da aliança, foram salvos da mesma forma que nós somos hoje – isto é, recebendo fé, arrependimento e também sendo regenerados pelo Espírito Santo. Tinham seus pecados expiados com base nos sacrifícios que apontavam para Cristo. Receberam o perdão de seus pecados e viveram piedosamente andando com Deus. Mas naturalmente que o que temos hoje, isto é, depois de Cristo, é muito superior, como podemos ler na epístola aos Hebreus. A revelação de Deus foi progressiva até chegar o Messias, então tudo quanto os nossos antigos irmãos possuíam não se pode comparar com o que temos em nossa era. Não queremos dizer que eles não possuíam as realidades espirituais, pois as possuíam, mas estavam sob o véu. Nem mesmo os profetas podiam entender claramente todas as coisas que viam. Quando Cristo veio o véu foi removido completamente e todas as realidades espirituais que estavam veladas agora são reveladas. Por isso disse o apóstolo: Mas, quando se converterem ao Senhor, então o véu se tirará - 2ª Coríntios 3.16. Nesse sentido, é que entendemos que eles tiveram o ‘evangelho’ sim, mas ainda velado. Quando, porém, Cristo veio, aí sim, as boas novas foram proclamadas desde os céus e ecoaram por toda a terra - E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo: Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor - Lucas 2.10-11. Finalmente a promessa se cumpriu e Deus se fez carne. Jesus Cristo é o evangelho. Não existem melhores notícias do que estas: Jesus Cristo, o Filho Eterno, veio buscar e salvar o que estava perdido.
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Do espírito e da letra
Essa mesma pregação do Evangelho é também chamada pelo apóstolo “o espírito” e “o ministério do espírito”, porque pela fé ela se torna eficaz e viva nos ouvidos, ou melhor, nos corações dos crentes iluminados pelo Espírito Santo (2ª Cor 3.6). A letra, que se opõe ao Espírito, significa tudo o que é externo, mas especialmente a doutrina da Lei, que, sem o Espírito e a fé, produz ira e excita o pecado nas mentes daqueles que não têm uma fé viva. Por isso o apóstolo chama a isso “o ministério da morte”. Aqui é pertinente a palavra do apóstolo: A letra mata, mas o Espírito vivifica. Falsos apóstolos também pregavam um Evangelho corrompido, misturando-lhe a Lei, como se sem a Lei Cristo não pudesse salvar.
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As seitas
Assim, afirmavam os ebionitas, descendentes espirituais do herege Ébion, e os nazaritas, que anteriormente eram chamados mineus. A todos estes nós condenamos, e pregamos ao mesmo tempo o puro Evangelho, ensinando que os crentes são justificados só pelo Espírito, e não pela Lei. Uma exposição mais detalhada deste assunto virá sob o título de “justificação”.
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Comentário: Na verdade a Lei julga a todos e a todos condena. Ela expõe o pecado e exige sua máxima punição. Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las - Gálatas 3.10. A própria pregação do Evangelho se não for acompanhada da iluminação do Espírito Santo na mente do ouvinte irá operar morte, conforme o próprio apóstolo disse: E graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo, e por meio de nós manifesta em todo o lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem. Para estes certamente cheiro de morte para morte; mas para aqueles cheiro de vida para vida. E para estas coisas quem é idôneo? - 2ª Coríntios 2.14-16. Junto a isto, naturalmente entram os falsos mestres pregando um legalismo misturado à graça como meio de salvação. De modo que a Igreja católica confessional sempre declarou crer na salvação pura e exclusivamente pela graça de Cristo Jesus, independente da Lei, todavia não anulando a Lei para a vida do crente. A fé histórica e bíblica é que o homem não poderá ser salvo a menos que o Espírito Santo lhe ilumine o entendimento e lhe aplique os benefícios da gloriosa redenção de Cristo.
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O ensino do Evangelho não é novo, mas muito antigo
Embora o ensino do Evangelho, comparado com o dos fariseus sobre a Lei, tenha parecido ser uma nova doutrina quando pregado por Cristo a primeira vez, o que também Jeremias profetizou a respeito do Novo Testamento, contudo, ele, na realidade não só era como ainda é, uma velha doutrina (que hoje ela é chamada nova pelos papistas, quando comparada com a doutrina agora recebida entre eles), mas na verdade é a mais antiga de todas no mundo. Com efeito Deus predestinou desde a eternidade salvar o mundo por Cristo, e manifestou ao mundo, através do Evangelho, esta sua predestinação e o seu conselho eterno (2ª Tim 2.9 ss). Disso é evidente que a religião e a doutrina evangélica, entre quantas já existiram, existem e virão a existir, é a mais antiga de todas. Por isso, afirmamos que todos os que dizem que a religião e a doutrina evangélica é uma fé surgida recentemente, e que não tem mais que trinta anos de existência, erram vergonhosamente e falam coisas indignas do conselho eterno de Deus. A eles se aplica a palavra de Isaías, o profeta: “Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo!” (Is 5.20).
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Comentário: A doutrina mais antiga é aquela que a Igreja de Deus sempre ensinou desde o princípio do mundo: Deus salva o pecador por Sua graça e não pelo merecimento da criatura caída em pecado. Se Deus quisesse abandonar o homem em sua rebelião contra a Sua vontade teria feito isso, mas não fez. Antes o buscou e em meio a toda aquela situação de condenação de juízo e morte provocados pelo pecado, anunciou também um Redentor - E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar - Gênesis 3.15. Como resultado da desobediência de Adão o pecado entrou na humanidade, passando a todos os homens, trazendo as mais terríveis consequências: maldição, dor, sofrimento, cansaço, tristeza, desespero, morte. Mas foi em meio à esse caos recém causado pelo pecado que veio o anúncio da redenção graciosa da descendência da mulher por Um de seus próprios descendentes. Foi a primeira proclamação, ainda que velada, do Evangelho da Graça neste mundo. Depois disso, muitas vezes encontramos nas escrituras o mesmo evangelho sendo prenunciado pelos patriarcas e profetas até chegar o tempo em que o Redentor se fez carne e entrou na humanidade para cumprir todas as profecias e o decreto eterno de Deus que sempre foi salvar os homens que destinou na eternidade. Por isso não existe religião mais antiga que o cristianismo, não existe doutrina mais antiga que a doutrina cristã, não existe nada neste mundo mais antigo do que o evangelho eterno - E vi outro anjo voar pelo meio do céu, e tinha o evangelho eterno, para o proclamar aos que habitam sobre a terra, e a toda a nação, e tribo, e língua, e povo - Apocalipse 14.6.
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14. Do arrependimento e da conversão do homem
A doutrina do arrependimento está ligada ao Evangelho
Pois assim diz o Senhor no Evangelho: “Que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações” (Luc 24.47).
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Que é arrependimento?
Por arrependimento entendemos uma volta atrás da mente no pecador provocado pela Palavra do Evangelho e pelo Espírito Santo, e recebida pela verdadeira fé, com o que o pecador imediatamente reconhece a sua corrupção inata e todos os seus pecados denunciados pela Palavra de Deus; e entristece-se por eles em seu coração, e não apenas os lamenta e francamente confessa diante de Deus com um sentimento de vergonha, mas também com indignação os abomina; cuidando agora zelosamente de emendar-se, num esforço constante em busca da inocência e da virtude, no qual esforço se exercita santamente em todo o resto de sua vida.
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O arrependimento é verdadeira conversão a Deus
E este é o verdadeiro arrependimento, uma sincera volta para Deus e para todo o bem, e uma profunda aversão ao Diabo e a todo o mal.
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Comentário: Arrependimento é mudança de mente, de coração, de comportamento, de atitude em relação à vida. Quando o homem se arrepende passa a ter uma nova cosmovisão e a sujeitar-se ao Senhor Jesus Cristo de todo seu coração. Ele tem vergonha do que era, conforme disse o profeta: E ali vos lembrareis de vossos caminhos e de todos os vossos atos com que vos contaminastes e tereis nojo de vós mesmos, por todas as vossas maldades que tendes cometido…. Então, vos lembrareis dos vossos maus caminhos e dos vossos feitos, que não foram bons; e tereis nojo em vós mesmos das vossas maldades e das vossas abominações - Ezequiel 20.43; 36.31.
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O arrependimento é dom de Deus
Dizemos expressamente que este arrependimento é puro dom de Deus e não uma realização de nossas forças. O apóstolo ordena a um fiel ministro que diligentemente instrua aqueles que se opõem à verdade, “na expectativa de que Deus lhes conceda o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade” (2ª Tim 2.25). Lamenta os pecados cometidos. Aquela mulher que lavou os pés do Senhor com suas lágrimas, e São Pedro, que chorou amargamente e lamentou ter negado o Senhor (Luc 7.38; 22.62) mostram claramente como deve ser o espírito de um homem arrependido, lamentando seriamente os pecados que cometeu. Confessa os pecados a Deus. E o filho pródigo e o publicano no Evangelho, quando comparados com o fariseu, apresentam-nos as fórmulas mais adequadas de confessar os nossos pecados a Deus. O primeiro disse: “Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores” (Luc 15.18 ss). E o segundo, não ousando erguer os olhos ao céu, bate no peito, dizendo: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!” (cap. 18.13). E não temos dúvida de que foram aceitos em graça por Deus, pois o apóstolo São João diz: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazêmo-lo mentiroso e a sua palavra não está em nós” (1ª João 1.9 ss).
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Comentário: Uma vez que o homem não pode obter coisa alguma se do céu não lhe for dado, então o arrependimento tanto quanto a fé são dons da graça que o Espírito Santo dá aos eleitos quando estes ouvem o evangelho. Esses dons acompanham o chamado eficaz que é a operação realizada no íntimo do pecador, convertendo-o a Deus. Ao mesmo tempo que a pregação do evangelho é um chamado à fé, ao arrependimento e à conversão, o Senhor sabe que nenhum pecador irá crer, arrepender-se e converter-se por iniciativa própria. É preciso que algo seja feito nele, até porque o arrependimento não é apenas um ato, mas uma consciência da sua miséria e depravação, que o acompanhará para o resto da vida, enquanto vai sendo santificado e conformado ao Senhor Jesus Cristo. Haverá sempre um reconhecimento da sua fraqueza e impotência, e a total dependência de Deus para vencer o pecado e o mal neste mundo. Além disso alguém que tem a compreensão do quanto foi perdoado também amará muito Aquele que o perdoou e viverá num santo temor de tornar a ofendê-lo. Em outras palavras o santo redimido não deseja jamais ofender a Deus, e quando acidentalmente fá-lo, sente muita tristeza e logo se humilha em sua santa presença. Aqui podemos ver outra vez a diferença entre o pio e o ímpio. O ímpio peca e prossegue em seu pecado acumulando ira para o dia do juízo; o pio também peca, mas quando isso acontece, logo percebe que o pecado afeta diretamente a sua comunhão com Deus. Então se arrepende pois deseja se ver livre daquela mancha em suas vestes novas, aspira tornar à comunhão do Pai o quanto antes. Isso significa viver em contínuo arrependimento e contínua conversão a Deus.
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Confissão e absolvição sacerdotais
Cremos que é suficiente esta sincera confissão feita só a Deus, ou particularmente entre Deus e o pecador, ou publicamente na Igreja quando se faz a confissão geral de pecados, e que para se obter perdão de pecados não é necessário ninguém confessar seus pecados a um sacerdote, sussurrando-lhe aos ouvidos, para dele ouvir em troca a absolvição, com a imposição das mãos, porque não existe nenhum mandamento nem exemplo disso Santas Escrituras. David testifica e diz: “Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais ocultei. Disse: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniquidade do meu pecado” (Sal 32.5). E o Senhor, ao ensinar-nos a orar e ao mesmo tempo a confessar nossos pecados, disse: “Pai nosso que estás nos céus... perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores” (Mat 6.9 e 12). Portanto, é necessário que confessemos nossos pecados a Deus, nosso Pai, e nos reconciliemos com nosso próximo, se o ofendemos. Quanto a esse tipo de confissão, o apóstolo São Tiago diz: “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros” (Tg 5.16). Se, contudo, alguém se acha acabrunhado pelo peso de seus pecados e por tentações que o põem perplexo, e procurar conselho, instrução e conforto individualmente, ou de um ministro da Igreja, ou de um outro irmão instruído na Lei de Deus, não desaprovamos. Por outro lado, aprovamos plenamente a confissão de pecados geral e pública, que usualmente se realiza na Igreja e em reuniões de culto, como notamos acima, tanto mais que isso está de acordo com a Escritura.
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Comentário: A primeira coisa a se dizer é que a confissão de pecados é uma coisa boa, correta e bíblica. É ensino do Senhor que devemos confessar nossos pecados tanto a Deus quanto aos homens a quem ofendemos, quando ofendemos, sempre que a situação o exija de nós. De fato é uma prática deveras salutar para a nossa vida espiritual. A falta desse exercício tem deixado, a muitos, engessados em sua vida espiritual, criado muitos problemas na vida conjugal, familiar, etc. A questão toda está em seguir o ensino bíblico, o que muitos não têm feito, em vez disso seguem uma tradição sem base bíblica que é a de se confessar, necessariamente, a um sacerdote todos os pecados, para receber daquele o perdão. O que as Escrituras ensinam? Primeiramente temos o ensino de pedirmos diretamente a Deus perdão pelos nossos pecados. Isso devemos fazer diariamente, porque cometemos muitos pecados todos os dias. Diante de Deus devemos reconhecer nossa pecaminosidade e rogar-lhe misericórdia e socorro. Em segundo lugar devemos pedir perdão ao nosso próximo quando o ofendemos. Isso devemos fazer sempre que agimos com indelicadeza, faltamos com respeito, ou de alguma forma oprimimos, enfim, qualquer coisa que tenha deixado nosso irmão entristecido ou magoado. Finalmente, quando estivermos perdendo para algum pecado, devemos procurar por ajuda e aconselhamento com outros irmãos mais experientes e maduros. Sempre que estivermos lutando com algum pecado, tivermos alguma fraqueza, ou tivermos caído em qualquer erro, não devemos enfrentar sozinhos, mas buscar ajuda. O que devemos rejeitar é o ensino romanista que diz que, a menos que um crente confesse fielmente seus pecados a um sacerdote, não pode ter a salvação. Esse ensino que confere aos sacerdotes romanistas e especialmente ao Papa o poder de absolver pecados, é falso e antibíblico.
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Das chaves do Reino do Céu
Quanto às chaves do Reino de Deus, que o Senhor entregou aos apóstolos, muitos tagarelam inúmeras coisas espantosas, e com elas forjam espadas, lanças, cetros e coroas, e pleno poder sobre os maiores reinos, e, afinal, sobre almas e corpos. Julgando de modo singelo, segundo a Palavra do Senhor, dizemos que todos os que são legitimamente chamados ministros possuem e exercem as chaves, ou o uso das chaves, quando anunciam o Evangelho; isto é, quando ensinam, exortam, confortam, repreendem e exercem a disciplina sobre o povo confiado aos seus cuidados.
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Comentário: Primeiro o Senhor Jesus disse a Pedro: E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus - Mateus 16.19. Em seguida ele estendeu essa chave a todos os discípulos: Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu - Mateus 18.18. Essa chave significa a pregação do evangelho e é usada por aqueles que o Senhor envia, todos quantos estão na obra da evangelização, como o apóstolo Paulo nos ensina: E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação. Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos pois da parte de Cristo que vos reconcilieis com Deus - 2a Coríntios 5.18-20. Deus é quem abre à uns e fecha à outros a porta do seu Reino, e o meio ordinário que ele usa para fazê-lo e pela sua Igreja e seus ministros.
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Abrir e fechar o Reino
Desse modo abrem o Reino dos Céus aos obedientes e o fecham aos desobedientes. O Senhor prometeu essas chaves aos apóstolos em Mateus, capítulo 16, e as deu em João capítulo 20, Marcos capítulo 16 e Lucas capítulo 24, quando enviou seus discípulos e os mandou pregar o Evangelho a todo o mundo, e perdoar pecados.
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Comentário: A pregação do evangelho aponta para a porta do Reino de Deus e quem ouve o chamado do evangelho e responde aos termos da Aliança da Graça proposta por Deus, entram pelas portas da salvação.
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O ministério da reconciliação
Na carta aos Coríntios diz o apóstolo que o Senhor deu o ministério da reconciliação aos seus ministros (2ª Cor 5.18ss). E ele explica qual é ele, dizendo que é a pregação ou o ensino da reconciliação. E, tornando suas palavras ainda mais claras, acrescenta que os ministros de Cristo desempenham o ofício de embaixadores em nome de Cristo, como se Deus mesmo por meio deles exortasse o povo a se reconciliar com Deus, sem dúvida nenhuma pela fiel obediência. Portanto, exercem o poder das chaves quando persuadem os homens à fé e ao arrependimento. Assim, reconciliam os homens com Deus.
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Os ministérios proclamam a remissão de pecados
Assim, eles perdoam pecados. Abrem, assim, o Reino dos Céus e nele introduzem os crentes: mui diferentemente daqueles de quem o Senhor fala no Evangelho: “Ai de vós, intérpretes da lei! porque tomastes a chave da ciência; contudo, vós mesmos não entrastes e impedistes os que estavam entrando” (Luc 11.52).
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Comentário: É bom lembrar que só entram no céu aqueles que o Senhor escolhe para trazer à Sua presença e fazer ali habitar. Deus tem seus meios ordinários para fazer isso. O apóstolo Paulo disse que Deus salva o pecador pela pregação do Evangelho: Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação - 1ª Coríntios 1.21. Então aí está uma chave do Reino do céu: a pregação do santo evangelho, incumbência que Deus deu aos seus ministros. A pregação é uma chave que pode abrir as portas do Reino dos céus para muitos homens que ouvindo o chamado de Deus, arrependem-se e rendem-se ao senhorio de Cristo. A mesma chave pode também fechar para outros tantos que ao ouvir a pregação endurecem-se e se vão, desprezando o chamado ao arrependimento e à sujeição ao Rei Jesus. Essas chaves foram entregues primeiramente aos doze apóstolos, depois aos setenta, e obviamente à toda Igreja do Senhor. Nenhum homem na terra tem a exclusividade dessa chave. Para melhor entendermos em linguagem humana, é como se fosse uma porta de duas trancas: uma do lado de baixo e outra do lado de cima. A do lado de cima está nas mãos do Senhor Jesus e a do lado baixo está nas mãos da Igreja e seus mensageiros - Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu - Mateus 18.18. Se alguém entrou aqui o Senhor disse que também entrou lá. Se para alguém as portas se fecharam aqui, também se fecharam lá, porque fora da Igreja de Cristo não há salvação. Quanto à repreensão do Senhor aos escribas e fariseus pelo fato desses impedirem muitos de entrar no Reino dos céus, mostra como a falsa Igreja pode ser motivo de tropeço para muitos, pois aqueles representavam exatamente a falsa Igreja daqueles dias, que só possuía legalismo e formalidade, mas lhe faltava graça.
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Como os ministros absolvem
Os ministros, portanto, absolvem correta e eficazmente quando pregam o Evangelho de Cristo e nele a remissão de pecados, que é prometida a todo aquele que crê, assim como cada um é batizado, e quando testificam que ela pertence a cada um particularmente. E não julgamos que esta absolvição se torne mais eficaz por ser murmurada no ouvido de alguém ou individualmente sobre a cabeça de alguém. Pensamos, contudo, que a remissão de pecados pelo sangue de Cristo deve ser diligentemente anunciada, e que cada um deve ser avisado de que o perdão de pecados lhe pertence.
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Comentário: Não é a palavra do ministro mas sim a palavra de Deus anunciada por ele que efetuará a obra. Crendo o ouvinte na palavra de Deus, o Espírito Santo aplica a obra de Cristo a ele. O perdão vem da expiação realizada por Jesus Cristo e somente dela.
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Diligência na renovação da vida
Ademais os exemplos do Evangelho ensinam-nos quão vigilantes e diligentes devem ser os arrependidos no esforço de renovação de vida e na mortificação do homem velho e despertamento do homem novo. O Senhor disse ao paralítico que ele curara: “Olha que já estás curado; não peques mais, para que não te suceda cousa pior” (João 5.14). De igual modo, disse à adúltera a quem libertou: “Vai, e não peques mais” (Jo. 8.11). Sem dúvida, por estas palavras ele não quis dizer que o homem, alguma vez, enquanto ainda vive nesta carne, não peque; mas recomenda vigilância cuidadosa e diligência para que nos esforcemos de todos os modos e supliquemos a Deus em nossas orações para não cairmos nos pecados dos quais como que ressuscitamos, e para não sermos vencidos pela carne, pelo mundo e pelo Diabo. Zaqueu, o publicano, recebido pelo Senhor em graça, exclama no Evangelho: “Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma cousa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais” (Luc 19.8). Portanto, do mesmo modo pregamos que restituição e misericórdia, e, até, esmolas, são necessárias para aqueles que verdadeiramente se arrependem, e exortamos todos os homens em toda parte com as palavras do apóstolo: “Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões; nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado como instrumentos de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros a Deus como instrumentos de justiça” (Rom 6.12 ss).
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Comentário: O arrependimento genuíno produz frutos condizentes. Ele produz primeiramente uma dor e um desconforto na alma do pecador, que passa a odiar o pecado e sua vida pecaminosa. Isso leva aos frutos que confirmam a mudança. De modo que arrependimento não é apenas chorar diante de Deus mas abandonar o pecado e preencher a lacuna com obras dignas.
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Erros
Por isso, condenamos todas as afirmações ímpias de alguns que fazem mau uso da pregação do Evangelho e dizem: “É fácil retornar a Deus; Cristo expiou todos os pecados: é fácil o perdão dos pecados; portanto, que mal há em pecar? Nem precisamos estar muito preocupados acerca do arrependimento, etc.” Não obstante, ensinamos sempre que o acesso a Deus está aberto a todos os pecadores, e que ele perdoa todos os pecados a todos os que creem, exceto o pecado contra o Espírito Santo (Mc 3.29).
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Comentário: Distorcer a doutrina é especialidade do caçador de almas. Ele sempre fará o que puder para confundir os incautos. Ouçamos antes as palavras do apóstolo Paulo: Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele? – Romanos 6.1-2.
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As seitas
Eis por que condenamos os antigos e modernos novacianos e os cataristas.
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Indulgências papais
Condenamos, de modo especial, a doutrina lucrativa do Papa sobre a penitência, e contra a sua simonia e as suas indulgências simoníacas usamos o julgamento de São Pedro com respeito a Simão: “O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois julgaste adquirir por meio dele o dom de Deus. Não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus” (At 8.20 ss).
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Comentário: Todo pecado é pecado, porque pecado é uma essência maligna, contudo há atos pecaminosos que são mais perversos e prejudiciais que outros. O comércio religioso é um desses pecados abomináveis. O Senhor disse: … De graça recebestes, de graça dai – Mateus 10.8b. É obra do diabo fazer comércio do evangelho e será condenada com maldição: E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas: sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita - 2a Pedro 2.3. As falsas promessas de perdão e salvação oferecida pelos falsos mestres é detestável aos olhos de Deus, porque pode levar vidas à completa destruição.
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Satisfações
Não aprovamos também aqueles que pensam que, pelas suas satisfações, reparam os pecados cometidos. Ensinamos que só Cristo, pela sua morte ou paixão, é a satisfação, a propiciação ou a expiação de todos os pecados (Is. 53; 1ª Co 1.30). Contudo, como já dissemos, não cessamos de insistir na mortificação da carne. Mas acrescentamos que essa mortificação não deve ser orgulhosamente exaltada perante Deus como satisfação pelos pecados, mas deve ser realizada humildemente, de conformidade com a natureza dos filhos de Deus, como uma nova obediência resultante da gratidão pelo livramento e pela satisfação plena obtidos pela morte e satisfação do Filho de Deus.
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Comentário: Antes de prosseguir no assunto da absolvição dos pecados e entrada no reino dos céus pela pregação da Palavra temos que nos estender um pouco mais para olhar a outra chave do reino dos céus: a disciplina cristã. Esta também é usada pela Igreja, pela Congregação do Senhor. Ela também foi entregue primeiramente aos apóstolos e depois à toda a Igreja. A Bíblia ensina que a disciplina eclesiástica deve ser exercida pelos presbíteros escolhidos pela Congregação. Estes são autoridade constituída por Deus para exercer a disciplina. Então, a disciplina também pode fechar a porta do reino dos céus aos rebeldes, isto é, àqueles que promovem divisões e escândalos morais, ensinam falsas doutrinas, entre outras coisas. Para esses tais a Igreja deve fechar a porta aqui em baixo e o Senhor Jesus disse que também fechará lá em cima. E a menos que haja arrependimento elas permanecerão fechadas. Tornando à primeira chave, isto é, a pregação do santo evangelho, ela foi dada à Igreja para que a use simplesmente sem dificultar a entrada dos pecadores arrependidos e penitentes. Proclamação feita, coração derramado na presença de Deus, pecador vindo através de Cristo, pela fé confiando em seu sangue que purifica todos os pecados, porta do reino aberta. Nada mais, nada menos. Daí para frente é cultivar uma vida de gratidão a Deus, rogos pela assistência do Espírito Santo e vigilância para não retornar aos antigos pecados, mortificando a carne dia a dia, para isso, contando sempre com a graça de Deus. O mortificar a carne e a santificação, são obrigações nossas, que não devem ser confundidas como sendo parte da nossa expiação, pois são parte do nosso novo viver e andar com Cristo.
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15. Da verdadeira justificação dos fiéis
Que é justificação?
Segundo o apóstolo no seu tratamento da justificação, justificar significa “perdoar pecados”, “absolver de culpa e castigo”, “receber em graça” e “declarar justo”. Em sua Epístola aos Romanos o apóstolo diz: “É Deus quem os justifica. Quem os condenará?” (Rom 8.33). Justificar e condenar são termos opostos. E nos Atos dos Apóstolos o apóstolo diz: “Tomai, pois, irmãos, conhecimento de que se vos anuncia remissão de pecados por intermédio deste; e por meio dele todo o que crê é justificado de todas as cousas das quais vós não pudestes ser justificados pela lei de Moisés” (At 13.38 ss). Na Lei, assim como nos Profetas, lemos: “Em havendo contenda entre alguns, e vierem a juízo, os juízes os julgarão, justificando ao justo e condenando ao culpado” (Deut 25.1). E em Is. 5: “Ai dos que... por suborno justificam o perverso”.
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Comentário: Justificação, como a própria palavra diz é declarar alguém sem culpa, isentá-lo de uma dívida. Não que a culpa ou a sua dívida desapareça, mas ela não é levada em conta. Também não significa que a pessoa se torna justa, mas perdoada. A justificação é um decreto de Deus, um ato judicial do Grande Juiz, que isenta o pecador de seu pecado e sua culpa. Não considera o réu inocente, desinformado, ignorante, porém o isenta da sua dívida, declarando-a quitada para com a justiça divina. Na justificação o que muda não é o caráter do réu, mas a sua condição diante de Deus. É um ato solene, de caráter forense, um ato soberano da livre vontade de Deus, portanto irreversível – uma vez justificado, para sempre justificado. Se um decreto de um simples rei terreno não pode ser mudado, como vemos no caso de Dario – “Sabe, ó rei, que é lei dos medos e dos persas que nenhum edito ou decreto, que o rei estabeleça, se pode mudar” - Daniel 6.13, que dizer de um decreto do Rei dos reis? Quando o Espírito Santo chama eficazmente um pecador, ato contínuo ele é justificado e jamais decai dessa condição. Como dissemos ele não é tornado justo no sentido que não pecará mais, mas passa a ter um novo status diante de Deus. E ainda mais, a justificação não apenas cancela toda a dívida passada, mas também promete perdão para futuros pecados. Quem é justificado não se torna impecável, mas torna-se agradecido e não deseja jamais tornar aos pecados de outrora. De fato um crente em Jesus Cristo prefere morrer a tornar ao seu estado anterior de pecado. Lutará contra o pecado até ao sangue, mas jamais se renderá, pois aprecia o Dom de Deus mais que a própria vida. Então prefere morrer a pecar.
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Somos justificados por causa de Cristo
É absolutamente certo que todos nós somos por natureza pecadores e ímpios, e diante do tribunal de Deus somos acusados de impiedade e réus de morte, mas, só pela graça de Cristo, sem qualquer mérito nosso ou consideração por nós, somos justificados, isto é, absolvidos dos pecados e da morte por Deus, o Juiz. Que é, com efeito, mais claro do que o que disse São Paulo? “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Rom 3.23 ss).
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Comentário: Tudo está muito claro nas Escrituras Sagradas e o ensino da justificação gratuita, graciosa, absolutamente sem qualquer merecimento por parte do pecador, está ali claro e cristalino. À mais superficial leitura tanto do Antigo quanto do Novo Testamento esse ensino salta aos nossos olhos majestosamente. Nenhuma justiça humana é aceita diante do tribunal divino. Nenhuma obra de justiça humana jamais alcança o padrão da justiça divina. O homem é mau e não pode produzir boas obras. Diante de Deus nenhum homem é justo nem contém justiça satisfatória, nem poderá realizar uma boa obra que alcance o elevado padrão da sua justiça. Logo, ou Deus mesmo proverá um meio para atribuir justiça ao homem fora dele, ou condenará a todos sob sua perfeita justiça. Nenhum descendente de Adão, por mais santo, piedoso, dedicado a Deus, jamais poderia alcançar o padrão da justiça eterna. Logo nenhum filho de Adão poderia salvar-se a si mesmo pelas suas boas obras ou caridade. Diante de Deus o pecador é um verdadeiro mendigo em imundos farrapos. Tudo o que tem são andrajos fedorentos e nada mais. Ele não tem nada, absolutamente nada que o recomende diante do Santo Deus. O homem em seu pecado é um lixo desprezível, um inútil, prestes a ser descartado no monturo dos dejetos. Mesmo seu melhor não presta para nada. É preciso compreender bem o estrago que o pecado fez em nossa vida, para apreciarmos e valorizarmos a graça de Deus. Oh, maravilhosa graça! Cada justificado por Deus recebeu a justiça de Outro. A cada justificado Deus atribuiu a justiça de Seu Filho, Jesus Cristo. É essa justiça que assegura nossa entrada no céu, nada mais, nada menos.
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A justiça imputada
Cristo tomou sobre si mesmo e carregou os pecados do mundo, e satisfez a justiça divina. Portanto, é só por causa dos sofrimentos e ressurreição de Cristo que Deus é propício para com nossos pecados e não no-los imputa, mas imputa-nos como nossa a justiça de Cristo (2ª Cor 5.19 ss; Rom 4.25), de modo que agora não só estamos limpos e purificados de pecados ou somos santos, mas também, sendo-nos dada a justiça de Cristo, e sendo nós assim absolvidos do pecado, da morte ou da condenação, somos finalmente justos e herdeiros da vida eterna. Propriamente falando, portanto, só Deus justifica, e justifica somente por causa de Cristo, não nos imputando os pecados, mas a sua justiça.
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Comentário: Ninguém menos que o próprio Filho de Deus poderia satisfazer o padrão da justiça divina. Ele e apenas Ele poderia “expiar a iniquidade, e trazer a justiça eterna” - Daniel 9.25. Nenhum humano jamais poderia fazê-lo, por mais justo, puro e santo que fosse. A justiça eterna tem a ver com o Filho eterno. Ele estava comprometido na Aliança eterna em um dia tornar-se carne e viver entre os homens e ser o Redentor eterno dos eleitos. Quanto aos demais pecadores, são abandonados em seus pecados e às suas consequências. Todos os homens são culpados diante de Deus por causa da queda de Adão, o nosso cabeça federal, e pelos muitos pecados que cada um de nós acrescenta a cada dia que vivemos neste mundo. Mas o povo que Deus escolheu redimir através do sangue de Jesus Cristo recebe sobre si a justiça de Cristo. É uma troca desigual – os nossos pecados com todas as suas consequências foram colocados a crédito de Jesus Cristo, enquanto que a Sua justiça e obediência foram creditadas a nós. Assim, Deus não nos atribui os danos dos nossos pecados antes nos imputa a justiça de Seu Amado Filho, tornando-nos aptos para a vida eterna. Por isso se diz justiça imputada, isto é, atribuída, porque nenhum homem jamais teria justiça própria suficiente para satisfazer a exigência da justiça divina. Sendo assim, se alguém tiver que ser salvo, deverá receber sobre si o manto remidor do Senhor Jesus Cristo.
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Somos justificados somente pela fé
E porque recebemos esta justificação, não por quaisquer obras, mas pela fé na misericórdia de Deus e em Cristo, por isso ensinamos e cremos, com o apóstolo, que o pecador é justificado somente pela fé em Cristo e não pela lei ou por quaisquer obras. O apóstolo diz: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Rom 3.28). Também: “Porque se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar, porém não diante de Deus. Pois, que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça... Mas ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica ao ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça” (Rom 4.2 ss; Gên 15.6). E outra vez: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie”, etc. (Ef 2.8 ss). Portanto, porque a fé recebe Cristo, nossa Justiça, e atribui tudo à graça de Deus em Cristo, por isso a justificação é atribuída à fé, principalmente por causa de Cristo, e não porque ela seja obra nossa, visto que é dom de Deus.
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Comentário: Que não somos justificados e salvos por boas obras, a Palavra de Deus nos deixa isso muito claro. O Senhor nos ensina que toda árvore produz fruto de acordo com sua natureza - a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus - Mateus 7.17. Um homem natural é uma árvore má e, assim sendo, só poderá produzir frutos maus, pois esta é a sua natureza. Apenas depois de regenerado é que será uma árvore boa e passará a produzir frutos bons pelo poder do Espírito Santo, e não antes disso. Logo, para que possamos produzir as boas obras, primeiro precisamos ser salvos dos nossos pecados e da nossa velha natureza pecaminosa. Por isso a salvação é Deus justificando um ímpio - Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça - Romanos 4.5. Não lemos que a salvação é Deus justificando um homem pio, praticante de boas obras, mas um homem ímpio, sem qualquer boa obra, apenas pela fé. E esta fé não é inata ao pecador necessitando apenas ser despertada, ao contrário ela é um dom precioso dado aos eleitos que os direciona ao Redentor Jesus Cristo. Quem recebe esse dom não se volta para a idolatria ou para as superstições, mas volta-se apenas para Cristo e rende-se a Ele.
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Recebemos Cristo pela fé
Além disso, o Senhor mostra sobejamente que recebemos Cristo pela fé, em João, cap. 6, onde ele usa comer por crer, e crer por comer. Pois, como é comendo que recebemos o alimento, assim é crendo que participamos de Cristo. A justificação não é atribuída parcialmente a Cristo ou à fé, e parcialmente a nós. Por conseguinte, não compartilhamos do benefício da justificação em parte por causa da graça de Deus ou de Cristo, e em parte por causa de nós mesmos, de nosso amor, de nossas obras ou de nosso mérito, mas atribuímo-lo totalmente à graça de Deus em Cristo pela fé. Mas também nosso amor e nossas obras não poderiam agradar a Deus, sendo realizados por homens injustos: por isso, é necessário que sejamos justos antes que possamos amar ou praticar obras justas. Somos feitos verdadeiramente justos, como dissemos, pela fé em Cristo, só pela graça de Deus, que não nos imputa os nossos pecados, mas a justiça de Cristo, e por isso, ele nos imputa a fé em Cristo como justiça. Ademais, o apóstolo mui claramente deriva da fé o amor, quando diz: “Ora, o intuito da presente admoestação visa o amor que procede de coração puro e de consciência boa e de fé sem hipocrisia” (1ª Tim 1.5).
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Comentário: Como já vimos o homem natural, morto em seu pecado é uma arvore má e jamais poderia produzir um fruto bom, alguma boa obra. Isto é jamais poderia gerar de si mesmo uma obra que fosse incontaminada. O Senhor declara que nele só há corrupção - “E viu o SENHOR que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” - Gênesis 6.5. Portanto se um homem tiver que ser salvo terá que ser feita nele uma obra completa. A salvação não é meio resgate, mas um resgate completo. Atribuir a salvação do pecador parcialmente a Cristo e parcialmente ao próprio pecador é o mesmo que dizer que Cristo efetuou meia salvação. Mas não é o que a Palavra nos diz. Jesus Cristo veio aqui para “salvar o que estava perdido”, “salvar o seu povo dos seus pecados”. Em nenhum momento diz que Ele veio tornar possível uma salvação àqueles que estavam perdidos, nem tornar possível a salvação ao seu povo eleito, deixando assim uma parte para eles fazerem. Aos ossos secos nada valeria um anúncio de que a ressurreição e a vida estavam à sua disposição e era uma possibilidade para eles. De nada adiantaria o profeta gritar à eles: “Esforcem-se! Vocês conseguem”. Por isso o Espírito disse: Assim diz o Senhor DEUS a estes ossos: Eis que farei entrar em vós o espírito, e vivereis - Ezequiel 37.5. Se não tivesse o “Eu farei” de Deus os ossos continuariam sendo apenas um monte de ossos secos, sem vida. O pecador está morto e não há nada que ele possa fazer para salvar-se a si mesmo ou para ajudar no processo da justificação e regeneração. Isso é obra de Deus, cem por cento.
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Tiago comparado com Paulo
Por isso, aqui falamos, não de uma fé imaginária, vã e inerte ou morta, mas de uma fé viva e vivificante, a qual, por apreender a Cristo, que é vida e vivifica, é viva e se chama “viva” e se mostra viva por obras vivas. E assim São Tiago não contradiz coisa alguma nesta nossa doutrina. É que ele fala de uma fé vã e morta, da qual alguns se vangloriavam, mas que não tinham Cristo vivendo neles pela fé (Tiago 2.14 ss). São Tiago disse que as obras justificam, contudo sem contradizer o apóstolo (do contrário ele teria de ser rejeitado), mas mostrando que Abraão provou sua fé viva e justificadora pelas obras. É isso o que fazem todos os piedosos, confiados, porém, só em Cristo e não em suas próprias obras. O apóstolo ainda diz: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morre Cristo em vão”, etc. (Gál 2.20).
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Comentário: Obviamente que quando Tiago disse que a fé sem obras é morta, não tinha em mente uma justificação por meio de boas obras, muito pelo contrário, pois não há nenhuma discordância entre o que os apóstolos Paulo e Tiago escreveram, mas sim uma perfeita complementação. O ponto de Tiago é que a verdadeira fé é viva e operante, portanto, produz resultados transformadores na vida do crente. Ela pode ser percebida pelas mudanças que opera no seu comportamento. Tiago insiste no ponto que a fé dos salvos é uma fé distinta da fé professada pelos ímpios, a qual ele compara com a crença dos demônios - Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem - Tiago 2.19. Os anjos caídos também creem na existência de Deus e o temem, mas isso não os ajuda em nada. Tiago insiste que muitos são os que professam o cristianismo, cuja profissão de fé não é acompanhada por obras que a comprovem. Tiago e Paulo, ambos escreveram sob inspiração do Espírito Santo e por isso nunca poderia haver contradições entre seus escritos, e não há. Paulo enfatiza a salvação exclusivamente pela fé, enquanto Tiago diz que a fé salvífica é operante, e que portanto, devemos demonstrar nossa fé pelas obras que ela produz - Produzi pois frutos dignos de arrependimento - Mateus 3.8.
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16. Da fé e das boas obras, e da sua recompensa, e do mérito do homem
Que é a fé?
A fé cristã não é opinião e convicção humana, mas confiança extremamente firme, e o claro e inabalável assentimento do espírito, e finalmente a apreensão certíssima da verdade de Deus apresentadas nas Escrituras e no Credo dos Apóstolos, assim como apreensão do próprio Deus, o supremo bem, e especialmente da promessa de Deus e de Cristo, que é o cumprimento de todas as promessas.
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Comentário: A fé salvadora não é inata ao pecador, mas um dom de Deus àquele que ele mesmo escolheu na eternidade. O cristão foi eleito na eternidade para ser um filho adotivo de Deus por meio da fé em Jesus Cristo - E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o benefício da sua vontade – Efésios 1.5.
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A fé é dom de Deus
Mas esta fé é simplesmente um dom de Deus, que só ele pela sua graça, segundo a sua medida, concede aos seus eleitos quando, a quem e quanto ele quer. E ele realiza isso pelo Espírito Santo, pela pregação do Evangelho e pela oração fiel.
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Comentário: A salvação é um dom de Deus que vem numa combinação da fé, do arrependimento, da justificação, da santificação e glorificação. Essa fé é vem do Espírito Santo direto ao eleito para crer em Cristo, o qual é provisão de Deus para salvar o pecador.
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O aumento da fé
Essa fé pode também ser aumentada por Deus; se assim não fosse, o apóstolo não teria dito: “Senhor: aumenta-nos a fé” (Lc. 17.5). Tudo o que até aqui temos dito com respeito à fé, os apóstolos ensinaram antes de nós. São Paulo disse: “Ora, a fé é ‘hypostasis’ ou a certeza das cousas que se esperam, a ‘elegchos’, isto é, a convicção dos fatos que se não veem” (Heb. 11.1). E noutro passo ele diz que todas as promessas de Deus são sim por Cristo, e pelo mesmo Cristo são amém (2ª Cor. 1.20). E aos filipenses ele disse que a eles lhes foi dado crer em Cristo (Fp. 1.29). Noutro passo: Deus concedeu a cada um a medida da fé (Rm. 12.3). Noutro ainda: “Nem todos têm fé” e, “Nem todos obedecem ao Evangelho” (2ª Tes. 3.2; Rm. 10.16). Também Lucas atesta, dizendo: “Creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At. 13.48). Eis porque São Paulo também a chama “a fé dos eleitos de Deus” (Tito 1.1 ), e outra vez: “A fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo” (Rm. 10.17). Em outras partes, com frequência, manda que os homens orem pedindo fé.
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Comentário: A fé cristã não é uma superstição nem um mero assentimento mental. Muitos chamados cristãos são supersticiosos, isto é, veem a fé como uma espécie de energia que a pessoa recebe ao contatar o mundo espiritual. Por isso é comum a ideia de que quanto mais pessoas reunidas no mesmo lugar com o mesmo propósito maior essa fé; ou ainda quanto mais pessoas fizerem uma cadeia de oração maior será o poder dessa fé. Parecem acreditar que ela nem mesmo depende de quem está orando, mas apenas de fazer a coisa certa, ou usar a técnica certa. Para tais supersticiosos Deus é um tipo de fonte de energia e que ganha mais quem aprender melhor a conectar essa fonte. Mas também há aqueles que têm apenas um assentimento mental, isto é, recebem todo ensino do evangelho em suas mentes e até aceitam como verdade, mas estão apenas no nível lógico. Tal acolhimento do evangelho não os transforma nem os muda de comportamento. Continuam rasos defensores da igreja que nunca se identificam com Cristo como mártires. A fé que é dom de Deus é específica e leva os eleitos a confiarem plenamente em Cristo e suas promessas. Ela é uma confiança simples e pura de um filho em seu pai, que lhe atenderá e só lhe fará o bem. Essa fé, como um dom do Espírito Santo, pode ser aumentada ou fortalecida na vida do crente. A escritura diz que Abraão “foi fortificado na fé” - Romanos 4.20. Por isso também os discípulos do Senhor lhe rogaram: Acrescenta-nos a fé - Lucas 17.5.
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Fé eficaz e ativa
O mesmo apóstolo chama a fé “eficaz” e “que atua pelo amor” (Gál. 5.6). Ela também acalma a consciência e abre um livre acesso para Deus, de modo que podemos aproximar-nos dele com confiança e dele conseguir o que é útil e necessário. A mesma (fé) conserva-nos no serviço que devemos a Deus e ao próximo, fortalece-nos a paciência na adversidade, molda uma verdadeira confissão e manifesta-a: numa palavra, produz bons frutos de todas as espécies, e boas obras.
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Comentário: A fé nos é dada para que confiemos totalmente em Deus e apenas nele. Pela fé nós esperamos receber dele tudo quanto necessitamos para as nossas almas e nossos corpos. Essa fé obtém algo que está intangível aos sentidos naturais. Ela traz para perto a promessa, descansa e espera confiante, certa de seu cumprimento. Esses são frutos que fazem da fé algo agradável a Deus.
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Das boas obras
Ensinamos que as verdadeiras boas obras nascem de uma fé viva, pelo Espírito Santo, e são praticadas pelos fiéis segundo a vontade ou a regra da Palavra de Deus. Ora, o apóstolo São Pedro diz: “Reunindo a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio”, etc. (2ª Ped. 1.5 ss). Dissemos acima que a Lei de Deus, que é sua vontade, estabelece para nós o padrão de boas obras. E o apóstolo diz: “Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição... e que, nesta matéria, ninguém ofenda nem defraude a seu irmão” (1ª Tes. 4.3 ss).
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Comentário: Somente um regenerado pode produzir boas obras. Antes disso, sendo um homem natural, não pode produzir boas obras. Por isso que a as obras do homem natural não o podem justificá-lo, obviamente. E mesmo depois de regenerado o homem depende do agir do Espírito Santo para que suas obras não sejam contaminadas pelo pecado, por isso somos exortados assim: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne - Gálatas 5.16.
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Obras de escolha humana
E na verdade, obras e cultos que escolhemos por nosso arbítrio não são agradáveis a Deus. A estes São Paulo denomina ethelothreskia (Col. 2.23). Desses o Senhor diz no Evangelho: “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mat. 15.9). Portanto, desaprovamos tais obras, mas aprovamos e estimulamos aquelas que são da vontade e de mandado de Deus.
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Comentário: Culto voluntário [ ἐθελοθρησκεία ] melhor dito é a adoração da vontade, um culto arbitrário. É uma adoração vã e inaceitável a Deus. Em tudo o crente deve sujeitar-se ao que está escrito - Não se aparte da tua boca o livro desta Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme tudo quanto nele está escrito; porque, então, farás prosperar o teu caminho e, então, prudentemente te conduzirás - Josué 1.8.
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O fim das boas obras
Essas mesmas obras não devem ser praticadas para, por meio delas, ganharmos a vida eterna, pois, como diz o apóstolo, a vida eterna é dom de Deus. Nem devem ser elas praticadas por ostentação, o que o Senhor rejeita em Mateus capítulo 6, nem para lucro, o que também ele rejeita em Mateus capítulo 23, mas para a glória de Deus, para adornar a nossa vocação, para manifestar gratidão a Deus e para benefício do próximo. É assim que Nosso Senhor diz no Evangelho: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mat. 5.16). E o apóstolo São Paulo diz: “Que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados” (Ef. 4.1). Ainda: “E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em acção, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai” (Col. 3.17); “Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros” (Fp. 2.4); “Que aprendam também a distinguir-se nas boas obras, a favor dos necessitados, para não se tornarem infrutíferos” (Tito 3.14).
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Comentário: As boas obras dos piedosos são para ornar a doutrina de Deus, como está escrito: Não defraudando, antes mostrando toda a boa lealdade, para que em tudo sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador - Tito 2.10. Toda a vida do crente deve honrar a Deus, seja em palavras ou obras. O cristão é um vaso escolhido e separado para Deus e deve ser exclusivo.
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As boas obras não são rejeitadas
Portanto, embora ensinemos com o apóstolo que o homem é justificado pela graça pela fé em Cristo e não por quaisquer boas obras, contudo não menosprezamos nem condenamos as boas obras. Sabemos que o homem não foi criado ou regenerado pela fé, para viver ocioso, mas antes para fazer sem cessar o que é bom e útil. No Evangelho o Senhor diz que uma árvore boa produz bom fruto (Mat. 12.33), e que aquele que nele permanece produz muito fruto (João 15.5). O apóstolo diz: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef. 2.10). E ainda: “O qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade, e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tito 2.14). Condenamos, portanto, todos os que desprezam as boas obras e vivem a dizer que não precisamos dar atenção a elas e que elas são inúteis.
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Comentário: Na verdade a obra do Espírito Santo é perfeita, pois quando um pecador é regenerado ele, naturalmente começa a produzir novos frutos de acordo com sua nova natureza. Assim está escrito: E porei dentro de vós o meu espírito e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis - Ezequiel 36.27. “Eu farei” diz o Senhor, então é de se esperar que aquele que nasceu do Espírito comece a produzir frutos que comprovem sua fé e seu arrependimento.
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Não somos salvos pelas boas obras
Entretanto, como foi dito acima, não julgamos que somos salvos pelas boas obras nem que elas sejam necessárias para a salvação, de modo que sem elas ninguém já tenha sido salvo. Pois somos salvos somente pela graça e pelo favor de Cristo. As obras procedem, necessariamente, da fé. A salvação é impropriamente atribuída a elas; ao passo que é com absoluta propriedade que ela é atribuída à graça. É bem conhecida a declaração do apóstolo: “E se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Rom. 11.6).
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Comentário: Assim como cada árvore produz fruto de acordo com sua natureza, também as obras dos homens identificam sua natureza. Enquanto a velha natureza faz os homens produzirem frutos inapropriados a nova natureza os faz produzir frutos que glorificam a Deus. Os frutos identificam a árvore que os produziu. Disse o Senhor: Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons - Mateus 7.18.
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As boas obras agradam a Deus
As obras que praticamos pela fé são agradáveis a Deus e são por ele aprovadas. Por causa da fé em Cristo, aqueles que praticam boas obras, que sobretudo pelo Espírito Santo são praticadas pela graça de Deus, são agradáveis a Deus. São Pedro diz: “Em qualquer nação, aquele que teme e faz o que é justo lhe é aceitável” (At. 10.35). E São Paulo diz: “Não cessamos de orar por vós... a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra” (Col. 1.9 ss).
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Comentário: De qualquer forma, fazer o bem e o certo é esperado de todo homem, e é sua obrigação. Ele recebe tanto bem de Deus que ser agradecido é o esperado dele. Sim, obviamente é muitíssimo melhor que se faça o bem sempre e em todo o lugar. Mas o que se está falando aqui é sobre se as obras do pecador podem salvá-lo, se elas pudessem expiar pecados. Nesse caso, a Bíblia deixa claríssimo que a salvação é impossível ao homem pelas obras.
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Ensinamos as verdadeiras virtudes, não as falsas e filosóficas
Assim, zelosamente ensinamos as verdadeiras virtudes, não as falsas ou filosóficas, as verdadeiramente boas obras e os genuínos serviços de um cristão. E tanto quanto podemos, diligente e insistentemente as inculcamos a todos os homens, censurando ao mesmo tempo a desídia e hipocrisia dos que com os lábios louvam e professam o Evangelho e o desonram pelas suas vidas ignominiosas. Nesta questão, pomos diante deles as terríveis ameaças de Deus, bem como as suas ricas promessas e generosas recompensas - exortando, consolando e repreendendo.
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Comentário: Uma profissão de fé sem boas obras é como uma maquiagem num defunto, externamente pode parecer muito bem, mas internamente esconde morte. O Senhor Jesus chamou esse tipo de crente de sepulcros caiados - … Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundície - Mateus 23.27.
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Deus recompensa as boas obras
Ensinamos que Deus dá uma rica recompensa aos que praticam boas obras, segundo a palavra do profeta: “Reprime a tua voz de choro... porque há recompensa para as tuas obras” (Jer. 31.16; Is. cap. 4). Também o Senhor disse no Evangelho: “Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus” (Mat. 5.12), e “Quem der a beber ainda que seja um copo de água fria, a um destes pequeninos ... em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão” (cap. 10.42). Atribuímos, entretanto, esta recompensa, que o Senhor dá, não ao mérito do homem que a recebe, mas à bondade ou generosidade e veracidade de Deus, que a promete e a dá, e que, embora não deva nada a ninguém, contudo prometeu que dará recompensa a seus fiéis adoradores; mas ele lhes dá para que eles o adorem. Além disso, mesmo nas obras dos santos há muitas coisas indignas de Deus e muitas mais que são imperfeitas. Mas, porque Deus recebe em graça e acolhe os que praticam obras por amor a Cristo, confere-lhes a prometida recompensa. A assim que em outro contexto as nossas justiças são comparadas a “trapo de imundícia” (Is. 64.6). Também o Senhor diz no Evangelho: “Vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer” (Luc. 17.10).
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Comentário: Como o pecado habita em nossa carne e enquanto estivermos nesse corpo caído estamos sujeitos à tentações e desvios, mesmo as nossas melhores obras podem ser contaminadas e seguramente são imperfeitas. Então, embora Deus prometa recompensar as boas obras dos eleitos, sabemos certamente que só pode ser bondade de um Pai amoroso que tem prazer em abençoar a seus filhos. Todo fruto que o crente produz deve glorificar a Deus, assim como toda recompensa que ele recebe de Deus deve retornar a Deus em reconhecimento que tudo vem dele.
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Os méritos dos homens são nulos
Portanto, embora ensinemos que Deus recompensa as nossas boas ações, todavia ensinamos, ao mesmo tempo, com Santo Agostinho, que Deus não coroa em nós os nossos méritos, mas os seus dons. Por isso, dizemos que qualquer recompensa que recebemos é também graça, e é mais graça que recompensa, porque o bem que fazemos, fazemo-lo mais por Deus do que por nós mesmos, e porque São Paulo diz: “Que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” (1ª Cor. 4.7). E isto é o que o bendito mártir São Cipriano concluiu deste verso: “Não devemos gloriar-nos de coisa alguma em nós, visto que nada é propriamente nosso.” Condenamos, portanto, os que defendem os méritos dos homens, de modo a esvaziar a graça de Deus.
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Comentário: Resumindo, o Senhor Jesus diz no Sermão do Monte que não devemos chamar a atenção dos homens para nós mesmos e sim para Deus. Como fazer isso? Vivendo e servindo em santidade, humilde e piedosamente, sem vindicar qualquer mérito ou recompensa. Isto levará o mundo a compreender que nada fazemos por nós nem para nós, e sim por Cristo e para Cristo - Ou, por que olhais tanto para nós, como se por nossa própria virtude ou santidade fizéssemos andar este homem? - Atos 2.32. A fé que recebemos de Deus pela qual somos salvos, é uma fé atuante que nos faz produzir frutos e nos leva a praticar boas obras para a glória de Deus. Embora Deus rejeite todas as obras realizadas como esforço ou tentativa de conseguir a salvação, todavia Ele se agrada das boas obras que o salvo produz e até mesmo promete galardoá-las, pois tais obras são um adorno da vida ressurreta que o crente recebe na regeneração e também uma demonstração de gratidão. Todavia, mesmo o galardão que os crentes receberão pelas suas boas obras eles devem totalmente a Deus, porque Deus só aprova as obras que Ele próprio realiza em nós e através de nós. Sendo assim, Ele coroará nada mais nada menos que Suas próprias obras. Abrindo um parêntese, por outro lado, é importante dizer aqui que, Deus se agrada de todo o bem que é feito pelos homens. Obviamente, é muito melhor que os homens estejam praticando obras de justiça do que de injustiça. Mesmo que as obras dos homens naturais não o possam salvar, é sua obrigação fazer o bem e evitar o mal. O que estamos considerando, todavia, é com respeito à justificação e salvação. Nesse caso, não há nada que o homem possa fazer para salvar-se, ajudar-se a se salvar ou mesmo se preparar para receber a salvação, pois o melhor que pode fazer ainda será considerado “trapo da imundícia”, isto é, estará muito aquém do padrão da justiça de Deus e até ofensivo à sua Santidade.
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17. Da Igreja de Deus, santa e católica, e do único Cabeça da Igreja
A Igreja sempre existiu e sempre existirá
Visto que Deus desde o princípio quis salvar os homens e trazê-los ao conhecimento da verdade (2ª Tim. 2.4), é absolutamente necessário que a Igreja tenha existido no passado, exista agora e continue até o fim do mundo.
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Comentário: A Igreja de Cristo tem uma catolicidade temporal e assim existe desde os primórdios da humanidade, mesmo desde o Éden. Já no Éden começou o serviço da fé e a adoração a Cristo. Abel ofereceu um sacrifício que envolveu fé no Mediador pois trouxe ao Senhor um cordeiro do seu rebanho que era tipológico de Cristo. Então, a Igreja é muito antiga e é a verdadeira religião.
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Que é a Igreja
A Igreja é a assembleia dos fiéis convocada ou reunida do mundo: é, direi, a comunhão de todos santos, isto é, dos que verdadeiramente conhecem, adoram corretamente e servem o verdadeiro Deus em Cristo, o Salvador, pela palavra e pelo Espírito Santo, e que, finalmente, participam, pela fé, de todos os benefícios gratuitamente oferecidos mediante Cristo. Cidadãos de uma comunidade. São todos eles cidadãos de uma só cidade, vivem sob o mesmo Senhor, sob as mesmas leis, e na mesma participação de todos os benefícios. O apóstolo os chamou “concidadãos dos santos, e... da família de Deus” (Ef. 2.19), denominando “santos” os fiéis na terra (1ª Cor. 4.1), que são santificados pelo sangue do filho de Deus. Deve ser entendido inteiramente com relação a estes santos o artigo do Credo: “Creio na santa Igreja Católica, na comunhão dos santos”.
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Comentário: A Igreja de Cristo é o resultado da pregação da palavra de Deus. Sim, Deus pode atrair pecadores para si através de outras operações, como sonhos por exemplo, contudo o meio ordinário é a pregação do evangelho. Tudo que resulta da pregação do puro evangelho é igreja. Já o que resulta de pregações dum falso evangelho, reuniões de busca de experiências sobrenaturais, ainda que reúna multidões, não será igreja.
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Uma só Igreja em todos os tempos
E, visto que há sempre um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus o Messias, e um só Pastor de todo o rebanho, uma só Cabeça deste corpo, enfim, um só Espírito, uma só salvação, uma só fé, um só testamento ou aliança, segue-se, necessariamente, que existe uma só Igreja. A Igreja Católica. Por isso chamamos “católica” e essa Igreja, porque é universal, e se espalha por todas as partes do mundo, estende-se por todos os tempos e não é limitada pelo tempo ou pelo espaço. Condenamos, portanto, os donatistas, que confinavam a Igreja a não sei que cantos da África, e não aprovamos o clero romano, que vive a propalar que só a Igreja de Roma é católica.
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Comentário: A Igreja é a comunidade dos salvos, todos os salvos; todos os “descendentes da mulher” compõem a Igreja, portanto estarão nela todos os redimidos desde Adão e Eva até o último que estará sendo chamado antes do retorno do Senhor Jesus Cristo, na consumação do Seu reino. Homens e mulheres de todos os tempos, de todas as raças, de todos os povos e nações são chamados diariamente pelo Espírito Santo para fazerem parte da Igreja. E, conforme nos ensinam as escrituras, no meio da congregação dos santos estão também muitos hipócritas, não regenerados, que serão excluídos no Juízo Final. Chamar a Igreja de católica, implica dizer que é o conjunto e comunhão de todos os crentes de todos os lugares, de todas raças e de todos os tempos. Essa catolicidade é geográfica, temporal, histórica, doutrinária e litúrgica, tudo isso ela tem em comum. Os membros da Igreja são aqueles que ouvem o chamado de Deus, creem em suas promessas, abandonam o sistema do mundo e unem-se à grande congregação do Senhor. Antes eles viviam em rebelião contra Deus, “fazendo a vontade da carne e dos pensamentos”, mas agora não vivem mais para si mesmos e sim “para aquele que por eles morreu e ressuscitou”. Receberam um coração novo, foram vivificados no espírito e adotados na grande Família de Deus. O crente é um novo homem num novo reino, sob um novo Rei e uma nova constituição, com nova cidadania e nova identidade. Por isso ser cristão é muito mais do que seguir algumas doutrinas ou ensinamentos. É uma relação pessoal com Cristo que transforma a vida do pecador. Assim é formada Igreja, de homens e mulheres alcançados pela graça de Cristo e por Ele transformados. Quando confessamos: “Creio no Espírito Santo e na Santa Igreja Católica” estamos afirmando crer na catolicidade da Igreja de Cristo, não na Igreja Romana, mas na “universal assembleia” dos santos de todos os lugares e de todos os tempos, o “monte Sião, à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial”.
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Partes ou formas da Igreja
A Igreja divide-se em diferentes partes ou formas, não por estar dividida ou rasgada em si mesma, mas por ser distinta pela diversidade dos seus membros. Militante e Triunfante. Uma é chamada a Igreja Militante e a outra a Igreja Triunfante. A primeira ainda milita na terra e luta contra a carne, o mundo e o Diabo, que é o príncipe deste mundo, e contra o pecado e a morte. A outra, já deu baixa e triunfa no céu depois de ter vencido esses inimigos, e exulta diante do Senhor. Entretanto, essas duas igrejas têm comunhão e união uma com a outra.
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Comentário: Igreja é a congregação dos santos, a reunião de todos os redimidos e terá sempre sobre si essa marca. Marca bendita que identifica cada um dos pecadores que foram redimidos pelo sangue do Cordeiro. Homens e mulheres outrora caídos no pecado, agora lavados no sangue bendito de Cristo. Uma parte dela já está no céu louvando seu Redentor, outra parte segue sua peregrinação na terra até que todos sejam recolhidos pelo Senhor e estejam todos juntos seguindo o Cordeiro para onde este os levar - Estes são os que seguem o Cordeiro para onde quer que vá. Estes são os que de entre os homens foram comprados como primícias para Deus e para o Cordeiro – Apocalipse 14.4.
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A Igreja particular
A Igreja Militante na terra tem tido, sempre, muitas igrejas particulares. Contudo, todas estas devem ser referidas à unidade da Igreja católica. Esta Igreja (militante) foi estabelecida de um modo antes da Lei, entre os patriarcas, de outro modo diferente sob Moisés, pela Lei; e de modo diferente por Cristo, por meio do Evangelho.
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Comentário: As congregações locais compõem a grande congregação católica. Católica diz respeito ao tempo simultâneo de todos os crentes de uma geração; diz respeito à extensão geográfica onde estão espalhados os crentes; diz respeito à história eclesiástica que conecta todos os crentes desde o princípio do mundo, todos estão juntamente conectados ao Redentor. Diz respeito ainda à doutrina apostólica na qual todos os crentes perseveram, pois a Igreja só uma doutrina que foi ensinada por Cristo através de seus profetas e apóstolos; e finalmente diz respeito à liturgia, a qual foi deixada pelos apóstolos do Senhor. A Igreja católica é a que mantém e preserva todos esses aspectos.
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Os dois povos
Em geral se mencionam dois povos: os israelitas e os gentios, ou aqueles que foram congregados de entre judeus e gentios na Igreja. Há, também, dois Testamentos, o Velho e o Novo. A mesma Igreja para o velho e o novo povo. No entanto, de todos esses povos foi e ainda é só uma a comunidade, uma só a salvação num só Messias, em quem, como membros de um só corpo, sob um só Cabeça, todos estão unidos na mesma fé, participando também do mesmo alimento e da mesma bebida espiritual. Aqui, porém, reconhecemos uma diversidade de tempos e uma diversidade nos sinais do Messias prometido e manifestado; agora, abolidas as cerimônias, a luz brilha sobre nós de maneira mais clara, e bênçãos nos são dadas mais abundantemente, e uma liberdade mais completa.
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Comentário: A Igreja católica de Cristo está subdividida em pequenas igrejas nas localidades onde se encontram os crentes. Mas independente de quantas igrejas locais existam, todas, as fiéis, isto é, as que se mantêm bíblicas fazem parte da grande Igreja católica. Elas têm uma luta comum, contra inimigos comuns, contra os quais devem lutar enquanto estiverem aqui na terra. Por isso compõem a Igreja Militante. Os soldados que foram sendo chamados e recolhidos à glória e ao descanso eterno, esses compõem a Igreja Triunfante, vitoriosa, que exulta e glorifica ao Cordeiro que venceu, dando-lhes a vitória. Quando se diz que essas duas igrejas têm comunhão, naturalmente não significa necessariamente que têm qualquer contato, mas que têm o mesmo Cabeça: Cristo, e nele são uma só, porque o Senhor tem apenas uma Noiva. A Igreja sempre existiu, embora tivesse formas diferentes durante a época dos patriarcas, durante a época dos judeus e agora sob o evangelho, Cristo sempre teve seu povo na terra e a catolicidade da Igreja se estende através das eras. De forma geral falamos da Igreja que viveu numa época em que serviam a Deus, tinham a mediação do Messias, mas era tudo de forma velada, isto é, através de tipos e figuras que apontavam para o Redentor. E da Igreja que vive na época do Messias revelado, a era da realidade, quando adoramos a Deus em Espírito e em verdade somente.
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A Igreja, casa do Deus vivo
Esta santa Igreja de Deus é chamada a casa do Deus vivo, construída de pedras vivas e espirituais e fundada sobre uma rocha firme, sobre fundamento que ninguém tem o direito de substituir por outro, e é, assim chamada “coluna e baluarte da verdade” (1ª Tim. 3.15). A Igreja não erra. Ela não erra, enquanto se apoia sobre a Rocha, Cristo, e sobre o fundamento dos profetas e apóstolos. E não é de admirar se ela errar, todas as vezes que abandonar Aquele que, só, é a verdade.
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Comentário: A Igreja não pode errar porque é a única agência de salvação na terra. Ela é o único porto seguro neste mundo. Fora dela não há salvação. Isto não significa que ela salva, mas que os salvos estão nela. Cada eleito que Cristo salva ele agrega à Igreja - Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor – João 10.16. Jesus não salva alguém para que fique fora da Igreja, por isso erram aqueles que supõem ser igreja mesmo fora da congregação. Contudo, há crentes isolados e, por motivo de força maior, impossibilitados de congregar publicamente, também esses fazem parte do Corpo de Cristo. Mas os membros do corpo de Cristo não podem viver fora do corpo.
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A Igreja noiva e virgem
A Igreja é também chamada virgem e a noiva de Cristo e, em verdade, única e dileta. O apóstolo diz: “Tenho-vos preparado para vos apresentar como virgem pura a um esposo” (2ª Cor. 11.2).
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Comentário: A Igreja é o povo da Aliança. No Antigo Testamento era chamada a esposa de Javé, no Novo Testamento a Noiva do Cordeiro. Sempre para mostrar a relação do Pacto que une os crentes a Cristo.
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A Igreja, rebanho de ovelhas
A Igreja é chamada rebanho sob um só pastor, Cristo, segundo Ezequiel, capítulo 34, e João, capítulo 10. A Igreja corpo de Cristo. É chamada também corpo de Cristo, porque os fiéis são os membros vivos de Cristo, sob Cristo, o Cabeça.
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Comentário: A relação pastor e ovelhas mostra a relação de amor entre Cristo e a Igreja. Como nosso Sumo Pastor ele nos alimenta, guia, protege, cuida de cada uma das suas ovelhas com zelo paternal. Na figura do corpo Cristo é a cabeça que está no céu e os santos formam o corpo que está na terra. Ele é o nosso representante no céu, pela fé estamos com ele e um dia estaremos juntos com ele e para sempre.
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Cristo o único cabeça da Igreja
É a cabeça que tem a preeminência no corpo, e dela o corpo todo recebe vida; pelo seu espírito o corpo é em tudo governado; dela, ainda, o corpo recebe incremento e crescimento. Mais ainda, há uma só cabeça do corpo a qual com ele se ajusta. Por isso a Igreja não pode ter nenhuma outra cabeça além de Cristo. Como a Igreja é um corpo espiritual, ela precisa ter também uma cabeça espiritual em harmonia consigo mesma. Não pode ser governada por outro espírito que não seja o Espírito de Cristo. Por conseguinte, São Paulo diz: “Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as cousas ter a primazia” (Col. 1.18). E em outro lugar: “Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo salvador do corpo” (Ef. 5.23). E novamente: Ele é “o cabeça sobre todas as cousas, e o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as cousas” (Ef. 1.22 ss). Também: “Cresçamos em tudo naquele que é o cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado... efetua o seu próprio aumento” (Ef. 4.15 ss). Por isso não aprovamos a doutrina do clero romano, que faz do seu Pontífice Romano o pastor universal, o cabeça supremo da Igreja Militante aqui na terra, e assim o próprio vigário de Jesus Cristo que tem, como eles dizem, toda a plenitude de poder e soberana autoridade na Igreja.
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Comentário: Como o Senhor Jesus Cristo disse que ele edificaria a sua Igreja, podemos concluir que essa edificação não seria sobre um homem qualquer senão sobre o próprio Senhor Jesus Cristo. Deus não edificaria sua Igreja sobre uma criatura, não faria esse edifício sobre uma rocha qualquer, mas sim sobre a Rocha Eterna que é o Seu próprio Filho. Como o próprio apóstolo Pedro disse: Pelo que também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido. E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, a pedra que os edificadores reprovaram essa foi a principal da esquina - 1a Pedro 2.6-7. O apóstolo Paulo disse que ninguém deve por outro fundamento - Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo - 1a Coríntios 3.11. A Igreja é um corpo cuja Cabeça é o próprio Cristo. Qualquer outro que vier a reivindicar essa posição é um impostor. Cristo é a pedra do alicerce da Igreja, a grande Rocha onde todos os crentes estão firmados. Os crentes, por sua vez, são as pedras menores que estão firmadas na grande pedra fundamental. São Pedro que é considerado pelos romanistas como sendo essa pedra, acrescentou: E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo. Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido - 1ª Pedro 2.4-6. A Igreja está alicerçada sobre o Filho de Deus, e nem poderia ser diferente. Tudo em relação ao Senhor Jesus Cristo estava profetizado e se cumpriu. Assim também a profecia da pedra de fundamento da Igreja. Ele próprio disse ser tal pedra: Mas ele, olhando para eles, disse: Que é isto, pois, que está escrito? A pedra, que os edificadores reprovaram, Essa foi feita cabeça da esquina - Lucas 20.17. No dia em que o Espírito Santo veio batizar a Igreja, São Pedro disse em seu sermão: Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina - Atos 4.11. Disse: “Ele é a Pedra” e não “Eu sou a Pedra”. São Paulo complementou dizendo pelo Espírito Santo: Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina - Efésios 2.20. Por isso o Senhor Jesus Cristo é o único Cabeça da Igreja, tanto no Céu quanto na terra. A Igreja é de Cristo e não do Papa ou de qualquer mortal.
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Cristo o único Pastor da Igreja
Ensinamos que Cristo, nosso Senhor, é e continua a ser o único Pastor universal e sumo Pontífice diante de Deus seu Pai, e que na Igreja ele mesmo realiza todas as funções de um pontífice ou pastor, até o fim do mundo; [VIGÁRIO] e, consequentemente, não necessita de vigário, que é substituto de quem está ausente. Mas Cristo está presente com sua Igreja e é sua Cabeça vivificadora.
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Comentário: Os apóstolos tanto quanto os antigos profetas foram uma categoria única que Deus levantou com um propósito de revelar, instruir e lançar o fundamento da Igreja. Depois que morreram não deixaram sucessores. Vejam-se as instruções apostólicas para o estabelecimento de presbíteros e diáconos. Não há instruções para estabelecimento de novos apóstolos. De modo que reivindicar uma sucessão apostólica já é ir muito além da doutrina dos apóstolos, uma desfaçatez. Insolência também é um homem reivindicar para si a função de Vicarius Christi porque quem veio para representar o Senhor Jesus na terra foi o Espírito Santo. Jesus Cristo ressurreto ascendeu ao céu e o Espírito Santo veio para estar em seu lugar e continuar com a Igreja até o fim.
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Nenhum primado na Igreja
Ele proibiu, com toda a severidade, aos seus apóstolos e sucessores qualquer veleidade de primado e domínio na Igreja. Portanto, todos os que resistem, opondo-se a essa verdade transparente e introduzem outro governo na Igreja de Cristo devem ser ligados àqueles a respeito de quem profetizam os apóstolos de Cristo, São Pedro e São Paulo, em 2ª Pedro capítulo 2, e Actos 20.2, 2ª Coríntios 11.2, 2ª Tessalonicenses, capítulo 2, assim como em outros passos.
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Comentário: Depois que os apóstolos morreram, o Espírito Santo instituiu os presbíteros para governar as igrejas locais, conforme podemos ver ensino claro nas escrituras: Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue - Atos 20.28. Todos os presbíteros têm a mesma autoridade e são iguais entre si. As escrituras condenam veementemente alguém desejar sobrepor-se ao outro: Mas Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios, deles se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre elas; Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal; E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos - Marcos 10.42-45. As igrejas locais devem ser independentes e governadas pelos presbíteros eleitos pela própria congregação. Nenhum presbítero pode impor sua autoridade sobre outro e tampouco qualquer igreja impor sua autoridade sobre outra. O Líder Supremo da Igreja católica é o Senhor Jesus Cristo. Ele disse de si mesmo: Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor - João 10.15-16. Um só rebanho - a Igreja católica; um único Pastor - Jesus Cristo. Propositadamente também o Senhor falou que seus discípulos não deveriam ter um líder a quem chamassem Pai, Padre, Papa - E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus - Mateus 23.9. A Igreja de Cristo é um organismo vivo e como tal não precisa de nenhuma estrutura governamental complexa. Tudo que a congregação precisa é de anciãos que sejam aptos para ensinar e supervisionar a comunidade local para evitar desvios da doutrina e de conduta. Portanto o governo da congregação deve ser local. Homens que sejam maduros na fé, que tenham um bom testemunho cristão, que se dediquem a edificar os demais. Cada congregação deve escolher e estabelecer seus presbíteros e diáconos. Alguns desses presbíteros devem dedicar-se ao ensino. Na Igreja de Cristo ninguém é importante e não há maior nem menor, Cristo é o único grande, o único importante, os demais são iguais, todos servos sem importância.
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Nenhuma confusão na Igreja
Contudo, repudiando o cabeça romano, não introduzimos na Igreja de Cristo nenhuma confusão ou perturbação, pois ensinamos que o governo da Igreja, estabelecido pelos apóstolos, nos é suficiente para conservar a Igreja na devida ordem. No princípio, quando a Igreja não tinha esse chefe romano, que hoje, como se diz, a conserva em ordem, não estava em confusão ou desordenada. O chefe romano preserva, na verdade, a sua tirania e a corrupção que foi introduzido na Igreja; e, ao mesmo tempo, ele impede, resiste e, com todas as suas forças, arruína a conveniente reforma da Igreja.
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Comentário: O Romanismo com seu Papa abre as portas para falsas doutrinas. Com seus pronunciamentos oficiais chamados ex cathedra, considerados infalíveis, os papas deram lugar a muitos erros que descaracterizaram a Igreja outrora apostólica, agora papista. O Romanismo exalta a Igreja acima das Escrituras, dizendo erroneamente que Igreja veio antes das Escrituras. Considerando o Papa o cabeça da Igreja, presumem autoridade apostólica, até além dos apóstolos, uma vez que seus pronunciamentos acrescentam às escrituras apostólicas, o que é lamentável. Apenas suponhamos que houvesse uma nova revelação hoje, ela jamais poderia destoar das demais Escrituras, obviamente. Contudo, muitas doutrinas papistas contrariam aquilo que Deus falou pelos profetas e apóstolos inspirados.
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Dissentimento e luta na Igreja
Objetam-nos que tem havido várias lutas e dissensões em nossas igrejas desde que se separaram da Igreja Romana, e que por isso elas não podem ser igrejas verdadeiras. Como se nunca tivesse havido seitas na Igreja Romana, nem dissensões e lutas a respeito de religião, e na verdade presentes não tanto nas escolas como nos púlpitos no meio do povo. Sabemos, certamente, que o apóstolo disse: “Deus não é Deus de confusão; e, sim, de paz” (1ª Cor. 14.33). E: “porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais?” Contudo, não podemos negar que Deus estava na Igreja apostólica e que a Igreja apostólica era Igreja verdadeira, não obstante a existência de combates e dissensões nela. O apóstolo São Paulo repreendeu o apóstolo São Pedro (Gál. 2.11 ss), e Barnabé divergiu de Paulo. Grande luta surgiu na Igreja de Antioquia entre os que pregavam o único Cristo, como Lucas registra nos Atos dos Apóstolos, capítulo 15. E tem havido, em todos os tempos, graves lutas na Igreja, e os mais eminentes doutores da Igreja divergiram de opinião entre si acerca de importantes assuntos, sem, no entanto, a Igreja deixar de ser aquilo que ela era, por causa de tais contendas. Pois, dessa forma, é do agrado de Deus usar as dissensões que surgem na Igreja para a glória do seu nome, para elucidar a verdade e para que os que são aprovados sejam manifestados (1ª Cor. 11.19).
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Comentário: A objeção feita que pelo fato de não haver um poder central ou uma sede a Igreja fica mais sujeita à divisões, não se sustenta, porque dissensões e divisões têm havido tanto de um lado quanto de outro, isto é, tanto do lado da Igreja Romana, quanto da Igreja que se apartou dela. Tal fato nos entristece muito, mas até as divergências que têm surgido no seio da Congregação do Senhor, ele mesmo usa e converge para o bem - E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós - 1ª Coríntios 11.19. Na verdade, grande parte das cartas do Novo Testamento devemos a esse fato, isto é, foram escritas para combater erros doutrinários, falsos ensinos que perturbavam e ameaçavam dividir a Igreja nascente. Devemos manter a unidade da Igreja a todo custo, mas em torno da verdade, da sã doutrina, da tradição apostólica e jamais sacrificar aquilo que caracteriza a Igreja de Cristo pela unidade. Há divisões que obviamente podem e devem ser evitadas porque divisão é vergonhosa, mas há divisões que são necessárias para preservar a congregação do Senhor pura e rumo a Canaã. Aí não são divisões mas apartamento do mal, como nos orienta a Palavra - Apartai-vos de mim, malfeitores, para que guarde os mandamentos do meu Deus - Salmo 119.115; E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles - Romanos 6.17.
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Marcas ou sinais da verdadeira Igreja
Ademais, visto que não reconhecemos nenhum outro chefe da Igreja a não ser Cristo, de igual modo não reconhecemos como a verdadeira Igreja qualquer Igreja que se vangloria de o ser; ensinamos, no entanto, que a verdadeira Igreja é aquela em que se encontram as marcas ou sinais da verdadeira Igreja, principalmente a legítima e sincera pregação da Palavra de Deus como nos foi deixada nos escritos dos profetas e apóstolos, que nos conduzem todos nós a Cristo, que no Evangelho disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna... De modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele porque não conhecem a voz dos estranhos” (João 10.5, 27, 28).
E aqueles que são assim na Igreja de Deus têm uma fé e um espírito; e por isso adoram o único Deus e só a ele cultuam em espírito e verdade, só a ele amando de todo o coração e de todas as suas forças, só a ele orando por meio de Jesus Cristo, o único Mediador e Intercessor; e não buscam nenhuma justiça e vida fora de Cristo e da fé nele. Pelo fato de reconhecerem a Cristo como o único chefe e fundamento de sua Igreja, apoiando-se nele, renovam-se diariamente pelo arrependimento e, com paciência, carregam a cruz imposta a eles. Além disso, congregados juntos com todos os membros de Cristo por um amor não fingido revelam que são discípulos de Cristo perseverando no vínculo da paz e da santa unidade. Ao mesmo tempo participam dos sacramentos instituídos por Cristo e a nós entregues pelos seus apóstolos, não os usando de nenhuma outra maneira a não ser como os receberam do próprio Senhor. Aquela palavra do apóstolo São Paulo é bem conhecida de todos: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei” (1ª Cor. 11.23 ss). Por causa disso, condenamos como alienadas da verdadeira Igreja de Cristo todas aquelas igrejas que não são como ouvimos que devem ser, a despeito do muito que se jactam de uma sucessão de bispos, de unidade e de antiguidade. Além do mais, temos a advertência dos apóstolos de Cristo, para que fujamos da idolatria e de Babilônia (1ª Cor. 10.14; 1ª João 5.21), e não tenhamos parte com ela se não queremos ser participantes das pragas de Deus (Apoc. 18.4; 2ª Cor. 6.17).
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Comentário: As marcas da verdadeira Igreja são muitas, umas mais outras menos importantes, por isso seria melhor avaliar em termos de fidelidade, isto é, tomando o padrão das escrituras, observaremos que há umas mais outras menos fiéis. A verdadeira Igreja segue a doutrina os apóstolos e profetas de Cristo, mas também segue o modelo ou o tipo de adoração prescrito pelo Espírito Santo através daqueles servos. A doutrina é fundamental, mas também a liturgia é significativa porque o culto cristão é pedagógico e didático, por ele o verdadeiro Deus é identificado. O culto revela e fala sobre o Deus ali invocado, que instituiu seu próprio culto. A adoração a Deus no Antigo Testamento era distintiva, diferente de todos os demais deuses das nações ao seu redor. Pelo culto no templo em Jerusalém podia se identificar que o Deus adorado ali era o Eterno, Criador dos céus e da terra, Onisciente, Onipotente, Onipresente, Santo, Justo, Bom, Misericordioso. Outras marcas de fidelidade da Igreja dizem respeito à administração dos sacramentos e ainda a disciplina eclesiástica. A falsa Igreja não tem preocupação com a sã doutrina, não zela pelas escrituras sagradas, não se preocupa com a liturgia santa, não se mantém fiel à administração dos sacramentos nem à disciplina eclesiástica. Mas como dissemos a princípio, há igrejas que são mais e outras menos fiéis no que diz respeito à esses pontos. Contudo, é importante lembrar que a Igreja é o que resulta da pregação do evangelho. Logo, a primeira coisa que caracteriza a Igreja de Cristo é, de fato, a pregação fiel do Evangelho, porque sem este ‘falar de Deus’, a Igreja não existiria e nem sobreviveria. É assim que as ovelhas são chamadas e atraídas para o Bom Pastor; é assim que elas são alimentadas, fortalecidas, ensinadas, guiadas, preservadas e encorajadas a perseverar em sua jornada neste mundo. Quando o verdadeiro evangelho é proclamado, as ovelhas desgarradas são atraídas, tal palavra gera nelas uma fé viva e verdadeira que as leva a crer e confiar única e exclusivamente em Jesus Cristo. Sim, a fé que é dom de Deus, o dom que leva os eleitos à salvação, é uma fé que os direciona a Cristo. Não é uma ‘fé’ que confunde, que leva aos ídolos, às imagens, a outros mediadores. Não e não. A fé salvadora, dom especial aos escolhidos, direciona-os ao Mediador que Deus estabeleceu: Cristo Jesus. Um a um, o Espírito Santo chama os eleitos e os reúne ao corpo de Cristo, à Igreja, onde se encontram todos os salvos. Da fiel pregação do evangelho dependem as demais marcas de fidelidade.
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Fora da Igreja de Deus não há salvação
Consideramos a comunhão com a verdadeira Igreja de Cristo coisa tão elevada que negamos que possa viver perante Deus aqueles que não estiverem em comunhão com a verdadeira Igreja de Deus, mas dela se separam. Pois, como não havia salvação fora da arca de Noé, quando o mundo perecia no dilúvio, igualmente cremos que não há salvação certa e segura fora de Cristo, que se oferece para o bem dos eleitos na Igreja; e por isso ensinamos que os que querem viver não podem se separar da Igreja de Cristo.
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Comentário: Não é difícil entender que fora da verdadeira Igreja católica (que não é a do Papa), não há salvação. Todos os santos estão ligados ao Cabeça da Igreja, que é Cristo Jesus, o Senhor, e nenhum membro do corpo tem vida se estiver deslocado dele. Somos ensinados pelas escrituras sagradas que Cristo congrega suas ovelhas espalhadas neste mundo e as reúne em seu grande aprisco não deixando nenhuma fora dele. Não é a Igreja que salva mas todos os salvos são agregados à Igreja. Os filhos de Deus são alimentados através da Igreja. Nesse sentido a Igreja é a mãe dos crentes, deles cuida, zela, orienta, exorta, encoraja e tudo mais. Se, por outro lado, a Igreja ensina falsas doutrinas é mãe assassina que envenena seus filhos, se não corrige os erros de seus filhos é mãe negligente, omissa e irresponsável.
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A Igreja não está limitada aos seus sinais
Entretanto, pelos sinais acima mencionados, não restringimos a Igreja ao ponto de ensinarmos que estão fora dela todos aqueles que ou não participam dos sacramentos, pelo menos não voluntariamente ou por desprezo, mas antes, forçados pela necessidade, involuntariamente se abstêm deles ou deles são privados, ou em quem a fé algumas vezes falha, embora não seja inteiramente extinta e não cesse de todo; ou em quem se encontram as imperfeições e erros devidos à fraqueza. Sabemos que Deus teve alguns amigos no mundo fora da comunidade de Israel. Sabemos do que aconteceu ao povo de Deus no cativeiro da Babilônia, onde foram privados dos seus sacrifícios por setenta anos. Sabemos o que aconteceu a São Pedro, que negou o Mestre, e o que costuma acontecer diariamente aos eleitos de Deus e às pessoas fiéis que se desviam e são fracas. Sabemos, mais, que tipos de igrejas eram as existentes na Galácia e em Corinto nos dias dos apóstolos, nas quais o apóstolo encontrou muitos e sérios pecados; apesar disso ele as chama santas igrejas de Cristo (1ª Cor. 1.2; Gál. 1.2).
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Comentário: Quando os doutores da Igreja colocaram premissas para definir as marcas da verdadeira Igreja e afirmaram que fora dessa Igreja não há salvação, obviamente que, de nenhuma maneira, estavam encerrando qualquer possibilidade de haver crentes, que por motivo de força maior, não se encaixem nessa realidade. Sim, há crentes que estão forçosamente isolados das congregações e impossibilitados de adorar publicamente; há aqueles que estão presos, hospitalizados. E há ainda situações de fraqueza e pecado dos próprios filhos do Reino que são tratados pelo Senhor de forma particular, condições que Deus usa até mesmo dos seus erros para mostrar o quão fracos somos, o quanto dependemos dele, e quão soberano, sábio e poderoso ele é.
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A Igreja às vezes parece estar extinta
Sim, muitas vezes acontece que Deus, em seu justo juízo, permite que a verdade da sua Palavra, a fé católica e o culto verdadeiro de Deus sejam de tal forma obscurecidos e deformados, que a Igreja parece quase extinta e não mais existir, como vemos ter acontecido nos dias de Elias (1º Reis 19.10, 14), e em outras ocasiões. Não obstante, Deus tem, neste mundo e nestas trevas, os seus verdadeiros adoradores, que não são poucos, chegando mesmo a sete mil e mais (1º Reis 19.18, Apoc. 7.4, 9). Pois o apóstolo exclama: “O firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo, ‘O Senhor conhece os que lhe pertencem’”, etc. (2ª Tim. 2.19). Vem daí que pode a Igreja de Deus ser designada invisível; não que os homens dos quais ela é formada sejam invisíveis, mas porque, estando oculta de nossos olhos e sendo conhecida só de Deus, ela às vezes secretamente foge ao juízo humano.
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Comentário: A Igreja de Cristo aqui na terra está muito longe de ser perfeita. Moramos num mundo caído, num corpo caído e estamos cercados de fraquezas por todos os lados. O santo evangelho recebe muito mais oposição do que aceitação; o inferno concentra toda sua artilharia contra os filhos de Deus, mobiliza todos os demônios e todos os homens maus para perseguir, fazer oposição, tentando neutralizar ou paralisar a marcha da Igreja. Além do que espíritos enganadores agem terrivelmente contra os santos para desviá-los da única verdade; relativizam as escrituras, misturam filosofias e ideologias, causando grandes prejuízos para o testemunho de Deus na terra. Então, muitas vezes, em muitas ocasiões, o povo de Deus se encontra fraco, humilhado, oprimido, desorientado, porém jamais desamparado e esquecido. Como garantiu o apóstolo: Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos - 2ª Coríntios 4.8-9. Muitas vezes a Igreja luta contra impurezas morais, misturas e divisões, parecendo tão longe de ser a Igreja vitoriosa e altaneira. Mas o fato é: Cristo nunca para de edificar a Sua Igreja, nada neste mundo o poderá impedir de a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível - Efésios 5.26-27.
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Nem todos os que estão na Igreja são da Igreja
Por outro lado, nem todos os que são contados no número da Igreja são santos ou membros vivos e verdadeiros da Igreja. Pois há muitos hipócritas que externamente ouvem a palavra de Deus e publicamente recebem os sacramentos, e parecem invocar a Deus somente por meio de Cristo, confessar que Cristo é a sua única justiça, e adorar a Deus e exercer os deveres de caridade e por algum tempo suportar com paciência as desgraças. E, não obstante, interiormente, estão completamente destituídos da verdadeira iluminação do Espírito, de fé e de sinceridade de coração, e de perseverança até o fim. Mas finalmente o caráter destes homens, em sua maior parte, será manifestado. O apóstolo São João diz: “Eles saíram de nosso meio, mas não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco” (1ª João 2.19). Todavia, conquanto simulem piedade, não são da Igreja, ainda que sejam considerados estarem na Igreja, exatamente como os traidores numa república estão incluídos no número de seus cidadãos, antes que sejam descobertos; e, como o joio e a palha se encontram no trigo, e como inchaços e tumores se acham no corpo sadio, quando ao contrário são doenças e deformidades e não genuínos membros do corpo. E assim a Igreja de Deus é muito adequadamente comparada a uma rede que retira peixes de todas as espécies, e a um campo no qual se encontram joio e trigo (Mat. 13.24 ss, 47 ss).
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Comentário: Este é outro mistério de Deus, que ele deixe haver mistura no meio da sua Congregação. Assim foi com Israel e assim é com a Igreja, o apóstolo resume dizendo que “nem todo Israel é Israel” - Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas – Romanos 9.6. Essa realidade deve encher o nosso coração de temor do Senhor e nos humilhar debaixo da sua poderosa mão, como o mesmo apóstolo disse: E para estas coisas quem é idôneo? - 2a Coríntios 2.16.
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Não devemos julgar irrefletida e prematuramente
Consequentemente, devemos ser muito cuidadosos, não julgando antes da hora, nem tentando excluir e rejeitar ou separar aqueles aos quais o Senhor não quer excluídos nem rejeitados, e nem aqueles que não podemos eliminar sem prejuízo para a Igreja. Por outro lado, devemos estar vigilantes para que, enquanto os piedosos ressonam, os ímpios não ganhem terreno e causem mal à Igreja.
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Comentário: Nem todos quantos professam sua fé em Cristo, congregam regularmente e participam dos sacramentos, são crentes autênticos. É muito possível que alguns façam tudo isso e ainda assim o façam apenas exteriormente sem a verdadeira correspondência interior. São pessoas rasas e superficiais, que se misturam com os verdadeiros crentes e conseguem passar despercebidos por algum tempo, talvez por muito tempo. Um dia, porém, serão expostos e sua verdadeira identidade será revelada. O que não podemos é arriscar nosso juízo sem ter verdadeira certeza com relação aos casos que percebermos hipocrisia no meio da congregação. Todo cuidado é necessário para não se cometer a injustiça de querermos ‘estreitar demais a porta’, nem de cairmos no erro de participarmos dos pecados alheios, consentindo ou sendo coniventes com a injustiça. Deus tem seus propósitos em deixar que o vulgo permaneça entre os que saíram do Egito - E subiu também com eles uma mistura de gente, e ovelhas, e vacas, uma grande multidão de gado – Êxodo 12.38, e isso para provar os que são do Senhor - E o vulgo, que estava no meio deles, veio a ter grande desejo; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar e disseram: Quem nos dará carne a comer? – Números 11.4. O fato é que os falsos sempre surgirão no meio dos santos como o joio no meio do trigo, e conforme o próprio Senhor disse, não devemos tentar arrancar o joio do meio do trigal pois corremos o risco de causar mal à lavoura - Porém ele lhes disse: Não; para que ao colher o joio não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar, mas o trigo ajuntai-o no meu celeiro – Mateus 13.29-30.
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A unidade da Igreja não consiste em ritos externos
Além disso, diligentemente ensinamos que se deve tomar grande cuidado naquilo em que consistem de modo especial a verdade e a unidade da Igreja, para não provocarmos nem alimentarmos cismas na Igreja, irrefletidamente. A unidade não consiste em cerimônias e ritos externos, mas antes na verdade e unidade da fé católica. A fé católica não nos é transmitida pelas leis humanas, mas pelas Santas Escrituras, das quais é um resumo o Credo Apostólico. E, assim, lemos nos escritores antigos que havia grande diversidade de cerimônias, mas que eram livres e ninguém jamais pensava que a unidade da Igreja era, desse modo, dissolvida. Assim, ensinamos que a verdadeira harmonia da Igreja consiste em doutrinas e na verdadeira e unânime pregação do Evangelho de Cristo, nos ritos que foram expressamente transmitidos pelo Senhor. E aqui insistimos na palavra do apóstolo: “Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento; e, se porventura pensais doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá. Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos” (Fp. 3.11 ss).
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Comentário: Temos o exemplo da Igreja nascente no livro de Atos dos apóstolos. Ali eles perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações - Atos 2.42. Essa deve ser a plataforma e base da Igreja: a doutrina sobre Cristo que os apóstolos ensinaram largamente em suas epístolas; a pregação fiel também ali ensinada; o culto simples tanto público quanto nas casas; a administração dos sacramentos e a comunhão; a disciplina fiel; a escolha e eleição dos oficiais, todos homens; a cadeia de autoridade tanto na família quanto na igreja local. Tudo isso ensinado claramente nas epístolas. Se todos buscassem humildemente a direção do Espírito pela Palavra, não haveria motivos para divisões na Igreja de Cristo, pois o que ele mais deseja é que seus discípulos sejam um. Por muitos anos quando a Igreja deixou de ler a Palavra de Deus passando a ser guiada por homens, ela foi cheia com muitos falsos ensinos e práticas errôneas. A Grande Reforma foi um mover de Deus exatamente para limpar o seu templo, purificando-o das imundícias. Se todos permanecessem nas doutrinas reformadas não haveriam tantas divisões na Igreja hoje. É uma pena, mas o orgulho dos homens que desejam saber mais do que os antigos doutores tem causado muito mal à causa de Cristo.
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18. Dos ministros da Igreja, sua instituição e deveres
Deus usa ministros na edificação da Igreja
Deus sempre usou ministros para reunir ou estabelecer para si a Igreja, e para o governo e preservação da mesma; e ainda os usa e sempre os usará, enquanto a Igreja permanecer na terra. Portanto, a origem, a instituição e o ofício de ministros é uma ordenação muito antiga de Deus mesmo e não inovação de homens.
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Comentário: Desde o Antigo Testamento vemos o Senhor levantando oficiais para administrar os interesses do povo sob a autoridade de Deus. Portanto é da sua vontade que assim seja, ele mesmo estabelece autoridades delegadas para representá-lo diante do seu povo. O povo de Deus foi sempre comparado a um rebanho que necessita de pastores para guiá-los na jornada e Deus sempre levantou pastores e os capacitou para apascentar suas ovelhas.
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Instituição e origem de ministros
É verdade que Deus poderia, pelo seu poder, sem qualquer meio, congregar para si mesmo uma Igreja de entre os homens; mas ele preferiu tratar com os homens pelo ministério de homens. Por isso os ministros devem ser considerados não como ministros apenas por si mesmos, mas como ministros de Deus, visto que por meio deles Deus realiza a salvação de homens.
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Comentário: Deus é onipotente e onissapiente e faz tudo quanto deseja com poder e sabedoria infinitas. Portanto, se ele determinou assim em relação a gerência do seu povo é porque isso é bom e proveitoso para os santos e traz glória para Deus. Então ele levanta homens, unge-os para sua tarefa, confere-lhes autoridade e graça para ensinar, doutrinar, encorajar, corrigir repreender, sempre, contudo sob a supervisão do grande Pastor e Bispo: Jesus Cristo [1a Pedro 2.25].
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O ministério não deve ser depreciado
Por essa razão, chamamos a atenção dos homens para que tomem cuidado para não atribuirmos o que diz respeito à nossa conversão e instrução ao poder secreto do Espírito Santo, fazendo pouco do ministério eclesiástico. Pois convém termos sempre em mente as palavras do apóstolo: “Como, porém, invocarão aquele em que não creram? e como crerão naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? ... E assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo” (Rom. 10.14, 17). E também o que o Senhor disse no Evangelho: “Em verdade, em verdade vos digo: Quem recebe aquele que eu enviar, a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou” (João 13.20). De igual modo, um homem da Macedônia, que apareceu numa visão a São Paulo, enquanto este se encontrava na Ásia, secretamente o admoestou dizendo: “Passa à Macedônia, e ajuda-nos” (At. 16.9). E em outro lugar o mesmo apóstolo diz: “Porque de Deus somos cooperadores; lavoura de Deus, edifício de Deus sois vós” (1ª Cor. 3.9). Por outro lado, no entanto, devemos precaver-nos para não atribuirmos demasiado aos ministros e ao ministério; aqui também lembrando-nos das palavras de nosso Senhor no Evangelho: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer” (João 6.44), e as palavras do apóstolo: “Quem é Apolo? e quem é Paulo? Servos por meio de quem crestes, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um ... Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus. De modo que nem o que planta é alguma cousa, nem o que rega, mas Deus que dá o crescimento” (1ª Cor. 3. 5, 7). Deus move os corações dos homens. Então, creiamos que Deus nos ensina pela sua palavra, externamente por meio dos seus ministros e internamente move os corações dos seus eleitos à fé pelo seu Espírito Santo; e que, portanto, devemos atribuir a Deus toda a glória de todo este benefício. Mas deste assunto já tratamos no primeiro capítulo desta Explanação.
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Comentário: O chamado externo feito pelos ministros do evangelho serve tanto para atrair os pecadores para conhecer a Cristo como chamar os próprios crentes ao arrependimento quando estão em pecado. Contudo, tanto numa quanto noutra situação é o Espírito Santo que convence, opera arrependimento e conversão. Quando alguém ouve o chamado externo e não responde será duplamente culpado diante de Deus. Então é do trono de Deus que flui toda a autoridade e governo para toda a criação, sobre a qual Ele reina soberano. Contudo Deus, em Sua infinita sabedoria, quis estabelecer entre a suas criaturas uma cadeia de autoridade. Assim ele fez entre os anjos, assim fez entre os homens. Desde o princípio da humanidade, desde que criou o primeiro casal, Deus estabeleceu uma cadeia de autoridade na terra. A Bíblia nos ensina que pelo fato de o homem ter sido criado primeiro tem a liderança - Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido... Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva - 1ª Timóteo 2.12-13. A partir da cadeia de autoridade estabelecida na família, outras foram sendo estabelecidas - nas tribos, nas cidades, nas nações. E quando a Congregação do Senhor foi reunida, também Deus estabeleceu os líderes para governá-la sob Sua autoridade, isso tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Por isso, de forma alguma, o ministério deve ser desprezado ou tido em pouca conta, uma vez que foi Deus mesmo quem o instituiu. O ministério evangélico é extremamente importante para a expansão do reino de Deus na terra, para a edificação dos santos, para a preservação da sã doutrina. Porém, a Igreja está acima deles, pois eles estão a serviço da Igreja. Ninguém é insubstituível ou indispensável, em nenhuma tarefa, em nenhuma circunstância, em tempo algum. Os ministros são apenas instrumentos que Deus usa onde, quando e como quer, pelo tempo que julgar necessário para o serviço sagrado. E o verdadeiro ministro é consciente disso e grato a Deus por isso.
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Quem são os ministros e de que sorte são os que Deus deu ao mundo
E em verdade desde o princípio do mundo Deus usou os mais eminentes homens no mundo inteiro (ainda que muitos deles fossem simples na sabedoria terrena ou na filosofia, no entanto na verdadeira teologia eram excelentes), a saber, os patriarcas, com os quais ele falou frequentemente pelos anjos. Pois os patriarcas eram os profetas e mestres dos seus dias, aos quais, por essa razão, quis Deus que vivessem por vários séculos, para que fossem, por assim dizer pais e luzes do mundo. Foram seguidos por Moisés e os profetas famosos pelo mundo inteiro.
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Comentário: Os ministros de Deus são vasos santificados por ele mesmo para serem seus representantes na terra. Homens simples, dotados, não de grande inteligência e sabedoria humanas, ainda que alguns deles fossem assim, mas principalmente humildes, obedientes e dedicados ao seu ofício. Homens que vivem não pelo que veem mas pelo que está além do horizonte do mundo presente, com os pés na terra e com a cabeça no céu. Considerados de somenos pelo mundo mas tidos em alta conta pelo anjos do céu. Assim foram os patriarcas, os profetas e outros embaixadores do Reino de Deus.
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Cristo o mestre
Depois destes o Pai celestial enviou o seu Filho unigênito, o mais perfeito mestre do mundo, em quem está escondida a sabedoria de Deus, a qual veio até nós através da mais santa, simples e perfeita de todas as doutrinas. Ele escolheu discípulos para si mesmo, aos quais fez apóstolos. Estes saíram por todo o mundo e em toda parte congregaram igrejas pela pregação do Evangelho, e depois ordenaram pastores ou mestres (doutores) em todas as igrejas do mundo, segundo o mandamento de Cristo; mediante seus sucessores ele ensinou e governou a Igreja até hoje. Portanto, como Deus deu ao seu povo antigo os patriarcas, juntamente com Moisés e os profetas, assim também ao seu povo do Novo Testamento ele enviou seu Filho unigênito e, com ele, os apóstolos e doutores da Igreja.
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Comentário: O Senhor Jesus veio a este mundo para fazer expiação pelos nossos pecados, toda sua vida esteve focada nesse objetivo, mas era também o Mestre excelente. Ensinava com sua sabedoria e sua vida santíssima. Desde o início de seu ministério neste mundo, chamou os apóstolos, quase todos da Galileia, a região mais simples de Israel naqueles dias. Jesus seguiu o mesmo modelo do Antigo Testamento, isto é, chamar oficiais dentre os homens e enviá-los como seus embaixadores comissionados, portadores da mensagem divina.
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Ministros do Novo Testamento
Além disso, os ministros do novo povo são designados por diversos nomes. São chamados apóstolos, profetas, evangelistas, bispos, anciãos, pastores e mestres (1ª Cor. 12.28; Ef. 4.11).
Os apóstolos
Os apóstolos não permaneciam num lugar determinado, mas por todo o mundo iam congregando diversas igrejas. Uma vez estas estabelecidas, deixou de haver apóstolos, e, em seu lugar, apareceram pastores, cada um em sua igreja.
Profetas
Nos primeiros tempos eram videntes, conhecendo o futuro; mas também interpretavam as Escrituras. Tais homens são encontrados também hoje.
Evangelistas
Os escritores da história evangélica eram chamados Evangelistas; mas eram também arautos do Evangelho de Cristo; como o apóstolo São Paulo ordena a Timóteo: “Faze o trabalho de evangelista” (2ª Tim 4.5).
Bispos
Bispos são os supervisores e vigias da Igreja, que administram o alimento e outras necessidades da vida da Igreja.
Presbíteros
Os presbíteros são os anciãos e, por assim dizer, os senadores e pais da Igreja, governando-a com sadio conselho.
Pastores
Os pastores não só guardam o rebanho do Senhor, como também providenciam as coisas necessárias a ele.
Mestres
Os mestres instruem e ensinam a verdadeira fé e piedade. Portanto, os ministros da Igreja podem, agora, ser chamados bispos, anciãos, pastores e mestres.
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Comentário: Deus é de Deus de ordem. Toda sua criação mostra isso. Tudo quanto criou funciona na mais perfeita ordem. Deus é ordeiro, criativo e minucioso. A desordem que observamos na criação foi causada pelo pecado e a queda. Mas o Senhor Jesus está reinando e restaurando todas as coisas, o que fará até o último dia quando há - De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra - Efésios 1.10. Por querer que tudo seja feito com ordem e decência em sua Igreja, ele estabeleceu os ministérios ou ofícios e deu dons e capacitações aos seus filhos, para o bom funcionamento dela. Há ministérios específicos que ele deu em ocasiões distintas, como foram os profetas, cada um sendo um instrumento de Deus e executando uma tarefa. Os apóstolos foram usados para lançar o fundamento da Igreja, a qual está alicerçada sobre esse fundamento - Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina - Efésios 2.20 [Apoc. 21.14]. Uns ele usou para escrever e relatar a história, outros usou para reunir os livros que antes eram avulsos. Cada um no seu tempo próprio a fim de cumprirem os desígnios divinos. Na era da Igreja os ofícios comuns que encontramos depois dos apóstolos e evangelistas terem fundado as igrejas são os presbíteros e diáconos. Com os presbíteros [também chamados bispos] a igreja local forma o seu conselho para governar a congregação sob a orientação da Palavra e do Espírito Santo. Sabemos também que cada crente sendo um sacerdote diante de Deus é capacitado, pelo Espírito Santo, com dons para servir ao corpo de Cristo. Assim, cada qual deve buscar com alegria servir em sua igreja, da melhor maneira, com tudo o que Deus lhe der, para a glória do nosso Senhor.
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Ordens dos papistas
Com o passar o tempo, muitas outras designações de ministros na Igreja foram introduzidas na Igreja de Deus. Alguns foram ordenados patriarcas, outros arcebispos, outros sufragâneos; também metropolitanos, arquidiáconos, diáconos, subdiáconos, acólitos, exorcistas, cantores, porteiros e não sei quantos outros, como cardeais, reitores e priores; abades maiores e menores; ordens mais elevadas e inferiores. Não estamos preocupados, porém, acerca de todas estas, de como foram uma vez e são agora. Basta-nos a doutrina apostólica no que concerne aos ministros.
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Comentário: Ao longo dos anos a Igreja foi se descaracterizando e perdendo a simplicidade e singeleza dos primeiros dias. Ela foi absorvendo tanto falsas doutrinas quanto invenções humanas, que a distanciaram do “modelo mostrado no monte”. Deus não precisa e não deseja que sejamos criativos, apenas obedientes. Ninguém tem o direito de estabelecer na Igreja de Cristo coisas da sua própria invenção, nem quanto aos ofícios, ao governo ou ao culto solene. De novo, Deus não quer que os homens inventem coisas e as tragam para dentro da igreja. Contudo, foi o que, tragicamente, aconteceu no decorrer dos séculos. Deus estabeleceu, em sua Igreja, uma ordem simples e sem hierarquia. Mas os homens conseguem transformar igrejas em empresas humanas, copiando modelos do mundo, desonrando o Senhor da Igreja.
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A respeito dos monges
Como sabemos com certeza que os monges e as ordens, ou seitas de monges, não são instituídas nem por Cristo, nem pelos apóstolos, ensinamos que elas nada valem para a Igreja de Deus; antes são perniciosas. Pois, embora anteriormente fossem toleráveis - quando eram solitários, ganhando a vida com suas próprias mãos, e não eram carga para ninguém e, como os leigos, eram por toda parte obedientes aos pastores das igrejas - agora, porém, o mundo todo vê e sabe a que são semelhantes. Eles formulam não sei que votos; mas levam vida totalmente contrária aos seus votos, de modo que os melhores deles merecem ser incluídos entre aqueles de quem o apóstolo fala: “Estamos informados de que entre vós há pessoas que andam desordenadamente, não trabalhando” etc. (2ª Tess. 3.11 ). Portanto, não temos tais pessoas em nossas igrejas, nem ensinamos que devem existir nas igrejas de Cristo.
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Comentário: Por mais que os homens sejam bem-intencionados e tenham motivação correta, isso não garante que estejam certos, pois enganoso é o coração e tendente a criar novos caminhos e atalhos para a salvação e santificação. Sem querer julgar aqueles que buscaram isolamento do mundo indo para os desertos solitários, isto nunca foi ensino bíblico. O apóstolo nos diz: Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem; isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo - 1a Coríntios 5.9-10. Como os discípulos de Cristo são o sal da terra, eles precisam estar onde a sociedade mais necessita desse ingrediente. Retirar-se por algum tempo e depois voltar para a multidão é uma boa prática, mas isolar-se consigo próprio é uma prática egoísta.
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Os ministros devem ser chamados e eleitos
Ninguém deve usurpar a honra do ministério eclesiástico; isto é, apoderar-se dele por suborno ou quaisquer enganos, ou por sua própria escolha. Que os ministros da Igreja sejam chamados e eleitos por eleição legal e eclesiástica; isto é, que sejam eleitos escrupulosamente pela Igreja ou por aqueles que dela receberam delegação para tal fim, na devida ordem, sem qualquer tumulto, divisões ou rivalidade. Não se eleja qualquer um, mas homens idôneos, que se distingam por suficiente cultura sagrada, piedosa eloquência, sabedoria simples, e por fim, pela moderação e reputação honrada, segundo a regra apostólica fixada pelo apóstolo em 1ª Timóteo, capítulo 3, e Tito, capítulo 1.
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Comentário: Os ministros da palavra e sacramentos devem ter forte convicção que Deus os quer nesse sagrado ministério, mas não devem lançar-se nele por conta própria, antes devem ser indicados, aprovados e eleitos pela igreja. Igreja não é uma empresa ou organização terrena, mesmo estando na terra seu objetivo é expandir o reino dos céus. É uma agência de salvação, uma sucursal e embaixada do reino invisível, onde os pecadores são chamados à reconciliação com o Rei dos reis. Os ministros do evangelho são chamados especialmente para serem arautos do Reino de Deus.
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Ordenação
E os que foram eleitos sejam ordenados pelos anciãos com orações públicas e imposição das mãos. Aqui condenamos todos quantos concorrem por conta própria, não sendo nem escolhidos, nem enviados, nem ordenados (Jer. 23). Condenamos os ministros ineptos e os desprovidos dos dons necessários a um pastor. Ao mesmo tempo, reconhecemos que a inocente simplicidade de certos pastores na Igreja Antiga por vezes aproveitou mais à Igreja do que a erudição multiforme, refinada e elegante mas demasiado enfatuada de outros. Por esse motivo não rejeitamos, nem mesmo hoje, a simplicidade honesta de alguns, que não é, porém, de modo algum ignorante.
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Comentário: A história eclesiástica mostra ao longo dos séculos que houve muitos ministros os quais não eram doutores nas línguas originais, eruditos e experts da linguística, mas na sua simplicidade serviram com zelo e fervor trazendo grande proveito para muitas almas.
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O sacerdócio de todos os crentes
Sem dúvida, os apóstolos de Cristo designam todos os que creem em Cristo como “sacerdotes”, não por causa de qualquer ofício, mas porque, por Cristo, todos os fiéis, feitos reis e sacerdotes, podemos oferecer sacrifícios espirituais a Deus (Êx. 19.6; 1ª Ped. 2.9; Apoc. 1.6). Portanto, o sacerdócio e o ministério são bem diferentes um do outro. O sacerdócio, como acabamos de dizer, é comum a todos os cristãos; o mesmo não acontece com o ministério. Nem abolimos o ministério da Igreja pelo fato de termos repudiado o sacerdócio papístico da Igreja de Cristo.
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Comentário: O povo de Deus é o povo sacerdotal. Israel o era no Antigo Testamento e a Igreja no Novo Testamento. Os crentes são as testemunhas e profetas do Senhor entre as nações. São o sal da terra e a luz do mundo e devem impactar as nações com seu testemunho. É sua responsabilidade demonstrar com suas palavras e com seu comportamento que Jesus Cristo está vivo e reina soberano sobre toda a criação. Nesse sentido cada crente é um sacerdote de Deus governado pelo Sumo Sacerdote Jesus Cristo que está no céu.
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Sacerdotes e sacerdócio
Sem dúvida nenhuma, na nova aliança de Cristo não existe mais essa forma de sacerdócio como existia entre o povo antigo; o qual incluía unção externa, roupagens santas e inúmeras cerimônias que eram tipos de Cristo, que aboliu tudo isso pela sua vinda e cumprimento desses tipos. Mas ele mesmo permanece o único sacerdote para sempre e para não subtrairmos qualquer coisa dele, não chamamos sacerdote a nenhum dos ministros. Pois o próprio Senhor nosso não nomeou nenhum sacerdote na Igreja do Novo Testamento, que, tendo recebido autoridade do sufragâneo, ofereçam sacrifício diariamente, isto é, a própria carne e sangue do Senhor, pelos vivos e mortos, mas ministros que ensinem e administrem os sacramentos.
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Comentário: A igreja romana como que restaurou muitas coisas da era do antigo povo de Deus. Nos dias do Antigo Testamento eles adoravam a Cristo de maneira velada através de tipos e sombras. O antigo ofício sacerdotal era tipológico de Cristo. O culto era terreno, o tabernáculo era uma figura do celestial e os sacerdotes oficiavam por meio de coisas físicas e temporais, estabelecidos por um tempo. Na nova aliança nossa adoração é em espírito e nosso Sacerdote está no céu. Os tipos e sombras da antiga aliança se cumpriram em Cristo. Ele é o corpo para quem aquelas figuras apontavam. O templo físico terreno caiu e com ele todos os cerimoniais. Tentar restaurar algo daqueles cerimoniais é como retroceder no plano da redenção. O sacerdócio instituído pelo romanismo é uma insensatez e não faz o menor sentido. E a hierarquia que estabeleceram com os mais diversos cargos e ofícios nunca fizeram parte da Igreja de Cristo.
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A natureza dos ministros do Novo Testamento
São Paulo expõe de modo simples e conciso o que devemos pensar dos ministros do Novo Testamento ou da Igreja Cristã, e o que devemos atribuir-lhes: “Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus” (1ª Cor. 4.1). Por isso, o apóstolo quer que estimemos os ministros como ministros. Ora, o apóstolo os chamou hyperétas, “remadores”, que têm os olhos fixos unicamente no timoneiro, e são, assim, homens que não vivem para si mesmos ou segundo sua própria vontade, mas para os outros - a saber, para os seus senhores, de cujas ordens dependem inteiramente. Pois em todos os seus deveres todo ministro da Igreja recebe ordens, não de satisfazer a sua vontade, mas de executar apenas o que está nos mandamentos recebidos do seu Senhor. E neste caso declarasse, expressamente, quem é o Senhor, isto é, Cristo, a quem os ministros estão sujeitos em todas as questões do ministério.
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Comentário: Todas as palavras utilizadas pelo Espírito Santo para descrever os oficiais da Igreja mostram a característica do ofício sagrado. Apóstolo ἀπόστολος que significa enviado numa missão, missionário; bispo ἐπίσκοπος que significa supervisor; presbítero πρεσβύτερος que significa ancião; diácono διάκονος que significa servo atendente. E em 1a Coríntios 4.1 ele usa a palavra ὑπηρέτης que significa um servo cujo trabalho era na galera, o porão do navio, onde estava a remar num movimento sincronizado. Esses faziam um trabalho de escravo, que trabalhava por comida. Assim, nenhum de nomes traz consigo nenhuma sombra de posição de autoridade como querem os religiosos.
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Os ministros, despenseiros dos mistérios de Deus
Contudo, para explicar mais completamente o ministério, o apóstolo acrescenta que os ministros da Igreja são ecónomos ou despenseiros dos mistérios de Deus. Ora, em muitas passagens, especialmente em Efésios, capítulo 3, São Paulo chamou “mistérios de Deus” ao Evangelho de Cristo. E os escritores antigos também chamaram “mistérios” aos sacramentos de Cristo. Assim, é para isto que os ministros da Igreja são vocacionados - para pregarem o Evangelho de Cristo aos fiéis e para administrarem os sacramentos. Lemos, ainda, em outro lugar do Evangelho, a respeito do “mordomo fiel e prudente” a quem “o senhor confiará os seus conservas para dar-lhes o sustento a seu tempo” (Luc. 12.42). Além disso, em outra passagem do Evangelho, um homem parte de viagem para um país estrangeiro e, deixando sua casa, passa os seus bens e a sua autoridade nesta a seus servos, dando a cada um a sua tarefa.
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Comentário: Dos ministros Deus requer fidelidade à mensagem de Deus - Além disso requer-se nos despenseiros que cada um se ache fiel - 1a Coríntios 4.2. Eles falam em nome de Deus e isso os faz profetas. Não têm prerrogativa para acrescentar e nem subtrair de tudo quanto está escrito. Devem conhecer pelo menos um pouco dos originais para não incorrer em desvios, seguindo versões corrompidas das escrituras. Hoje devem os ministros ter grande cuidado com o liberalismo teológico e sua relativização dos textos originais. Ministros fiéis devem ensinar a outros homens igualmente fiéis - E o que de mim, entre muitas testemunhas ouvistes, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros - 2a Timóteo 2.2. Deus não os responsabiliza pelo sucesso ou pelos resultados do seu trabalho, mas cada ministro será cobrado pela sua lealdade e fidelidade.
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Do poder dos ministros da Igreja
Agora, pois, convém falarmos algo também acerca do poder e do dever dos ministros da Igreja. Sobre esse poder alguns têm discutido diligentemente, e a ele sujeitaram tudo o que há de supremo valor na terra, e o fizeram contrariamente ao mandamento do Senhor, que proibiu aos seus discípulos o domínio e recomendou com insistência a humildade (Luc. 22. 24 ss; Mat. 18.3 ss; 20.25 ss). Há, na verdade, outro poder que é simples e absoluto, chamado o poder do direito. Segundo esse poder, todas as coisas do mundo inteiro estão sujeitas a Cristo, o Senhor, como ele mesmo declarou, dizendo: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mat. 28.18). E ainda: “Eu sou o primeiro e o último, e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos, e tenho as chaves da morte e do inferno” (Apoc. 1.18). Igualmente: “... aquele que tem a chave de Davi, que abre e ninguém fechará, e que fecha e ninguém abre” (Apoc. 3.7).
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Comentário: Deus entregou toda a autoridade na mão do seu Filho e ele delega sua autoridade aos seus ministros. Autoridade delegada é representativa e não outorgada, portanto os ministros agem como servos e sua autoridade deve se reconhecida pelo seu serviço e testemunho. O apóstolo instrui os oficiais desta forma - E ao servo do SENHOR não convém contender, mas sim ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade - 2a Timóteo 2.24-25. Quando alguém se sobrepõe acima de outros líderes na Congregação do Senhor está usurpando de um lugar que não lhe foi conferido e portanto é totalmente ilegal, imoral, antiético e pecaminoso. João fala de um homem que queria ser chefe na igreja para fazer o que bem entendesse - Tenho escrito à igreja; mas Diótrefes, que procura ter entre eles o primado, não nos recebe. Por isso, se eu for, trarei à memória as obras que ele faz, proferindo contra nós palavras maliciosas; e, não contente com isto, não recebe os irmãos, e impede os que querem recebê-los, e os lança fora da igreja - 3ª João 9,10. E geralmente é o que acontece. Quando alguém quer ser maior que outros dentre da igreja é porque boas intenções não tem. Na igreja de Cristo só há um importante: Cristo, os demais não têm importância, são substituíveis e podem até ser descartados. Esse deve ser o espírito de quem serve a Cristo.
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O Senhor reserva para si o verdadeiro poder
Esse poder o Senhor o reserva para si, e não o transfere a nenhum outro, ficando ao lado ocioso, como espectador, enquanto os seus ministros trabalham. É Isaías que diz: “Porei sobre o seu ombro a chave da casa de David” (Is. 22.22). E outra vez: “O governo está sobre os seus ombros” (Is. 9.6). Ele não lança o governo sobre os ombros de outros homens, mas ainda conserva e usa o seu próprio poder, governando todas as coisas.
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Comentário: Além do mais, os ministros do Senhor devem representar a sua autoridade sábia e prudentemente, justamente porque representam Deus e sua vontade. É perigoso e fácil de se escorregar aqui, até mesmo o servo Moisés, com toda sua mansidão conforme lemos: E era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra - Números 12.3, teve problemas ao representar a autoridade de Javé - E o SENHOR disse a Moisés e a Arão: Porquanto não me crestes a mim, para me santificar diante dos filhos de Israel, por isso não metereis esta congregação na terra que lhes tenho dado - Números 20.12.
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O poder do ofício e o ministerial
Entretanto, há outro poder, o do oficio, ou poder ministerial, limitado por aquele que usa do poder pleno. E este é mais semelhante a um ministério do que a um império. As chaves. Um senhor concede poder ao seu mordomo e para isso dá-lhes as chaves, com as quais ele introduz na casa ou dela exclui quem o seu senhor gostaria de introduzir ou excluir. Em virtude desse poder o ministro, pelo seu ofício, realiza aquilo que o Senhor ordenou que ele fizesse, e o Senhor confirma aquilo que ele faz e deseja que o que o seu servo fez seja considerado e reconhecido como se ele mesmo o tivesse feito. Indubitavelmente, é a isto que se referem estas sentenças evangélicas: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus: o que ligares na terra, terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra, terá sido desligado nos céus” (Mat. 16.19). Ainda: “Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos” (João 20.23). Mas, se o ministro não agir em todas as coisas como o Senhor lhe ordenou, mas transgredir os limites da fé, então o Senhor certamente invalida aquilo que ele fez. Eis por que o poder eclesiástico dos ministros da Igreja é aquela função pela qual eles de fato governam a Igreja de Deus, mas fazem todas as coisas na Igreja como o Senhor as ordenou em sua Palavra. Quando essas coisas são feitas, os fiéis as consideram como feitas pelo próprio Senhor. Quanto às chaves, delas já se fez acima uma menção.
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Comentário: É preciso lembrar que a autoridade é do ofício e não do homem que está no ofício. A autoridade de um policial fardado não está nele mas na corporação ou departamento do Governo a qual pertence. Como representante da autoridade do Reino dos céus o ministro proclama a Palavra, cujo anúncio abre e fecha a portas do Reino. Também os ministros de Cristo devem exercer a disciplina eclesiástica conforme somos ensinados, jamais esquecendo de fazê-lo como a Escritura ensina.
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O poder dos ministros é um e o mesmo em todos
Ora, o mesmo e igual poder ou função é concedido a todos os ministros na Igreja. Certamente, no princípio os bispos ou presbíteros governavam a Igreja em comum; nenhum homem se elevava acima de qualquer outro, ninguém usurpava maior poder ou autoridade sobre seus co-epíscopos. Lembrados das palavras do Senhor “Aquele que dirige seja como o que serve” (Luc. 22.26) conservavam-se em humildade, e pelo serviço mútuo ajudavam-se no governo e na preservação da Igreja.
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Comentário: Todo oficial, independente de sua função, sendo estabelecido pela congregação, tem autoridade delegada para conduzir as atividades da igreja local. Todos os oficiais, sejam eles presbíteros ou diáconos, e seja qual for a sua área de trabalho, têm igual honra e responsabilidade e devem unir-se e cooperar de tal forma que não apareça o homem mas o Senhor da Igreja. Os presbíteros governam em harmonia e nenhum está acima de outro, como nenhuma igreja local está acima de outra. Essa harmonia deve ser preservada e estimada por todos.
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A ordem a ser preservada
Entretanto, por causa da preservação da ordem, algum dos ministros convocava reunião da assembleia, e perante ela propunha assuntos a serem apresentados, reunia as opiniões dos demais e, enfim, o quanto estava nele, providenciava para que não surgisse confusão. Assim procedeu São Pedro, segundo lemos nos Atos dos Apóstolos, o qual contudo não era, por essa razão, preferido pelos demais, nem revestido de maior autoridade que os outros. Mui acertadamente disse o Mártir São Cipriano, no seu De Simplicitate Clericorum: “Os outros apóstolos eram, seguramente, o que era Pedro, dotados de semelhante associação de honra e poder; mas, [seu] primado procede da unidade para que a Igreja seja manifesta como sendo uma”.
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Comentário: Quando necessário os oficiais devem ser convocados e reunidos para tratar de assuntos da congregação. Isso pode ser feito ordinária ou extraordinariamente, sem haver necessariamente aspecto de uma diretoria onde há um chefe e subalternos. A reunião sempre tem caráter espiritual, mesmo que para tratar assuntos temporais. Um oficial pode ser incumbido para fazer as convocações, onde todos os conselhos são ouvidos - Não havendo sábia direção, o povo cai, mas, na multidão de conselheiros, há segurança - Provérbios 11.14. A igreja não possui um CEO como se fora uma empresa secular, mas uma comunhão de santos oficiais, uns sujeitos aos outros.
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Como e quando um foi colocado diante dos outros
Também São Jerônimo, em seu Comentário à Epístola de Paulo a Tito, diz algo não muito diferente disto: “Antes que começasse a ligação a pessoas em religião, pela instigação do diabo, as igrejas eram governadas pelo conselho comum dos anciãos; mas, depois que cada um passou a pensar que aqueles que ele havia batizado eram seus e não de Cristo, decretou-se que um dos anciãos fosse escolhido e colocado sobre os demais, em quem recairia o cuidado de toda a Igreja, e que se removessem todas as sementes de cismas”. Contudo, São Jerônimo não recomenda este decreto como divino; pois ele logo acrescenta: “Assim como os anciãos sabem pelo costume da Igreja que se acham sujeitos ao que foi posto sobre eles, assim saibam os bispos, que se acham sobre os anciãos mais pelo costume do que pela verdade de uma disposição do Senhor, e que devem governar a Igreja em comum com eles”. Até aqui São Jerônimo. Por conseguinte, ninguém tem o direito de proibir o retorno à antiga constituição da Igreja de Deus, e recorrer a isso com apoio no costume humano.
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Comentário: O problema não é a tradição, pois nem todas as tradições são más; há tradições que são boas. Contudo mesmo boas tradições podem evoluir para algo que não é bom. A Igreja tem uma catolicidade histórica que vem desde os apóstolos de Cristo. Tudo que não estiver dentro daquele modelo apostólico, seja no que tange à doutrina, à liturgia do culto, ou ao governo da assembleia deve ser considerado inovação e preceitos de homens.
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Os deveres do ministro
São vários os deveres dos ministros, no entanto, em geral se restringem a dois, nos quais todos os outros estão incluídos: o ensino evangélico de Cristo e a legítima administração dos sacramentos. É dever dos ministros reunir a assembleia sagrada e nela expor a Palavra de Deus, e aplicar toda a doutrina à razão e ao uso da Igreja, de modo que o que for ensinado seja útil aos ouvintes e edifique os fiéis. É dever dos ministros, afirmo, ensinar os ignorantes e exortar; e estimular os indecisos ou ainda os que caminham lentamente a avançar no caminho do Senhor, consolar e confirmar os pusilânimes, e armá-los contra as multiformes tentações de Satanás; corrigir os que pecam; reconduzir ao caminho os transviados; levantar os caídos; convencer os contradizentes; expulsar do rebanho do Senhor os lobos; repreender, prudente e severamente os crimes e os criminosos; não serem coniventes nem se calarem perante o crime. Mas, além de tudo isso, é seu dever administrar os sacramentos, recomendar o uso justo deles e, pela sã doutrina, preparar todos para recebê-los; conservar também os fiéis numa santa unidade; e impedir os cismas, enfim catequizar os ignorantes, recomendar à Igreja as necessidades dos pobres, visitar, instruir e conservar no caminho da vida os enfermos e os afligidos por várias tentações. Além disso, devem cuidar das orações públicas ou das súplicas em ocasiões de necessidade, juntamente com o jejum, isto é, procurar uma santa abstinência; e cuidar o mais diligentemente possível de tudo o que diz respeito à tranquilidade, à paz e à salvação das igrejas.
E para que o ministro possa realizar todas estas coisas da melhor maneira e mais facilmente, requer-se especialmente dele que tema a Deus, seja constante na oração, entregue-se à leitura sagrada e, em todas as coisas e em todas as ocasiões, seja vigilante, e pela pureza de vida deixe sua luz brilhar diante de todos os homens.
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Comentário: A responsabilidade do ministro da Palavra é muito grande e sua tarefa é ampla e variada. Ele tem que investir seu tempo nas mais diversas e importantes atividades espirituais. Poucas tarefas exigem tanto preparo como o ministro do Evangelho. Por isso mesmo ele não é um profissional. Seu ofício é o sacerdócio, a salvação de almas é a sua ocupação. Nenhum trabalho exige tanta força, tanto física quanto emocional. Poucos trabalhos desgastam tanto. Por isso também ninguém está preparado para esta função e tampouco alguém é capaz. Aí entra a soberana graça d’Aquele que chama. Todo ministro fiel conhece suas fraquezas e reconhece suas limitações, assim sente-se desqualificado e incapacitado para tão elevado ofício e missão. Pregar a Palavra, expor a doutrina, evangelizar, alimentar o rebanho com a Palavra de Deus, ensinar, exortar, encorajar, repreender, confrontar os contradizentes, dirigir orações públicas, administrar fielmente os sacramentos. E tudo isso com muito amor, porque ele cuida das ovelhas do Senhor. Os ministros precisam de cuidados, do amor, da atenção, do encorajamento e da oração da igreja, para que seu trabalho seja realizado com fidelidade e para a glória de Deus.
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Disciplina
E, visto que a disciplina é absolutamente necessária na Igreja, e que a excomunhão foi outrora usada, entre os antigos, e havia, entre o povo de Deus julgamentos eclesiásticos, nos quais esta disciplina era exercida por homens sábios e piedosos, será também dever dos ministros, regular essa disciplina para edificação, de acordo com as circunstâncias dos tempos, do estado público e com a necessidade. Todas as vezes que se deve observar a regra, tudo se deve fazer para edificação, decente e honestamente, sem tirania e divisão. Pois o apóstolo atesta que lhe foi outorgada pelo Senhor autoridade na Igreja “para edificação, e não para destruição” (2ª Cor. 10.8). E o Senhor mesmo proibiu arrancar o joio no campo do Senhor, porque haveria o perigo de ser arrancado o trigo juntamente com ele (Mat. 13.29 ss).
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Comentário: Parte difícil da tarefa do ministro é administrar os problemas que exigem correção e disciplina eclesiástica, afazer que deve exercer juntamente com os demais presbíteros da congregação. Os líderes devem ser sensíveis, justos e misericordiosos para não desviar o foco da glória de Deus e da recuperação do faltoso. Como se diz, não se pode abrir demais a porta de maneira a facilitar ao impenitente e nem fechar ao ponto de desencorajar os piedosos. Toda cautela é necessária uma vez que o inimigo das nossas almas está sempre pronto a causar escândalos e divisões. Contudo, não se pode deixar o pecado contaminar a congregação.
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Mesmo os maus ministros devem ser ouvidos
Ademais, detestamos energicamente o erro dos donatistas, que consideram a doutrina e a administração dos sacramentos eficazes ou ineficazes, segundo a vida boa ou má dos ministros. Porquanto sabemos que a voz de Cristo deve ser ouvida, mesmo dos lábios de maus ministros; porque o Senhor mesmo disse: “Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém, não os imiteis nas suas obras” (Mat. 23.3). Sabemos que os sacramentos são santificados pela instituição e pela palavra de Cristo, e que são válidos para o fiel, embora administrados por ministros indignos. Sobre este assunto Santo Agostinho, o bem-aventurado servo de Deus, muitas vezes argumentou com base nas Escrituras, contra os donatistas.
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Comentário: Como já foi observado falando sobre a questão da autoridade, que ela não procede do homem mas do seu ofício, assim também a validade dos sacramentos não depende do ministro, isto é da sua piedade ou perfeita santidade, pois ela está nos sacramentos em si. Quando a Ceia do Senhor é administrada fielmente ela vem com aquela bênção que o Senhor Jesus impetrou no mesmo dia em que a instituiu e disse do pão: Tomai, comei, isto é o meu corpo… e disse do vinho: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue… - Mateus 26.27-28. Assim a bênção está no sacramento, aquelas palavras de Cristo ressoam em nossos ouvidos espirituais e nos alimentamos de Cristo, que não está nos elementos físicos mas no céu e de lá alimenta nossas almas.
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Sínodos
Apesar disso, deve haver disciplina adequada entre os ministros. Nos Sínodos a doutrina e a vida dos ministros devem ser cuidadosamente examinadas. Os que pecam devem ser repreendidos pelos anciãos e reconduzidos ao caminho certo, se forem curáveis; e, se forem incuráveis, devem ser depostos, e, como lobos, expulsos do rebanho do Senhor pelos verdadeiros pastores. Se são falsos mestres, não podem ser, de modo algum, tolerados. Nem desaprovamos os concílios ecumênicos, se convocados segundo o exemplo dos apóstolos, para a salvação da Igreja e não para sua destruição.
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Comentário: A disciplina cristã, bíblica, apostólica, serve para a edificação do corpo de Cristo. Essa prática está em desuso na maioria das igrejas hoje. Por ser uma prática de difícil absorção pelo povo e difícil aplicação por parte do Conselho, muitos preferem não se envolver com ela e ignorá-la para o prejuízo da assembleia dos santos. A disciplina é absolutamente necessária para a boa saúde da igreja, sem ela a igreja torna-se um clube onde todos são bem-vindos e ficam confortáveis, mesmo estando com a vida em desordem. Assim como um pai que ama seu filho e quer vê-lo tornar-se um homem de bem, e para tanto o corrige e disciplina quando necessário, também os presbíteros da igreja devem zelar pelo crescimento da irmandade, para sejam pessoas de bem, e deem bom testemunho do evangelho de Cristo. A disciplina visa o bem do faltoso e de toda a igreja, pois se um membro tem problemas afeta a saúde de todo o corpo. Se um membro do nosso corpo estiver infectado precisa ser tratado imediatamente. Assim como um corpo estranho nos invade através de algum membro, da mesma forma corpos estranhos querem invadir a igreja através de seus membros. Portanto, ao menor sinal de inflamação, infecção, alergia, intoxicação, medidas precisam ser tomadas rapidamente antes que o todo o corpo seja atingido. Todo membro comungante precisa de correção, obviamente isso inclui os oficiais, pois esses devem ser exemplo. Então, se um oficial precisar de disciplina, os presbíteros devem chamá-lo ao arrependimento e contrição. Não havendo arrependimento deve ser exonerado do ofício e excomungado.
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O obreiro é digno do seu salário
Todos os ministros fiéis, como bons obreiros, são também dignos do seu salário e não pecam quando recebem estipêndios e todas as coisas necessárias a eles mesmos e suas famílias. O apóstolo mostra em 1ª Coríntios, capítulo 9 e em 1ª Timóteo, capítulo 5, bem como em outras passagens, que tais coisas são, de direito, dadas pela Igreja e recebidas pelos ministros. Os anabaptistas, que condenam e difamam os ministros que vivem do seu ministério, são também refutados pelo ensino apostólico.
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Comentário: A Bíblia sagrada autoriza quem pregar o evangelho a viver dele. Não necessariamente, é claro. Não é um mandamento mas uma concessão e orientação. Obviamente, um ministro que se dedica com tempo integral ao trabalho espiritual, merece ser remunerado pela igreja onde trabalha. Contudo, o ministro deve receber um salário e não ficar com todo o dinheiro arrecadado. Há muitas seitas que usam o nome de igreja onde o dirigente recebe um salário e mais uma comissão sobre tudo o que conseguir arrecadar. Outros tornam a igreja numa empresa particular onde emprega toda a família, parentes e amigos. Há muitos mercenários e mercadores do evangelho. Eles só sabem falar de negócios, cobram tudo, até orações. Conhecemos falsos mestres que cobram mensalidade para oferecer uma “cobertura espiritual”. Viver do evangelho não significa fazer do ofício uma profissão ou negócio, isto seria uma profanação. Os que fazem do ofício uma fonte de lucro material Deus chamará a juízo.
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19. Dos sacramentos e da Igreja de Cristo
Os sacramentos (são) adicionais à Palavra e o que são eles
Deus, desde o princípio, acrescentou à pregação da Palavra em sua Igreja os sacramentos ou sinais sacramentais. É o que a Sagrada Escritura claramente testifica. Sacramentos são símbolos místicos, ou ritos santos, ou atos sagrados instituídos pelo próprio Deus, consistindo segundo a sua Palavra, de sinais e de coisas significadas, por meio das quais ele, na Igreja, conserva a memória dos grandes benefícios por ele concedidos ao homem - renovando-a frequentemente - por meio dos quais, também, ele sela as suas promessas e, externamente as representa e, como que nos põe diante dos olhos aquelas coisas que internamente ele nos concede, e assim fortalece e aumenta a nossa fé pela operação do Espírito de Deus em nossos corações. Finalmente, por meio deles, ele nos separa de todos os outros povos e religiões, e nos consagra e nos liga a si só, e nos dá a entender o que ele requer de nós.
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Comentário: Além da Palavra proclamada, aprouve a Deus também nos ensinar através de alguns sinais visíveis, através dos quais nossa fé é grandemente fortalecida. Tais sinais são os sacramentos. Santo Agostinho disse que um sacramento é a “forma visível de uma graça invisível”. Os sacramentos são instituídos e ordenados por Deus, e são apenas dois – o Santo Batismo e a Santa Ceia. Essas ordenanças substituíram a antiga Circuncisão e a antiga Páscoa. Os sacramentos servem para fortalecer os crentes em sua comunhão com Deus em Cristo Jesus. Eles nos trazem à memória os atos da redenção – isto é por meio deles lembramos que aquilo que eles representam é o que Deus operou por nós e em nós, isto é a obra da redenção realizada por Cristo e nossa reconciliação, adoção e união com Cristo, o que renova e fortalece a nossa fé. Recebendo esses sinais visíveis da graça de Deus, somos selados e confirmados como o povo da Aliança, o que nos separa dos demais homens. Assim Deus é glorificado porque esse povo separado dentre as nações, testemunha da sua graça. Os filhos da Aliança congregados num corpo e em comunhão com Deus indica o caminho da salvação. A própria presença dos santos na terra, esses que se identificam com Cristo, proclama ao mundo perdido que o Cristo dos evangelhos é a única resposta para os pecadores.
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Alguns são sacramentos do Velho, outros do Novo Testamento
Alguns sacramentos são do velho povo, outros do novo. Os sacramentos do velho povo eram a Circuncisão e o Cordeiro Pascal, que era imolado; por essa razão, ele se relaciona com os sacrifícios celebrados desde o princípio do mundo.
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Comentário: Na antiga dispensação os sacramentos eram sinais que apontavam para a vinda do Messias Redentor. Eram sinais sangrentos, isto é, ambos a circuncisão e a páscoa ocorriam sob derramamento de sangue e ambos apontavam para o sangue da redenção. Na nova aliança o único sangue derramado é do Senhor Jesus Cristo, pois é um sacrifício eterno de valor infinito.
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O número dos sacramentos do novo povo
Os sacramentos do novo povo são o Batismo e a Ceia do Senhor. Alguns há que reconhecem sete sacramentos do novo povo. Destes, reconhecemos que o arrependimento, a ordenação de ministros – não a ordenação papista, mas a apostólica – e o matrimônio são instituições úteis de Deus, porém não são sacramentos. A confirmação e a extrema unção são simples invenções dos homens, que a Igreja pode dispensar sem nenhum prejuízo. Na verdade, não as temos em nossas igrejas, pois elas contêm certas coisas que de modo nenhum podemos aprovar. Acima de tudo, detestamos todo o comércio que exercem os romanistas na dispensação dos sacramentos.
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Comentário: Tirar ou acrescentar algo a doutrina apostólica já uma indecência e pecado abominável, mas fazer isso com a finalidade de obter lucros financeiros é uma completa maldição. Vender as coisas santas não é apenas fazer mau uso delas, mas algo que provoca a terrível ira de Deus. Se os apóstolos inspirados e guiados pelo Espírito Santo, seguiram apenas os dois sacramentos instituídos pelo Senhor, e não poderia ser diferente, por que razão os aumentaram? De onde vieram os demais observados por Roma? Quem os ordenou?
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O autor dos sacramentos
O autor de todos os sacramentos não é nenhum homem, mas Deus somente. Os homens não podem instituir sacramentos. Estes fazem parte do culto de Deus. E não é da competência do homem estabelecer e prescrever o culto de Deus, mas receber e preservar o que por Deus foi entregue. Além disso, os símbolos têm juntas as promessas que requerem fé. E a fé se apoia exclusivamente na Palavra de Deus; e a Palavra de Deus assemelha-se a escritos ou cartas, e os sacramentos a selos, que somente Deus coloca nas cartas.
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Comentário: Sendo os sacramentos parte do culto a Deus, somente ele tem a prerrogativa de instituí-los e ele assim o fez. Ninguém tem o direito de acrescentar e nem tirar algo dos oráculos de Deus e seu culto. Essa prática é marca dos levianos e profanos, supostos adoradores do Deus Vivo, que de fato são adoradores de ídolos que prestam um culto falso tal qual Jeroboão.
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Cristo ainda opera nos sacramentos
E sendo Deus o autor dos sacramentos, assim ele continuamente opera na Igreja, em que os sacramentos são devidamente celebrados; de modo que os fiéis, quando recebem dos ministros os sacramentos, reconhecem que Deus opera em sua própria instituição, e portanto, recebem os sacramentos como da mão do próprio Deus; e os defeitos do ministro (ainda que sejam muito grandes) não podem prejudicá-lo, se eles reconhecem que a integridade dos sacramentos depende da instituição do Senhor.
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Comentário: Isto é maravilhoso, saber que as palavras do Senhor Jesus ressoam sobre os sacramentos e sua bênção se estende até o fim. Quando recebemos das mãos do ministro os elementos da Ceia, por exemplo, estamos recebendo das mãos do Senhor. As palavras pronunciadas pelo Senhor quando da instituição da Santa Comunhão abençoam o sacramento cada vez que o recebemos. O sacramento já vem com a bênção.
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Deve-se distinguir entre o autor e o ministro dos sacramentos
Por conseguinte, na administração dos sacramentos distinguem eles, também claramente, entre o Senhor mesmo e o ministro do Senhor, confessando que a substância dos sacramentos lhes é dada pelo próprio Senhor e os símbolos pelos ministros do Senhor.
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Comentário: Perfeito. O ministro entrega o pão e o vinho que são os símbolos, o Senhor nos dá a substância espiritual do sacramento. É a presença do Espírito Santo no sacramento que o torna uma graça que alimenta nossa alma. Está muito claro na Palavra de Deus que ele mesmo é quem diz como o homem deve cultuá-lo, quais são os atos do culto, os elementos que deveriam ser usados, enfim como o homem deve apresentar-se diante dele. Assim, está claro também que o próprio Deus estabeleceu a Aliança conosco e determinou quais seriam seus selos exteriores, quais sejam os sacramentos com seus devidos elementos físicos representativos. É Deus quem vê os sinais externos e lembra-se das suas maravilhosas promessas. Então, obviamente, ninguém pode tirar e nem acrescentar aos sacramentos tampouco ao culto. Há que se entender que Deus instituiu os sacramentos e quando os recebemos Deus mesmo opera em nós. Devemos fazer separação entre o Deus da Aliança que nos promete suas bênçãos através dos sacramentos, dos ministros de Deus que os administram. Assim, independentemente da condição do ministro, somos abençoados pelo Espírito de Deus que assiste e opera nos sacramentos. Também devemos evitar a superstição de supor que haja algum poder inerente aos elementos físicos, como a água, o pão ou o vinho, nem na quantidade deles. Não há nada de especial nos elementos e tampouco no ministro, mas na graça que Espírito de Deus nos concede através do ato sacramental. Toda vez que recebemos o pão e o vinho, por exemplo, não há nada de especial nesses elementos, nem no ministrante, mas naquele momento Deus ministra a nós e nos alimenta a alma para a vida eterna.
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A essência ou coisa principal nos sacramentos
Mas, a coisa principal que Deus propõe em todos os sacramentos e para a qual todos os piedosos de todos os tempos voltam a atenção que outros chamam substância e matéria nos sacramentos é Cristo o Salvador, o sacrifício único, o Cordeiro de Deus morto desde a fundação do mundo, a rocha, também, da qual todos os nossos pais beberam, por quem todos os eleitos são circuncidados não por mãos, pelo Espírito Santo, e são lavados de todos os seus pecados e alimentados com o próprio corpo e sangue de Cristo para a vida eterna.
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Comentário: Os sacramentos não são apenas símbolos vazios, mas contêm uma substância espiritual. Assim como a antiga circuncisão e a antiga páscoa traziam consigo algo espiritual, também o batismo e a santa ceia o trazem. Quem recebia a circuncisão não recebia apenas algo físico mas a garantia da obra do Espírito Santo “circuncidando” seu coração. Quem recebia do cordeiro da páscoa não comia apenas a carne do animal sacrificado mas se alimentava pela fé do Redentor para o qual aquele sacrifício apontava. Outro tanto em relação ao batismo e a santa ceia, quem deles participa recebe com eles, pela fé, algo do Espírito Santo.
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Semelhança e diferença dos sacramentos do velho e do novo povo de Deus
Com respeito ao que é o principal e a própria matéria, os sacramentos de ambos os povos são iguais. Pois Cristo, o único Salvador e Mediador dos fiéis, é o principal elemento e a própria substância dos sacramentos em ambos; porquanto o mesmo Deus é o autor dos dois sacramentos.
Eles foram dados aos dois povos como sinais e selos da graça e das promessas de Deus, para que tragam à mente e renovem a lembrança dos grandíssimos benefícios de Deus e para que distinguissem os fiéis de todas as outras religiões do mundo; finalmente, para que fossem recebidos espiritualmente pela fé e ligassem à Igreja os participantes, e os lembrassem dos seus deveres. Nesses e em outros pontos semelhantes digo que os sacramentos de ambos os povos não são diferentes como parecem, embora exteriormente o sejam. E, na verdade, no que diz respeito aos sinais, fazemos uma maior distinção. Os nossos são mais firmes e mais duradouros, visto que nunca serão mudados até o fim do mundo. Mais ainda, os nossos testificam que tanto a substância como a promessa foram cumpridas ou consumadas em Cristo; os anteriores significavam o que estava para ser cumprido. Os nossos são também, mais simples e menos complicados, menos pomposos e menos envolvidos com cerimônias. E ainda mais, pertencem a um povo mais numeroso, disperso por toda a face da terra. E, porque são mais excelentes e pelo Espírito Santo despertam maior fé, resultam ainda, em maior abundância do Espírito.
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Comentário: O lado principal dos sacramentos está na sua essência espiritual. Todos os sacramentos, tanto os antigos – circuncisão e páscoa, quanto os novos – batismo e santa ceia, têm a função de representar uma única realidade: somos o povo de Deus, em Cristo Jesus, redimidos pelo seu sangue, alimentados pela sua carne, e trazemos o selo do Espírito, que nos distingue dos ímpios e incrédulos. Os sacramentos apontam para esse fato glorioso: somos o povo eleito, separado do restante da humanidade. Eles representam a nossa união com Cristo e são os selos da graça e das promessas de Deus, portanto, mesmo sendo exteriormente diferentes na Antiga Aliança, do que são na Nova Aliança, seus significados continuam os mesmos. Mas como a Nova Aliança é superior a Antiga, também os sacramentos de hoje são muito superiores aos antigos. Os sacramentos que o Senhor Jesus instituiu em lugar dos antigos, são mais duradouros, pois são para até o fim dos tempos. Além disso, eles são menos complicados e mais abrangentes. Os antigos eram cercados de cerimoniais, e dizia respeito ao Israel terreno; os novos são despidos dos cerimoniais e também de derramamento de sangue, e pertencem não apenas a judeus senão também a gentios de todas as nações da terra.
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Nossos sacramentos sucedem aos antigos, que foram abolidos
Certamente, visto que Cristo, o verdadeiro Messias, nos é apresentado e a abundância da graça é derramada sobre o povo do Novo Testamento, os sacramentos do velho povo de Deus foram abolidos e cessaram; e em seu lugar colocaram-se os símbolos do Novo Testamento - o Batismo em lugar da Circuncisão, a Ceia do Senhor em lugar do Cordeiro Pascal e dos sacrifícios.
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Comentário: Como já vimos, os antigos sacramentos eram sangrentos e cerimoniais que apontavam para o Cristo velado, já os novos não contêm derramamento de sangue e são sinais do Cristo revelado. Aqueles antigos foram instituídos por Deus quando o Cordeiro era uma promessa, os novos foram instituídos pelo Filho manifesto, a realidade e o sentido tanto dos antigos quanto dos novos sacramentos.
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Em que consistem os sacramentos
E como outrora os sacramentos consistiam da palavra, do sinal e da coisa significada, assim também agora eles se compõem, por assim dizer, dessas mesmas partes. Pois, a Palavra de Deus os faz sacramentos, o que antes não eram. A consagração dos sacramentos. São consagrados pela Palavra e declarados santificados por aquele que os instituiu. Santificar ou consagrar uma coisa a Deus é dedicá-la a usos sagrados isto é, retirá-la do uso comum ou profano e destiná-la a uso sagrado, pois, os sinais nos sacramentos se derivam do uso comum, de coisas externas e visíveis. No Batismo, o sinal externo é o elemento da água e a ablução visível, feita pelo ministro; a coisa significada é a regeneração e purificação de pecados. Na Ceia do Senhor, o sinal externo é o pão e o vinho, tomados do uso comum do comer e do beber; a coisa significada é o corpo do Senhor que foi entregue, e seu sangue vertido por nós, ou a comunhão do corpo e do sangue do Senhor. Por isso, a água, o pão, o vinho, segundo sua natureza e à parte da instituição divina e do uso sagrado, são somente aquilo que são chamados, e que experimentamos. Mas, quando a Palavra do Senhor lhes é acrescentada, com a invocação do nome divino e a renovação de sua primeira instituição e santificação, então esses sinais são consagrados e se mostram santificados por Cristo. A primeira instituição de Cristo e a consagração dos sacramentos permanece sempre eficaz na Igreja de Deus, de tal modo que aqueles que celebram os sacramentos, não de modo diferente daquele que o Senhor mesmo estabeleceu desde o princípio, ainda hoje desfrutam daquela primeira e sobre-excelente consagração. E por isso, na celebração dos sacramentos, são repetidas as próprias palavras de Cristo.
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Comentário: O Autor dos sacramentos é quem os consagra e santifica. Eles são santos porque foram instituídos por Deus; são santos pelo que representam. O santo batismo representando o novo nascimento por obra da graça e a santa ceia, representando o sacrifício do Senhor Jesus para nos assegurar o perdão dos nossos pecados. Aquela primeira vez que o Senhor criou esses selos sacramentais, os definiu e os santificou para sempre. Os efeitos daquele ato do Senhor Jesus perduram para sempre, da mesma forma que o sacrifício de Cristo é de valor eterno. Assim, ainda hoje quando recebemos aqueles selos, eles trazem consigo a mesma bênção que o Senhor proferiu sobre eles. Então, não é para o ministro que devemos atentar mas para a bênção que o Senhor pronunciou solenemente sobre os sacramentos. Assim o que está sobre nós não é a bênção do ministro, mas do Senhor Jesus Cristo. A validade do sacramento não está na fidelidade do ministrante e sim na bênção do Senhor Jesus que ressoa nos nossos ouvidos todas as vezes que lemos e lembramos o que ele disse. Então com a água do batismo ou com o pão e o vinho que foram separados para os sacramentos, estamos recebendo, naquele momento, a bênção do nosso Senhor e Deus, que está presente de maneira especial no momento que recebemos os sacramentos. O sacrifício do Senhor Jesus Cristo pelos nossos pecados é de efeito e valor eternos. Assim também com relação aos sacramentos, eles têm a bênção eterna do Senhor que os ordenou. Amém.
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Os sinais recebem o nome das coisas significadas
Porque aprendemos da Palavra de Deus que estes sinais foram instituídos para outro fim, diverso do uso comum, ensinamos que eles agora, em seu santo uso, assumem em si os nomes das coisas significadas e não são mais chamados apenas água, pão ou vinho, mas também, regeneração ou o lavar com água e o corpo e sangue do Senhor, ou símbolos e sacramentos do corpo e sangue do Senhor. Não que os símbolos se transformem nas coisas significadas ou cessem de ser o que são por sua natureza. Pois de outro modo não poderiam ser sacramentos. Se fossem apenas a coisa significada, não seriam sinais.
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Comentário: Embora os elementos usados nos sacramentos, não tenham nada de especial neles nem sejam transformados em algo novo, contudo, quando os separamos do uso comum, para representarem o corpo e o sangue de Cristo, eles passam, de fato, a significar aquilo que representam. Isto é, quando a água é separada para o batismo e derramada sobre o corpo do batizando, ela traz consigo a promessa do lavar regenerador do sangue de Cristo. Outro tanto podemos afirmar do pão e do vinho. Quando esses elementos são trazidos à presença do Senhor para significar o corpo e o sangue de Cristo, eles de fato, ganham esse significado. Contudo nenhum desses elementos físicos usados nos sacramentos, se torna na coisa significada. Se assim fosse já não seriam mais sinais ou símbolos e Deus nunca pretendeu isso. Há, sim, uma operação do Espírito Santo no momento em que recebemos a água sobre nós, ou comemos e bebemos o pão e o vinho. Assim recebemos a bênção, não do homem, mas daquele que instituiu os sacramentos, pois Sua bênção dura para sempre. Assim, erram os que atribuem aos sacramentos um poder supersticioso, como aqueles que não os veem mais do que meros sinais exteriores que não fazem qualquer diferença deles participarem. Nem uma coisa e nem outra. Os sacramentos são sinais da Aliança de Deus com seu povo. Eles não dizem respeito aos ímpios e infiéis. Quando o crente em Deus recebe os sacramentos, recebe juntamente com eles aquela bênção de Deus pronunciada sobre essas ordenanças, e é alimentado com o corpo e o sangue de Cristo, mas, o infiel ao receber os sacramentos, não terá nenhuma bênção ou proveito espiritual. Ao contrário, pode sim ser amaldiçoado Deus por irreverência e profanação. O apóstolo Paulo adverte sobre essa questão: Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação – 1ª Coríntios 11.29. Embora não haja nada de especial nos elementos físicos e nem no ministrante, há contudo, uma comunhão íntima com Cristo, porque ele está presente de uma maneira especial naquela hora em que celebramos a sua vitória e o nosso resgate do pecado, e a completa reversão da queda.
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A união sacramental
Portanto, os sinais adquirem os nomes das coisas, porque são símbolos místicos de coisas sagradas, e porque os sinais e as coisas significados estão sacramentalmente ligados; ligam-se, digo, ou se unem pela significação mística e pela vontade e conselho daquele que instituiu os sacramentos. A água, o pão e o vinho não são sinais comuns, mas sagrados. E aquele que instituiu a água no batismo não a instituiu com a vontade e intenção de que os fiéis apenas fossem aspergidos pela água do batismo; e aquele que mandou comer o pão e beber o vinho na ceia não queria que os fiéis recebessem apenas pão e vinho sem qualquer mistério, da maneira como comem pão em suas casas, mas, que participassem espiritualmente das coisas significadas, sendo pela fé verdadeiramente lavados de seus pecados e participantes de Cristo.
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Comentário: O Batismo não é um banho comum e nem comer o pão e beber o vinho na Ceia é uma refeição comum. O Senhor quer que ao participarmos deles, não apenas nos lembremos do corpo e sangue de Cristo, mas que, de fato, recebamos algo daquilo que representam. Um judeu que comia do cordeiro sacrificado no templo não estava apenas comendo da carne do sacrifício mas participava da bênção de Cristo, o verdadeiro Cordeiro. Então, ao receber os sacramentos estamos de fato sendo unidos Àquele que os instituiu, e assim, perdoados e alimentados por ele; este é o propósito dos sacramentos.
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As seitas
Portanto, não podemos absolutamente aprovar os que atribuem a santificação dos sacramentos a não sei que propriedades e fórmulas ou ao poder de palavras pronunciadas por alguém que é consagrado e o que tem a intenção de consagrar, ou por outros acidentes quaisquer, que nem Cristo nem os apóstolos nos entregaram por palavras ou exemplo. Nem aprovamos tampouco a doutrina daqueles que falam dos sacramentos apenas como sinais comuns, não santificados nem eficazes. Nem aprovamos os que desprezam o aspecto visível dos sacramentos por causa do invisível, e assim creem que os sinais são supérfluos porque pensam que já gozam as próprias coisas significados, como dizem que os messalianos sustentavam.
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Comentário: Cada aspecto dos sacramentos é importante porque Deus os instituiu e ele tem um santo propósito em tudo que faz, nada fazendo debalde. Se os sacramentos fossem apenas sinais e tais sinais não significassem nada, a penas estabelecida para quem os desprezasse não seria a morte, como vemos na Antiga Aliança [Gênesis 17.14; Números 9.13] e até na Nova Aliança [1a Coríntios 11.30]. Sim, os sacramentos são importantes e carregam mais que uma lembrança, também trazem consigo a bênção daquele que os instituiu. Infelizmente, para muitos não apenas os sacramentos são opcionais, mas também congregar, prestar culto ao Senhor o são.
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A coisa significada não está incluída nos sacramentos nem a eles ligada
Não aprovamos a doutrina daqueles que ensinam que a graça e as coisas significadas estão de tal modo ligadas aos sinais e neles incluídas que, todos aqueles que participarem externamente dos sinais, não importando que espécie de pessoas sejam, são também interiormente participantes da graça e das coisas significadas. No entanto, como não julgamos o valor dos sacramentos pela dignidade ou indignidade dos ministros, assim também não os avaliamos pela condição daqueles que os recebem. Pois, sabemos que o valor dos sacramentos depende da fé e da veracidade e exclusiva bondade de Deus. Assim como a Palavra de Deus permanece a verdadeira Palavra de Deus que, em sendo pregada, não são meras palavras repetidas, mas, ao mesmo tempo, as coisas significadas ou anunciadas em palavras são oferecidas por Deus, embora os ímpios e incrédulos as ouçam e compreendam, contudo não aproveitam as coisas significadas, porque não as recebem pela verdadeira fé, assim os sacramentos, que pela Palavra consistem de sinais e de coisas significadas, continuam sendo sacramentos verdadeiros e invioláveis, significando não somente coisas sagradas mas, pelo oferecimento de Deus, as próprias coisas significadas, embora os incrédulos não percebam as coisas oferecidas. Neste caso, a culpa não é de Deus que as dá e as oferece, mas dos homens que as recebem sem fé e de modo ilegítimo, cuja incredulidade, porém, não invalida a fidelidade de Deus (Rom. 3.3 ss).
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Comentário: Este é um dos maiores perigos da falsa igreja, dar a ideia de que quem come o pão da Ceia come Cristo, que Cristo vem a ele no elemento físico do sacramento. Muitos comem o pão supondo que pelo comer lhes vem a salvação e a vida. Os sinais só fazem sentido para aqueles que verdadeiramente creem, e têm efeito na alma daqueles que os recebem, olham para a obra consumada de Cristo e nele confiam inteiramente.
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O fim para o qual os sacramentos foram instituídos
Desde que o fim para o qual os sacramentos foram instituídos foi também explanado, de passagem, quando logo no começo de nossa exposição se mostrou o que eles são, não há necessidade de se fazer a repetição molesta daquilo que já foi dito. Consequentemente, portanto, falaremos agora, separadamente, dos sacramentos do novo povo.
A instituição do batismo
O batismo foi instituído e consagrado por Deus. Primeiro João batizou, tendo imergido Cristo na água do Jordão. Dele passou para os apóstolos, que também batizavam com água. Ordenou-lhes expressamente o Senhor que pregassem o Evangelho e batizassem “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mat. 28.19). E nos Atos disse São Pedro aos judeus que perguntaram o que deviam fazer: “... e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2.38). Em consequência disso, o batismo é chamado por alguns, sinal de iniciação para o povo de Deus, visto que por ele os eleitos de Deus são consagrados a Deus.
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Comentário: O batismo cristão, igualmente era a circuncisão do antigo povo de Deus, é uma ordenança do Senhor. Sendo que ele próprio o instituiu nenhum membro da Aliança pode ficar sem recebê-lo. É um sacramento ordenado por Deus e toda desobediência dos crentes no sentido de rejeitar essa ordenança deve ser bastante punida. Qualquer membro do antigo Israel que não a cumprisse deveria mesmo ser eliminado da Congregação do Senhor - E o homem incircunciso, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada do seu povo; quebrou a minha aliança - Gênesis 17.14. O caso de Zípora, mulher de Moisés e seu filho, revela como Deus se irava com aqueles que não faziam caso da circuncisão - E aconteceu no caminho, numa estalagem, que o SENHOR o encontrou, e o quis matar. Então Zípora tomou uma pedra aguda, e circuncidou o prepúcio de seu filho, e lançou-o a seus pés, e disse: Certamente me és um esposo sanguinário. E desviou-se dele. Então ela disse: Esposo sanguinário, por causa da circuncisão - Êxodo 4.24-26. Assim o batismo, agora no lugar da antiga circuncisão, é o selo exterior da realidade interior operada pelo Espírito Santo, é ordenado e obrigatório. No batismo cada membro da Congregação é selado como propriedade de Deus e feito herdeiro das suas maravilhosas promessas.
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Um só batismo
Há um só batismo na Igreja de Deus; e é suficiente ser uma só vez batizado ou consagrado a Deus. Pois o batismo, uma vez recebido, continua por toda a vida; e é o selo perpétuo de nossa adoção.
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Comentário: Como a circuncisão não podia ser repetida, e isto é óbvio, também não deve haver repetição do batismo. Havia uma só circuncisão e há um só batismo. Tanto quanto o antigo selo não podia ser repetido, também aquele que o substitui não deve ser repetido. Uma vez que um homem haja recebido o selo do batismo - água sobre seu corpo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, não se lhe deve sujeitar à repetição do sacramento, ainda que o significado do selo não lhe seja claro. Muitas vezes até mesmo um adulto, recém-batizado, não entende plenamente tudo o que aquilo significa. Isto não quer dizer, contudo, que o sacramento deva ser repetido. A validade do selo não depende da sua fé. Participar das promessas da Aliança, sim, para isso é preciso crer. Os rebatizadores dão mais valor ao selo do que ao conteúdo selado ou ao que ele representa. Alguns repetem o santo batismo dizendo que sua fórmula correta não é a que está em Mateus 28.19. Usam dizer que os discípulos batizaram usando outra fórmula, e citam a passagem de Atos 2.38, onde lemos: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados. Dizem que se não for assim, não tem validade. Outros ainda supõem que o batismo deve ser realizado em água doce, e rebatizam os que foram batizados em água salgada; ainda outros dizem que ele deve ser em água corrente, e rebatizam todos quantos foram batizados em água parada; e outros mais aceitam qualquer tipo de água desde que seja em grande quantidade, suficiente para o batizando ser totalmente submerso, e então rebatizam todos que foram batizados por aspersão ou por efusão, e assim por diante. Os que não aceitam que o batismo seja realizado com pouca água não pensam o mesmo em relação ao pão e ao vinho. Contudo, a Bíblia, que é a nossa única fonte de autoridade nos ensina: a) Que o batismo é uma instituição divina, um sacramento e que é um só - Há um só batismo - Efésios 4.5; b) Que deve ser feito com água - Ora João batizava também em Enon, junto a Salim, porque havia ali muitas águas; e vinham ali, e eram batizados - João 3.23; c) Que a fórmula que o Senhor Jesus deu quando instituiu o batismo é esta: em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo - Mateus 28.19.
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O que significa ser batizado
Ser batizado em nome de Cristo é ser arrolado, incluído e recebido na aliança e na família, e assim na herança dos filhos de Deus; sim, e nesta vida ser chamado segundo o nome de Deus, isto é, ser chamado filho de Deus; ser purificado também da impureza dos pecados, e receber a multiforme graça de Deus para uma vida nova e inocente. O batismo, portanto, retém na memória e renova o grande benefício que Deus dispensou à raça dos mortais. Pois todos nascemos na impureza do pecado e somos filhos da ira. Mas Deus, que é rico em misericórdia, nos purifica gratuitamente dos nossos pecados pelo sangue de seu Filho, e, nele nos adota como seus filhos, e por uma santa aliança nos une a si mesmo e nos enriquece com inúmeros dons, para podermos viver uma nova vida. Todas estas coisas são consignadas pelo batismo. Internamente, somos regenerados, purificados e renovados por Deus mediante o Espírito Santo; e exteriormente recebemos o selo dos maiores dons na água, pela qual são também representados os maiores benefícios, e como que colocados diante dos nossos olhos para serem observados.
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Comentário: Nosso batismo significa nossa união com Cristo. A água sobre a nossa cabeça significa que fomos lavados e purificados dos nossos pecados. Significa ainda que participamos da morte e ressurreição de Cristo. Essa é a marca dos que foram atraídos para Cristo, reconciliados e pacificados com Deus e recebidos na família do céu. Têm agora uma nova identidade e são cidadãos do novo Reino. São pecadores redimidos pelo sangue do Cordeiro que caminham para o céu onde receberão um novo corpo semelhante ao do Senhor Jesus. Eles têm uma nova identidade, um novo nome, e uma história de amor com o Redentor, que diz quem eram, onde estavam, e o que ele fez para atraí-los para si.
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Somos batizados com água
Por isso, somo batizados, isto é, lavados ou aspergidos com a água visível. Pois a água lava as impurezas, refrigera e refresca os corpos quentes e cansados. E a graça de Deus realiza estas coisas para as almas, e o faz de modo invisível ou espiritual.
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Comentário: Refrigério é uma palavra que define bem o fato da Palavra de Deus ter vindo ao nosso encontro, o Bom Pastor nos buscando num mundo caído e condenado. O batismo traz a nossa memória este socorro que recebemos antes de sermos devorados pelo caçador de almas.
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A obrigação do batismo
Deus também nos separa de todas as religiões e povos estranhos pelo símbolo do batismo, e nos consagra a si mesmo como sua propriedade. Confessamos, portanto, nossa fé quando somos batizados, e sujeitamo-nos a Deus pela obediência, mortificação da carne e novidade de vida, e, com isso, alistamo-nos na santa milícia de Cristo para lutarmos durante toda a nossa vida contra o mundo, Satanás e nossa própria carne. Ademais, somos batizados no corpo da Igreja para, com todos os seus membros, podermos de modo distinto, participar de uma só e da mesma religião e dos serviços mútuos.
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Comentário: Ser batizado é receber o selo e a marca espiritual que nos identifica aos olhos de Deus como membros da Sua Congregação, filhos do Pacto, separados e distintos dos demais homens. O selo traz consigo as promessas e também as obrigações da Aliança. É por isso que as crianças após receber o batismo, devem ser criadas e ensinadas nos preceitos da Aliança. Conforme ela cresce em estatura deve também crescer no conhecimento da Aliança. Cada menino ou menina precisa compreender desde cedo os privilégios e as obrigações implícitos na marca e no nome que carrega. Deus mesmo deu-nos os elementos físicos que devem ser usados nos sacramentos, pois reportam ao sacrifício de Cristo por nós. Cada membro da Igreja de Cristo deve lembrar-se que tem a água do batismo sobre seu corpo, e que o pão e o vinho que recebem da mesa do Senhor trazem consigo aquela bênção pronunciada pelo Senhor Jesus quando instituiu esse sacramento.
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A forma do batismo
Cremos que a mais perfeita forma de batismo é aquela pela qual Cristo foi batizado e pela qual os apóstolos batizaram. Aquilo, portanto, que pelo expediente do homem foi acrescentado posteriormente, e usado na Igreja, não consideramos necessário à perfeição do batismo. Por exemplo, o exorcismo, o uso de velas acesas, óleo, sal, cuspo e outras coisas semelhantes como a ideia de que o batismo deve ser administrado duas vezes por ano com um grande número de cerimônias. Cremos que um só batismo da Igreja foi santificado na primeira instituição realizada por Deus, e que ele é consagrado pela Palavra, e é também eficaz ainda hoje, em virtude da primeira bênção de Deus.
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Comentário: Há um hábito perverso no homem caído que é de acrescentar ou tirar algo do que Deus instituiu, seja na sua Palavra, no seu culto e nos sacramentos. O homem caído busca novidades e inovações. Sempre que ele caminha nessa direção traz prejuízo, confusão na igreja e desonra para o santo nome de Deus. A forma do batismo foi estipulada na instituição do sacramento; Aquele que instituiu o santo batismo, também indicou e deixou a forma como deve ser realizado. O Senhor Jesus Cristo instituiu e abençoou o sacramento que substituiu a antiga circuncisão, e este novo selo tem também o mesmo significado que o antigo: Expressa e comunica as promessas da Aliança à todos quantos forem chamados por Deus para pertencer à Sua Congregação. O elemento é único: água. E a forma também é única: Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo - Mateus 28.19.
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O ministro do batismo
Ensinamos que o batismo não deve ser administrado na Igreja por mulheres ou por parteiras. São Paulo vetou à mulher os ofícios eclesiásticos. E o batismo pertence aos ofícios eclesiásticos.
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Comentário: Quanto aos ministros dos sacramentos, a Palavra é tão clara quanto poderia ser, vetando às mulheres esse ofício, como também o de governo, e ainda de ensino e pregação pública. Só não seguem essa prática os desobedientes e inovadores modernistas, que não honram a santa Palavra de Deus. O santo batismo deve ser administrado na congregação pelos oficiais da igreja, pois assim é a tradição apostólica legada a nós. Não deve ser visto como uma superstição e nem como uma condição para a salvação. No caso de uma criança que, possivelmente morreria sem tempo hábil para receber o batismo, não havendo a possibilidade de solicitar a sua administração aos oficiais, que a criança fique sem o batismo. É melhor obedecer a Deus do que inventar. Nesse caso não será o batismo que fará diferença. Bem como uma conversão de última hora como no caso do ladrão na cruz, não havendo tempo para o santo batismo, que se fique sem ele.
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Anabatistas
Condenamos os anabatistas, que negam que as criancinhas recém-nascidas dos fiéis devam ser batizadas. Mas, segundo o ensino evangélico, “dos tais é o Reino de Deus”, e as mesmas se encontram na aliança de Deus. Por que, então, não deve o sinal da aliança de Deus ser conferido a elas? Por que não devem aqueles que são propriedade de Deus e estão na sua Igreja ser iniciados pelo santo batismo? Condenamos os anabatistas em outras das suas doutrinas peculiares, que eles sustentam em oposição à Palavra de Deus. Não somos, portanto, anabatistas e nada temos em comum com eles.
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Comentário: O novo sinal da Aliança, agora sem o derramamento de sangue, deve ser colocado em todos os crentes e também em seus filhos, exatamente como era a circuncisão. Assim que os filhos dos crentes nascem devem receber a marca que identifica aqueles que creem e recebem as promessas da Aliança. O pensamento anabatista é que o batismo é uma decisão do homem e não de Deus, que é o homem quem deve escolher receber o selo ou não. Enquanto que o que vemos nas escrituras é o contrário, Deus é quem fala no batismo. É Deus quem diz quem deve receber o selo da sua Aliança, quem deve administrá-lo, como e quando deve ser realizado. Numa família que se converte ao Senhor, os pais devem receber o santo batismo após se arrependerem, crerem no Senhor Jesus e professarem a fé nele. Com eles, as crianças pequenas devem igualmente receber o selo da Aliança, exatamente como acontecia na circuncisão. Desde os apóstolos, quando um homem cria no Senhor, logo toda sua casa recebia o batismo - E batizei também a família de Estéfanas; além destes, não sei se batizei algum outro - 1a Coríntios 1.16.
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A Ceia do Senhor
A Ceia do Senhor - também chamada Mesa do Senhor e Eucaristia, isto é, Ação de Graças - é em geral chamada ceia porque foi instituída por Cristo em sua última ceia, e ainda a representa, e porque nela os fiéis são espiritualmente alimentados e dessedentados.
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Comentário: Esse sacramento que substituiu a Páscoa com seus sacrifícios de cordeiros, foi estabelecido pelo Senhor Jesus na mesma noite em que foi traído e entregue ao Sinédrio judaico, que iria julgá-lo e condená-lo à morte. A bênção que o Senhor pronunciou sobre o pão e o vinho naquela noite perduram até hoje e perdurarão até o fim. O pão e o cálice que compartilhamos, recebemos com ações de graças, porque já vêm com a bênção de Jesus Cristo. Comendo e bebendo com fé é como se estivéssemos comendo e bebendo com ele naquela noite histórica e ambivalente, pois foi terrível e ao mesmo tempo maravilhosa. Terrível porque o maior crime da humanidade seria cometido, onde o Filho de Deus seria julgado num tribunal humano injusto, na calada da noite. Maravilhosa porque o Cordeiro de Deus, seria imolado naquela que seria a última Páscoa, e encerraria definitivamente todo sacrifício sangrento e o costume milenar da Páscoa. Jesus é a nossa Páscoa.
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O autor e consagrador da Ceia
O autor da Ceia do Senhor não é nenhum anjo ou homem, mas o próprio Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, que primeiro a consagrou para sua Igreja. Essa consagração ou bênção ainda permanece entre todos quantos celebram não outra ceia, mas aquela mesma, que o Senhor instituiu e na qual eles recitam as palavras da Ceia do Senhor, e em tudo voltam o olhar com verdadeira fé para o único Cristo, e recebem, como de suas mãos, aquilo que recebem pelo ministério dos ministros da Igreja.
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Comentário: O sacramento já vem abençoado. A bênção pronunciada pelo Senhor Jesus naquela noite permanece e é o que faz toda a diferença entre a nossa Santa Ceia e a missa romanista. A crença romanista é que o sacrifício de Cristo precisa ser continuado e de certa forma prolongado pela consagração do pão feita pelos sacerdotes onde, segundo eles, os elementos se transformam essencialmente – o pão deixa de ser pão para ser corpo de Cristo e o vinho deixa de ser vinho para ser sangue de Cristo. O entendimento reformado é que não há qualquer transformação nos elementos, mas a bênção que o Senhor pronunciou na sua instituição é única e é ela que nos assegura que estamos participando do corpo e sangue de Cristo pela fé. Por isso ministros reformados não oram por transformação dos elementos mas apenas dão graças. Os que os recebem elevam seus corações a Cristo, que não está no pão, nem sob o pão, mas no céu.
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Um memorial das bênçãos de Deus
Por este rito sagrado o Senhor deseja manter em viva lembrança a maior bênção que concedeu aos mortais, a saber, que pelo dom do seu corpo e pelo derramamento do seu sangue ele perdoou todos os nossos pecados e nos redimiu da morte eterna e do poder do Diabo, e agora nos alimenta com a sua carne e nos dá a beber o seu sangue, os quais, recebidos espiritualmente com verdadeira fé, nos alimentam para a vida eterna. E essa bênção tão grande se renova tantas vezes quantas é celebrada a Ceia do Senhor. Eis o que disse o Senhor: “Fazei isto em memória de mim”. Esta santa Ceia sela, também, para nós, que o próprio corpo de Cristo foi verdadeiramente entregue por nós, e seu sangue vertido para remissão dos nossos pecados, a fim de que em nada a nossa fé venha a vacilar.
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Comentário: A Ceia do Senhor nos traz a memória a expiação realizada pelos nossos pecados, que é o maior benefício que um pecador pode receber. Tanto quanto no santo Batismo, assim também na santa Ceia do Senhor, a bênção que recebemos é aquela que o Senhor pronunciou no mesmo momento da sua instituição. O oficial ministrante pronuncia as palavras do Senhor sobre a mesa posta e todos os participantes, em fé, recebem aquela bênção de Jesus Cristo, pois aquela bênção é eterna. Assim, todos quantos participam com fé são alimentados pelo próprio Senhor Jesus. A todos quantos vêm à mesa da Eucaristia com coração rendido a Cristo, Ele mesmo lhes dá o alimento espiritual para suas almas. Ele instituiu a Ceia, também pronunciou a bênção sobre ela, que é eterna, e Ele mesmo mantém esse sacramento para sua própria glória. Lembramos que ele prometeu estar todos os dias conosco - E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos - Mateus 28.20, e de uma maneira muito especial prometeu estar no nosso meio quando nos reunimos em seu nome - Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles - Mateus 18.20. Assim, estando à mesa do Senhor, ele próprio se põe ali para nos ministrar e abençoar. Amém.
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O sinal e a coisa significada
E isto é visivelmente representado de modo exterior por este sacramento pelo ministrante e, como que exposto aos olhos para ser contemplado, aquilo que pelo Espírito Santo é concedido interiormente na alma de maneira invisível. O pão é exteriormente oferecido pelo ministro, e ouvem-se as palavras do Senhor: “Tomai, comei; este é o meu corpo”; e “Recebei e reparti entre vós. Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue”. Portanto, os fiéis recebem o que é dado pelo ministro do Senhor, e comem o pão do Senhor e bebem do cálice do Senhor. Ao mesmo tempo, pela obra de Cristo por meio do Espírito Santo, interiormente recebem também a carne e o sangue do Senhor e deles se alimentam para a vida eterna. Pois a carne e o sangue de Cristo são o verdadeiro alimento e a verdadeira bebida para a vida eterna; e Cristo mesmo, desde que foi entregue por nós e é nosso Salvador, é o principal elemento na Ceia, e não permitimos que nenhuma outra coisa seja colocada em seu lugar.
Mas, para que se compreenda mais retamente e com clareza como a carne e o sangue de Cristo são o alimento e a bebida dos fiéis, e são recebidos pelos fiéis para a vida eterna, acrescentaríamos estas poucas coisas. Há mais de uma espécie de comer. Há o comer corporal, pelo qual o alimento é posto pelo homem na boca, mastigado com os dentes e deglutido para o estômago. No passado, os cafarnaunenses acharam que a carne do Senhor devia ser comida desse modo, mas são refutados pelo próprio Senhor, em João, capítulo 6. Desde que a carne de Cristo não pode ser comida corporalmente, sem infâmia e selvageria, assim ela não é alimento para o estômago. Todos os homens são obrigados a admitir isso. Desaprovamos, portanto, o cânon nos decretos do Papa, Ego Berengariust (De Consecrat., Dist. 2). Nem a piedosa antiguidade cria, nem cremos nós que o corpo de Cristo possa ser corporalmente e essencialmente comido pela boca.
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Comentário: Que o pão e o vinho representam o corpo e o sangue de Cristo, fica muito claro na própria instituição desse sacramento. Naquela noite os discípulos comeram esses elementos, que certamente não foram transmutados quando o Senhor deu graças. A carne física do Senhor não foi comida naquela noite, obviamente, e nem algo do seu sangue foi provado. Após o Senhor Jesus pronunciar aquela bênção sobre o pão e sobre o vinho, aqueles elementos continuaram sendo puro pão e puro vinho. Algumas vezes, o silêncio nas escrituras, também nos ensina, e o silêncio dos discípulos nesse contexto fala muito alto, pois a carne com sangue e o sangue mesmo eram proibidos pela Lei. Logo não havia nada de físico naquele sacramento. Eles compreenderam que as palavras corpo e sangue naquele contexto eram apenas alusivos ao sacrifício de Cristo. Contudo pela fé e de modo espiritual comeram o corpo e beberam o sangue do Senhor.
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O comer o Senhor espiritualmente
Há também um comer espiritual do corpo de Cristo; não que pensemos que, por isso, o próprio alimento se mude em espírito, mas o corpo e o sangue do Senhor, embora permanecendo em sua própria essência e propriedade, nos são espiritualmente comunicados, certamente não de modo corporal, mas espiritual, pelo Espírito Santo, que aplica em nós e nos confere estas coisas que nos foram preparadas pelo sacrifício do corpo e do sangue do Senhor por nós, a saber, a remissão de pecados, o livramento e a vida eterna; de tal modo que Cristo vive em nós e nós vivemos nele, sendo que ele nos possibilita recebê-lo pela verdadeira fé para que possa tornar-se, para nós, esse alimento e bebida espirituais, isto é, nossa vida.
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Comentário: Ao dizer que o que recebemos quando comemos o pão e bebemos o vinho na Ceia do Senhor, recebemos algo espiritual, não estamos dizendo, obviamente, que os elementos sofrem outro tipo de mutação – isto é se tornem espirituais. Quando afirmamos que não há nenhuma mutação, significa que a substância dos elementos continuam essencialmente a mesma. No momento da administração do sacramento recebemos algo do Espírito Santo à parte dos elementos físicos.
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Cristo, como nosso alimento, sustenta-nos a vida
Assim como o alimento e a bebida corporal não só refazem e fortalecem nossos corpos, mas também os conservam vivos, também a carne de Cristo, entregue por nós e seu sangue vertido por nós não só refazem e fortalecem nossas almas, mas também as conservam vivas, não na medida em que sejam corporalmente comidos e bebidos, mas na medida em que nos são comunicados espiritualmente pelo Espírito de Deus, como diz o Senhor: “O pão que darei pela vida do mundo, é a minha carne” (João 6.51), e “a carne” (sem dúvida, corporalmente comida) “para nada aproveita; o espírito é o que vivifica” (v. 63). E mais: “As palavras que eu vos tenho dito, são espírito e são vida”.
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Comentário: Quando participamos da Santa Ceia do Senhor, temos o pão e o cálice de vinho diante de nós; vemos esses elementos com nossos olhos, tocamo-los com as mãos, levamo-los à boca e os comemos. Nosso corpo físico recebe um verdadeiro alimento, que lhe sacia a fome, dá-lhe novas energias e o mantém vivo e saudável. Enquanto isso, o Espírito Santo opera as mesmas coisas dentro de nós. Essa obra é invisível, mas de fato comemos a carne e bebemos o sangue de Cristo; nossa alma é alimentada, saciada, fortalecida e mantida viva. Isto, não por causa dos elementos físicos que ingerimos, mas pela verdadeira fé. Por isso é estultice afirmar que, para que nossa alma seja alimentada, saciada, fortalecida e mantida viva, seja necessário que os elementos sofram mutações e sejam transubstanciados. Ao participarmos da Santa Eucaristia nossos corações devem estar em Cristo, não nos elementos físicos, nem na própria cerimônia, nem no ministrante, mas em Cristo somente. É ele, o verdadeiro Pão do céu, que nos é comunicado pelo Espírito Santo.
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Cristo recebido pela fé
E como devemos, pelo comer, receber alimento em nossos corpos para que ele atue em nós e prove a sua eficácia em nós – visto que ele não é de comum proveito quando retido fora de nós – assim é necessário que recebamos Cristo pela fé, para que ele se torne nosso e viva em nós e nós nele. Pois, ele diz: “Eu sou o pão da vida; o que vem a mim, jamais terá fome; e o que crê em mim, jamais terá sede” (João 6.35); e também: “Quem de mim se alimenta, por mim viverá... permanece em mim e eu nele” (vs. 57, 56).
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Comentário: A fé não é estática mas ativa, tem fome e come. Por isso o Senhor nos disse que precisamos comer dele pela fé. A verdadeira fé leva a nos entregar em oração e adoração ao Senhor. Adorar é reconhecer que somente ele é Deus e portanto digno da nossa adoração, é assentir nossa união com ele, professar a nossa fé nele, proclamar com nossos lábios e nos apropriar daquilo que nos é oferecido, o Cristo vivo. Fazendo isso estaremos, de fato, nos alimentando do Pão da Vida.
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Alimento espiritual
De tudo isto, fica claro que por alimento espiritual não queremos dizer algum alimento imaginário que não se sabe bem o que seja mas o próprio corpo do Senhor dado por nós, que entretanto é recebido pelos fiéis não corpórea, mas espiritualmente pela fé. Nesta questão seguimos o ensino do próprio Salvador, Cristo o Senhor, segundo João, cap. 6
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Comentário: Tudo na vida cristã é conhecido e recebido pela fé. Tudo começa com Cristo que é recebido pela fé, mas é fé em coisas palpáveis, quero dizer que o Cristianismo não é uma lenda, fruto duma imaginação, nem uma superstição. Também não se fala de algo que ocorreu nalgum lugar qualquer e que teve uma única pessoa por testemunha. Não. Nossa fé tem conteúdo histórico e está encravada na História da humanidade. Não há como estudar a História secular sem encontrar a história eclesiástica. Quando os apóstolos escreveram eles falaram de coisas que viram, ouviram, tocaram. Eles foram testemunhas oculares do cumprimento de centenas de profecias e promessas de Deus. Quando falamos da Santa Ceia lembramos as figuras do Antigo Testamento: a Páscoa e o Maná. Relembramos a Páscoa instituída quando os israelitas estavam ainda no Egito que foi incorporada pelas leis cerimoniais em Israel. Ela apontava para o Messias que daria sua vida para nos salvar. Por centenas de anos o antigo povo de Deus sacrificou os cordeiros em cada (Pessach) Páscoa crendo que um dia viria o verdadeiro Cordeiro de Deus. Ele veio e quando veio disse ser também o Pão do céu tipificado pelo Maná que caiu no deserto por quarenta anos, o maior e mais longo milagre de toda a história, que alimentou fisicamente um povo de mais de um milhão de pessoas por quatro décadas nos desertos. Tudo isto é história. Quando tomamos o pão da Santa Ceia, aquelas figuras históricas vêm à nossa memória, lembrando-nos que isto não é superstição, mas real. Cristo é real, ele é o antítipo do cordeiro e do maná. O maná alimentou o povo, assim também os cordeiros imolados o fizeram. Cristo é o verdadeiro Pão e o verdadeiro Cordeiro cuja carne e sangue são reais e foram de fato dados a nós. Não há qualquer necessidade dos elementos serem transubstanciados. Basta-nos a memória daqueles fatos reais, assim comer e beber com fé, alegria e gratidão. Amém.
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O comer é necessário à salvação
E este comer da carne e beber do sangue do Senhor é tão necessário à salvação, que sem ele, nenhum homem pode ser salvo. Mas este comer e beber, espiritualmente, ocorrem também à parte da Ceia do Senhor, sempre e onde quer que o homem creia em Cristo. A isto talvez se aplique a frase de Santo Agostinho: “Por que preparas os dentes e o estômago? Crê e terás comido”.
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Comentário: O Senhor Jesus disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos - João 6.53. Logo, ninguém pode ter a vida de Cristo em si se não se alimentar dele. É necessidade sine qua non comer do Cordeiro. Contudo, esse comer não ocorre apenas quando nos chegamos a mesa do Senhor, mas sempre que entramos em sua presença a cada dia em adoração. Aqui lembramos da figura do maná, o pão diário que caía no arraial do povo da Aliança. Hoje esse alimento está a nossa disposição em todo tempo, onde quer que estejamos. Maná escondido para todos quantos se arrependem e ouvem o que o Espírito diz as igrejas.
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O comer sacramental do Senhor
Além do comer altamente espiritual há também o comer sacramental do corpo do Senhor, pelo qual o crente participa não só espiritual e interiormente do verdadeiro corpo e sangue do Senhor, mas também, pela aproximação à Mesa do Senhor, recebe externamente o sacramento visível do corpo e do sangue do Senhor. Sem dúvida alguma, já antes, quando creu, recebeu o crente o alimento que lhe dá a vida, e ainda o usufrui. Portanto, quando ele agora recebe o sacramento não é que não receba algo. Pois ele progride na comunicação contínua do corpo e do sangue do Senhor, e assim sua fé se aviva e se desenvolve mais e mais, sendo revigorada pelo alimento espiritual. Enquanto vivemos, nossa fé aumenta continuamente. Ora, aquele que, externamente, recebe o sacramento com verdadeira fé, não recebe apenas o sinal, mas também, como dissemos, desfruta a própria realidade. Além disso, obedece ele à instituição e ao mandamento do Senhor, e com mente alegre rende graças pela própria redenção e a da humanidade toda, realizando uma fiel comemoração da morte do Senhor, dando testemunho diante da Igreja, de cujo corpo é membro. Assegura-se também, aos que recebem o sacramento que o corpo do Senhor foi dado e seu sangue derramado, não apenas pelos homens em geral, mas, particularmente por todo fiel comungante, para quem ele é alimento e bebida para a vida eterna.
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Comentário: “Crê e terás comido”, disse Santo Agostinho e não poderia ser diferente disso, porque nos alimentamos de Cristo não apenas quando recebemos os elementos da Eucaristia, mas somos alimentados pela sua Palavra, sua comunhão, adorando-o. O comer da carne de Cristo e beber de seu sangue são atos literais e reais, embora não físicos. Certamente somos alimentados dele ao ingerir os elementos da Eucaristia, mas nosso comer e beber não se limitam à participação dela. A eventual não participação da Eucaristia não pode comprometer a nossa salvação. A salvação não está atrelada à Eucaristia, mas sim ao comer e beber de Cristo. Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos - João 6.53. Ainda que esse comer e beber estejam presentes na Eucaristia, podemos e devemos desfrutá-los também fora dela. Até porque participamos da Eucaristia a cada mês ou dois meses e precisamos desse alimento todos os dias. Mesmo que comamos o pão e o cálice juntos todos os Domingos, ainda precisamos comer do Pão da vida cada dia, por toda nossa vida. Quando estamos reunidos na congregação do Senhor para a celebração da Eucaristia naturalmente que somos alimentados de modo especial, porque o Senhor que a instituiu, está conosco todos os dias da nossa vida, e de modo especial quando nos reunimos em seu nome para adorá-lo. Amém.
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Os incrédulos recebem o sacramento para seu julgamento
Mas, aquele que se aproxima da sagrada Mesa do Senhor sem fé, participa somente do sacramento e não recebe a essência do sacramento, de onde provém vida e salvação; e tais pessoas participam indignamente da Mesa do Senhor. Ora, os que comem o pão e bebem o cálice do Senhor de modo não digno, tornam-se culpados do corpo e do sangue do Senhor comendo e bebendo para si mesmo condenação (1a Co 11.26-29). Não se aproximando com verdadeira fé, desonram a morte de Cristo e, consequentemente, comem e bebem condenação para si mesmos.
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Comentário: A Ceia do Senhor é exclusiva para os santos dos Senhor. Nenhum ímpio ou descrente está convidado. Somente devem vir aqueles creem verdadeiramente em Cristo. A carne do Cordeiro é para quem crê no Cordeiro. Somos advertidos pelo apóstolo sobre o perigo da participação indevida. O que nos foi dado como bênção se torna em juízo. O mesmo sangue que salva uns condena outros. O que foi bênção para os apóstolos foi maldição para Judas. Nesse sentido os oficiais podem e devem supervisionar a mesa do Senhor e orientar aos participantes sobre a gravidade de estarem se aproximando de forma inapropriada da Mesa do Senhor.
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A presença de Cristo na Ceia
Nós, pois, não identificamos o corpo do Senhor e seu sangue com o pão e o vinho a ponto de dizer que o próprio pão é o corpo de Cristo, exceto no sentido sacramental; ou que o corpo de Cristo está oculto corporeamente sob o pão, de modo que deve ser adorado sob a forma de pão; ou ainda que, quem quer que receba o sinal, recebe também a própria realidade. O corpo de Cristo está nos céus, à mão direita do Pai; e, portanto, nossos corações devem elevar-se para o alto e não se fixarem no pão, nem deve o Senhor ser adorado no pão. Contudo, o Senhor não está ausente de sua Igreja, quando esta celebra a Ceia. O sol, que está afastado de nós, nos céus, encontra-se, entretanto, efetivamente presente em nosso meio. Quanto mais o Sol da justiça, Cristo, embora estando ausente de nós nos céus, pelo seu corpo, não estará presente conosco, não corporal, mas, espiritualmente, pela sua operação vivificadora, como ele mesmo declarou, por ocasião da última Ceia, que haveria de estar presente conosco (João, caps. 14, 15 e 16). Decorre daí que não temos uma Ceia sem Cristo, mas uma Ceia incruenta e mística, como foi universalmente chamada pela antiguidade.
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Comentário: O Senhor está física e pessoalmente no céu e espiritualmente está conosco. O ensino de que o pão e o vinho se transformam na carne e sangue do Senhor não faz o menor sentido para nós. Nem o ensino que afirma que sua carne está corporeamente sob o pão. E achamos absurda a ideia de que quem come o pão recebe dentro de si o próprio Cristo. Os romanistas adoram a hóstia e o ostensório como se Cristo estivesse ali presentemente. Isso é má compreensão das palavras do Senhor e passa a ser uma superstição e idolatria. Celebramos a Santa Ceia não sem Cristo, mas em sua presença, lembrando tudo o que ele padeceu por nós para expiar os nossos pecados e suas palavras: Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre: e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo - João 6.51.
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Outros propósitos da Ceia do Senhor
Além do mais, na celebração da Ceia do Senhor, somos admoestados a estarmos conscientes de cujo corpo nos tornamos membros, e portanto, a sermos uma só mente com todos os irmãos; a viver uma vida santa e a não nos corrompermos com a iniquidade e com religiões estranhas; mas, perseverando na verdadeira fé até o fim da vida, esforçarmo-nos para alcançar a excelência da santidade de vida.
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Comentário: Somos membros do Corpo de Cristo e membros uns dos outros. Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo por que todos participamos do mesmo pão - 1a Coríntios 10.17. Esse pensamento deve estar em nossa mente, isto nos ajuda a preservar a unidade do corpo de Cristo. Por isso também que a Santa Ceia só deve administrada aos membros do corpo de Cristo, no culto solene da congregação dos santos e não particularmente.
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Preparação para a Ceia
Convém, portanto, que tendo de participar da Ceia, primeiro examinemo-nos a nós mesmos, segundo o mandamento do apóstolo, especialmente quanto à fé que temos, se cremos que Cristo veio para salvar os pecadores e chamá-los ao arrependimento, e se cremos que pertencemos ao número dos que foram libertados e salvos por Cristo; e se estamos resolvidos a mudar nossa vida ímpia, a fim de levarmos uma vida santa e, com o auxílio do Senhor, a perseverar na verdadeira religião e na harmonia com os irmãos, e a render graças devidas a Deus pelo seu livramento.
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Comentário: Um constante autoexame na vida do cristão é indispensável para verificar se permanece no ensino do Senhor, se está crescendo em graça e se tornando mais parecido com Jesus Cristo. E sempre que nos aproximamos da mesa do Senhor devemos trazer à memória os atos e mistérios da redenção e renovarmos nossos votos de fidelidade e integridade contando com a assistência do Espírito Santo.
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A observância da Ceia com pão e vinho
Julgamos que o rito, a maneira ou forma da Ceia mais simples e excelente seja aquela que mais se aproxime da primeira instituição do Senhor e da doutrina dos apóstolos. Consiste na proclamação da Palavra de Deus, em orações piedosas, na ação do Senhor mesmo, e em sua repetição, comendo do corpo do Senhor, e bebendo de seu sangue; relembrando a morte do Senhor e numa fiel ação de graças; e numa santa participação na união do corpo da Igreja.
Desaprovamos, pois, os que privaram os fiéis de um dos elementos do sacramento, a saber, do cálice do Senhor. Estes pecam seriamente contra a ordem do Senhor, que diz: Bebei dele todos; o que ele não disse de modo tão expresso a respeito do pão.
Não estamos discutindo, agora, que espécie de missa existiu outrora entre os antigos, se deve ser tolerada ou não. Mas, dizemos isto abertamente: a missa agora usada em toda a Igreja Romana foi abolida em nossas igrejas por muitas e boas razões, as quais, para sermos breves, não enumeraremos agora em pormenores. Não poderíamos aprovar a mudança de uma ação salutar em um espetáculo inútil, e num meio de alcançar mérito, e celebrado por um preço. Nem poderíamos aprovar a afirmação de que na mesma, o sacerdote efetua o próprio corpo do Senhor, e realmente o oferece pela remissão dos pecados dos vivos e dos mortos, e ainda para a honra, veneração e lembrança dos santos no céu, etc.
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Comentário: Então o Sacramento da Eucaristia lembra a Aliança entre Deus e Seu povo. Sendo assim, apenas aqueles que fazem parte dessa Aliança é que devem recebê-lo. Tão somente aqueles que têm consciência do significado da Aliança são chamados a participar dessa refeição sagrada. O Senhor está sempre conosco, todos os dias, mas ele prometeu estar de maneira especial quando a Congregação se reúne em Seu nome. Sua presença santa se manifesta de maneira muito especial quando celebramos a Santa Ceia. É preciso ter consciência do imenso privilégio que é ser chamado à Ceia de Cristo. E também que a responsabilidade é tão grande quanto o privilégio. Uma aliança inclui benefícios e obrigações. Logo o Senhor adverte que nenhum “incircunciso” se aproxime. Se o fizer, receberá maldição em vez de bênção. O Cristo vivo está presente de maneira especial todas as vezes que nos reunimos em Seu nome, e está de maneira muito especial na hora da santa comunhão, todavia sua presença não é física e sim espiritual. Não há nada de supersticioso na Sagrada mesa. Vale lembrar que a Palavra de Deus é mais importante do que a própria Eucaristia, porque sem a Palavra não haveria nem Igreja e nem Eucaristia. Dizemos isso para alertar aqueles que supõem que perder a ministração da Palavra não é tão grave, mas perder a Eucaristia sim. Na verdade quem, por desprezo e falta de zelo, não participa regularmente da ministração da Palavra, também não deveria participar da Santa Comunhão, porque já está em pecado. Sendo o próprio Cristo quem estabeleceu a Eucaristia, dando o pão e o cálice a todos os discípulos, está claro que esse rito deve seguido à risca. Não importa quantas pessoas estejam presentes, se poucas ou muitas, todos devem receber uma fração do pão e ao menos um gole de vinho. Assim o Senhor fez, assim devemos prosseguir fazendo. Quanto a missa romana e intercessão pelos mortos já foi dito que são atos completamente discrepantes da sã doutrina, contra os preceitos do Senhor.
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22. Do culto e das reuniões na Igreja
Como deve ser o culto
Embora se permita a todos os homens lerem as Escrituras particularmente em casa, pela instrução edificando-se mutuamente na verdadeira religião, no entanto, para que a Palavra de Deus seja anunciada convenientemente ao povo, e se façam publicamente orações e súplicas, bem como sejam os sacramentos administrados de modo próprio, e se levantem ofertas para os pobres e para o pagamento de todas as despesas da Igreja, e para a conservação das relações sociais, é muito necessário que se mantenham as reuniões de culto ou da Igreja. Pois, é certo que na Igreja apostólica e primitiva, havia tais assembleias, frequentadas por todos os piedosos.
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Comentário: A congregação é um mandamento para a Igreja do Senhor. As convocações para as assembleias solenes são encontradas tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Deus deve ser em extremo tremendo na assembleia dos santos e grandemente reverenciado por todos os que o cercam - Salmo 89.7; Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes, admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia - Hebreus 10.25. Há bênçãos na congregação. O Senhor Jesus foi assíduo à Sinagoga conforme a tradição - E, chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga, e levantou-se para ler - Lucas 4.16. Ele sempre anda entre as igrejas locais - E no meio dos sete castiçais um semelhante ao Filho do homem, vestido até aos pés de um vestido comprido, e cingido pelos peitos com um cinto de ouro - Apocalipse 1.13.
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As reuniões para culto não devem ser negligenciadas
Todos quantos negligenciam as reuniões de culto, delas ficando ausentes, desprezam a verdadeira religião, devendo ser exortados pelos pastores e magistrados piedosos para não continuarem ausentes dos cultos.
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Comentário: O Espírito Santo chama aos eleitos e os agrega à Congregação do Senhor, que é o aprisco das ovelhas. Logo, congregar é o costume dos cristãos desde sempre. Ele disse que estaria conosco todos os dias até o fim dos séculos, assistindo-nos todos os dias, o dia todo, onde quer que estejamos. Mas de uma forma diferente estaria conosco quando estivéssemos reunidos em Seu nome, isto é, congregados. O Senhor também nos adverte através de seu apóstolo que não deixemos a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia - Hebreus 10.25. Ainda o Senhor nos diz no Salmo 133 que na Congregação do Senhor ele ordena sua bênção e a vida para sempre. A Igreja é uma congregação, portanto deve reunir-se frequentemente, sistematicamente. É na congregação que ouvimos a pregação da Palavra de Deus, recebemos os sacramentos por ele ordenados; ali recebemos também a disciplina que é absolutamente necessária para o nosso crescimento espiritual e santificação; e ainda servimos aos demais membros do Corpo de Cristo. Não existe congregação que não se reúna, nem é cabível um membro da congregação não congregante. Obviamente que sendo uma ordenação do Senhor ninguém deveria desprezar, pois há grandes bênçãos na congregação pois o Senhor Jesus disse que estaria presente nelas. O Senhor está na Igreja.
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As reuniões devem ser públicas
As reuniões da Igreja não devem ser ocultas ou às escondidas, mas públicas e bem frequentadas, a não ser que a perseguição movida pelos inimigos de Cristo e da Igreja não permita que sejam públicas. Pois, sabemos como sob a tirania dos imperadores romanos, as reuniões da Igreja Primitiva realizavam-se em lugares secretos.
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Comentário: As reuniões públicas testemunham que o Senhor está no nosso meio. O culto deve ser público tanto quanto possibilitem as leis de cada lugar. O culto solene é didático, ensina sobre o Deus que adoramos e como devemos adorá-lo. É pedagógico fala sobre o Aquele que está em nosso meio e como o servimos. O culto fala sobre o Deus que está sendo adorado. E a adoração pública é também um grande método de evangelização.
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Lugares decentes de reunião
Além disso, os lugares onde os fiéis se congregam devem ser decentes, e em tudo próprios para a Igreja de Deus. Portanto, devem-se escolher prédios com bastante espaço ou templos, mas expurgados de tudo o que não seja adequado a uma Igreja. E tudo deve concorrer para o decoro, a necessidade e a piedosa decência, a fim de que nada fique faltando, nada que seja indispensável ao culto e às obras necessárias da Igreja.
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Comentário: O lugar onde a congregação se reúne para adorar deve ser tão apropriado quanto possível. Um lugar que não chame a atenção pelo luxo, pelas cores, mas pela simplicidade. Tudo quanto distrai as pessoas não deve estar no culto, pois nossa atenção deve ser levada a Cristo e à sua Palavra. Também convém lembrar que congregações muito grandes podem facilitar a distração e distanciamento mental. Quanto maior a reunião de pessoas tanto maior será a movimentação, o que dificulta o silêncio e concentração necessários na adoração. Tendo isto em foco, duas congregações menores é melhor do que uma grande congregação.
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Nas reuniões, devem-se observar a modéstia e a humildade
E como cremos que Deus não habita em templos feitos por mãos, também sabemos que, por causa da Palavra de Deus e do uso sagrado, os lugares dedicados a Deus e ao seu culto não são profanos, mas sagrados, e os que neles estão presentes devem conduzir-se com reverência e com modéstia, reconhecendo que se encontram em lugar sagrado, na presença de Deus e de seus santos anjos.
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Comentário: Para entrar na presença de Deus o adorador deve vestir-se decentemente e portar-se com total modéstia e reverência. Embora a indumentária não faça parte do culto, pode dizer muito sobre o Deus que adoramos. Por outro lado é interessante lembrar que o lugar do culto não é um santuário, mas o hábito de diferenciar esse ambiente dos ambientes profanos é saudável, especialmente para as crianças. Não lhes deve ser permitido comportar-se no lugar onde os santos se reúnem, para entrar na presença de Deus, com um lugar qualquer fora dali. Os pequeninos devem perceber a diferença entre esse lugar e uma praça de recreações. Eles precisam ser ensinados que ali não é lugar de comer e beber, correr e saltar.
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A verdadeira ornamentação dos santuários
Portanto, todo aparato, orgulho e tudo o que seja impróprio à humildade, à disciplina e à modéstia cristã, deve ser banido dos santuários e lugares de oração dos cristãos. Pois, a verdadeira ornamentação das igrejas não consiste em marfim, ouro e pedras preciosas, mas na frugalidade, na piedade e nas virtudes daqueles que estão na Igreja. Que todas as coisas sejam feitas com decência e ordem na igreja e, finalmente, que todas as coisas concorram para a edificação.
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Comentário: Quando nos reunimos para entrar na presença de Deus precisamos considerar o imenso privilégio desse ato e a tremenda responsabilidade que temos e então fazê-lo reverentemente. A reverência começa quando consideramos quem é Deus e quem somos nós. Aqui abaixo estão homens pecadores com o propósito de entrar nas alturas celestiais para adorar o terrível e glorioso Deus. Reconhecemos que só poderemos fazê-lo exclusivamente por meio do Senhor Jesus Cristo. Não há lugar para a vaidade humana nem trivialidades ou qualquer coisa que não combine com o sacro ambiente celestial. Não apenas durante as solenidades mas homens e mulheres de Deus devem ter uma vida simples e modesta, pois é este estilo de vida que mais combina com a fé que professamos. O estilo de vida e comportamento do crente deve ornar a doutrina que professamos.
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Culto na linguagem comum
Calem-se, pois, todas as línguas estranhas nas reuniões de culto, e sejam todas as coisas expressas na língua do povo, compreendida por todas as pessoas presentes.
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Comentário: Obviamente que tudo que é feito e falado no culto solene deve ser compreensível aos adoradores. Cada circunstante deve saber o que está sendo feito e falado na liturgia. Até mesmo nos primórdios da igreja quando estavam presentes os dons espetaculares a ordem apostólica era que tudo devia ser compreendido por todos - E agora, irmãos, se eu for ter convosco falando línguas estranhas, que vos aproveitaria, se vos não falasse ou por meio da revelação, ou da ciência, ou da profecia, ou da doutrina? - 1a Coríntios 14.6. Assim, a liturgia do serviço sagrado deve feita na língua local.
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23. Das orações da Igreja, do cântico e das horas canônicas
Vernáculo
Certo é que se permite a quem quer que seja orar em particular em qualquer língua que entenda, mas as orações públicas nas reuniões de culto devem ser feitas em vernáculo, a língua conhecida do povo.
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Comentário: Como já vimos anteriormente que tudo quanto se faz no culto solene deve ser compreensível aos adoradores participantes. Cada circunstante deve saber o que está sendo feito e falado na congregação. Usar palavras desconhecidas do povo local é proibido pelas próprias escrituras. Assim nos ensina o apóstolo - Assim também vós; se com a língua não pronunciardes palavras bem inteligíveis, como se entenderá o que se diz? Porque estareis como que falando ao ar… Todavia eu antes quero falar na igreja cinco palavras na minha própria inteligência, para que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras em língua desconhecida - 1a Coríntios 14.9,19. Desta forma lembremos que sempre que Deus falou com os homens o fez em linguagem a eles conhecida. A confusão das línguas em Babel lembra o juízo de Deus sobre aqueles rebeldes. Outra vez Deus, ao trazer juízo sobre o rei de Babilônia, escreveu em língua estranha, que precisou da interpretação do profeta Daniel. No dia do Pentecostes novamente o sinal de línguas representava o juízo sobre a nação dos judeus, que se consideravam os únicos escolhidos de Deus. Ali Deus proclama seu juízo sobre Israel e a transferência do reino aos gentios. Gentios de toda a terra devem receber o Evangelho e a pregação em seus próprios idiomas. Que se leia a Bíblia, pregue, cante e ore a Bíblia, mas sempre no dialeto corrente.
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Oração
Que todas as orações dos fiéis sejam dirigidas somente a Deus, pela mediação única de Cristo, procedentes da fé e do amor. O sacerdócio de Cristo, o Senhor, e a verdadeira religião proíbem invocar os santos no céu, ou usá-los como intercessores. Devem-se fazer orações pelos magistrados, pelos reis e por todos quantos estão investidos de autoridade, pelos ministros da Igreja e por todas as necessidades das igrejas. Em calamidades, especialmente em se tratando da Igreja, deve-se orar sem cessar, tanto em particular como publicamente.
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Comentário: O Senhor Jesus nos ensina a orar em seu nome. Cristo é o Mediador e Sumo Sacerdote. É por seu intermédio e em seu nome que nos aproximamos de Deus. Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem - 1ª Timóteo 2.5. Dito isto fecha-se o assunto. Oração bíblica, cristã, é dirigida a Deus em nome do Senhor Jesus Cristo ou dirigida ao próprio Senhor Jesus. Quanto ao mais, isto é, invocação de outros deuses ou de outros mediadores, é oração pagã e supersticiosa. Os cristãos são os únicos que realmente oram e são os únicos recebidos diante de Deus, por causa do Mediador. Por isso Deus diz para que façamos orações por todos os homens, tanto pelos crentes quanto pelos incrédulos, pois Deus decretou realizar muitas coisas mediante a oração dos Seus santos - E veio outro anjo, e pôs-se junto ao altar, tendo um incensário de ouro; e foi-lhe dado muito incenso, para o pôr com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que está diante do trono. E a fumaça do incenso subiu com as orações dos santos desde a mão do anjo até diante de Deus. E o anjo tomou o incensário, e o encheu do fogo do altar, e o lançou sobre a terra; e houve depois vozes, e trovões, e relâmpagos e terremotos - Apocalipse 8.3-5.
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Oração livre
Ademais, deve a oração ser voluntária, sem constrangimento e não buscar recompensa. Não convém mesmo que se limite, supersticiosamente a oração a um lugar, como se não fosse permitido orar em qualquer lugar, exceto num templo. Nem é necessário que as orações públicas sejam as mesmas quanto à forma e ao tempo, em todas as igrejas. Que cada igreja use de liberdade neste sentido. Diz Sócrates, em sua história: “Em todas as regiões do mundo não encontrareis duas igrejas, que concordem inteiramente quanto à oração” (Hist. Ecclesiast – v. 22,57). Os autores de tais diferenças – é de supor-se – foram aqueles, que se encontravam à frente das igrejas em certas ocasiões. No entanto, se concordam, recomenda-se com insistência que o exemplo seja imitado por outras.
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Comentário: A oração é um canal aberto para o homem chegar à mesma presença de Deus. Assim como a Bíblia nos ensina sobre como adorar a Deus, também nos ensina como orar, pois esta é uma parte da adoração. Devemos nos aproximar de Deus com humildade, reconhecendo quem somos e quem ele é. Então entrar na sua augusta presença com toda reverência e por meio do único nome que nos foi dado, o de seu Filho, Jesus Cristo. Quanto se a oração for escrita ou improvisada, se feita num lugar ou noutro, isso não fará diferença. Obviamente que um lugar solitário e silencioso facilita a concentração daqueles que oram. Contudo o importante é que “os homens orem em todo o lugar, levantando mãos santas, sem ira nem contenda” - 1a Timóteo 2.8.
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O método para as orações públicas
Como em todas as coisas, também nas orações públicas deve haver um padrão, a fim de que não se tornem longas demais e cansativas. A maior parte das reuniões de culto deve, portanto, destinar-se ao ensino evangélico, tomando-se o cuidado para que a congregação não se aborreça com as orações muito longas, de forma que ao chegar a hora de ouvir a pregação do Evangelho, os presentes, já exaustos, deixem a reunião ou queiram suprimi-la. Para tais pessoas o sermão parece muito longo, quando de outra forma, seria breve. Convém pois, que os pregadores saibam manter a medida.
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Comentário: Há muitas superstições com respeito à oração. Formas e regras governam as orações de muitos dentre o povo de Deus. A oração é muito simples, mas também séria e de grande responsabilidade. Como já vimos Deus decretou fazer muitas coisas mediante as orações de seus filhos, especialmente da sua Congregação. Há coisas que Deus nos dá quer oremos quer não e há coisas que ele nos dá apenas mediante a oração. Há muitas coisas que Deus faz independente das orações do seu povo mas há coisas que ele só fará desde que seu povo ore. Tudo, porém, está dentro da Providência e governo de Deus. As superstições começam quando querem fazer métodos ou técnicas humanas para se orar, quando se supõe que a oração feita em determinados lugares se torna mais eficaz do que a falada em outros lugares. Muitos supõem que muitas pessoas orando juntas há mais poder na oração, como se ela fosse uma energia liberada e quanto maior a multidão maior o poder. Tiram o foco de Deus e põem-no na oração. Não apenas a oração, mas tudo quanto os filhos de Deus fazem, deve ser livre, espontâneo, voluntário. Nossas orações e tudo o mais que fazemos para adorar a Deus só tem valor se for de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todas as nossas forças e todo o nosso entendimento. No culto solene a oração tem um lugar importante, pois nosso culto é pactual - o Noivo fala e a Noiva responde com orações e louvores. Contudo a oração na Assembleia não deve tomar todo o tempo, deixando pouco tempo para a pregação, afinal, a Noiva tem mais que ouvir do que falar. Contudo, isso também não é regra, mas apenas bom senso.
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Cântico
De igual forma, deve o cântico ser usado com moderação no culto. O Cântico chamado Gregoriano encerra muitas coisas tolas; daí com justa razão ser ele rejeitado por muitas de nossas igrejas. Não se deve condenar as igrejas, que embora tendo bom sermão não têm um bom cântico. Nem todas podem contar com a vantagem de ter boa música. Sabemos pelo testemunho da antiguidade que se o hábito de cantar é muito velho nas Igrejas Orientais, só tardiamente foi aceito no Ocidente.
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Comentário: Não devemos supor que louvor significa necessariamente cantar. A essência do louvor é a proclamação dos atributos e das obras de Deus. Isso pode cantado, mas também pode ser simplesmente falado ou declamado. A ideia do louvor é elogiar, engrandecer e expressar nosso reconhecimento e gratidão a Deus pelo que ele é e pelo que faz. Então a musicalidade não é essencial para se louvar a Deus, mas pode ser usada em certa medida. A música pode ser proveitosa para nós memorizarmos o que cantamos da Palavra de Deus, mas ela não é necessária. Já os instrumentos musicais são totalmente descartáveis uma vez que mais atrapalham do que auxiliam no verdadeiro louvor. No Novo Testamento nós somos as harpas vivas tocadas pelo Espírito Santo e louvando ao nosso Deus.
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Horas canônicas
A antiguidade nada conhecia das horas canônicas, isto é, das orações preparadas para certas horas do dia, cantadas ou recitadas pelos papistas, o que se comprova pelos seus breviários e por outras fontes. Há nelas não poucos absurdos, dos quais nada direi mais; são elas, com razão, omitidas pelas igrejas que colocaram em seu lugar coisas benéficas para toda a Igreja de Deus.
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Comentário: Nosso culto, então, é uma conversa entre o Noivo e a Noiva, um diálogo pactual entre Deus e Sua Congregação. Deus fala e a Congregação responde em obediência, sujeição reverente, através de orações e louvores de salmos. Contudo o tempo para ouvirmos Deus deve ser sempre maior do que o tempo da nossa resposta. Quando Deus chamava a Sua Congregação ao Tabernáculo porque tinha algo a dizer, o povo apenas ouvia e em seu coração assentia. A estrutura do culto que encontramos em Atos dos Apóstolos é: ... perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações... - 2.42. Doutrina – Exposição da Palavra de Deus; comunhão – especialmente congregar; partir do pão – sacramentos, batismo e santa ceia; oração – orações públicas. Os cânticos nem mesmo são aqui mencionados. Logo, embora os cânticos sejam oportunos e tenham seu lugar, não devem tomar a maior parte do culto solene. Por sua vez os instrumentos musicais são totalmente dispensáveis. Jamais os instrumentos inanimados devem tomar o lugar das harpas vivas nos cânticos congregacionais. Instrumentos físicos em nada ajudam numa adoração espiritual.
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24. Dos dias santos, dos jejuns e da escolha dos alimentos
O tempo necessário para o culto
Embora não esteja a religião limitada pelo tempo, contudo não pode ser cultivada ou praticada sem distribuição e arranjo próprio do tempo. Toda igreja, portanto, escolhe determinado horário para as orações públicas, a pregação do Evangelho e a celebração dos sacramentos, não sendo permitido a ninguém transtornar esse horário da igreja a seu bel prazer. Pois, a não ser que algum tempo livre seja reservado ao exercício da religião, sem dúvida os homens absorvidos pelos seus negócios, estariam afastados dela.
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Comentário: Para o seu antigo povo, no Antigo Testamento, Deus mesmo estabeleceu os dias em que deviam observar as festas religiosas e as congregações solenes. Três festas principais por ano, observadas em Jerusalém, acrescidas dos dias de shabat observados em todo Israel. Na era do Novo Testamento temos o ensino da observação do primeiro dia da semana, o dia da ressurreição, iniciado pelos apóstolos inspirados do Senhor.
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O Dia do Senhor
Por isso vemos que nas igrejas antigas não havia apenas certas horas da semana destinadas às reuniões, mas que também o Dia do Senhor, desde o tempo dos apóstolos, fora separado para as mesmas, e para o santo repouso, prática essa, acertadamente preservada por nossas igrejas para fins de culto e serviço de amor.
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Comentário: Os apóstolos, profetas do Senhor, guiados e instruídos pelo Espírito Santo, estabeleceram o primeiro dia da semana para a congregação e assembleia solene, e chamaram-no Dia do Senhor (Κυριακή ἡμέρα – Apocalipse 1.10). As igrejas reformadas têm por tradição fazer duas convocações para a congregação se reunir no Domingo. Uma reunião matutina outra vespertina, sendo esta uma continuação, havendo assim um único culto. O dia inteiro deve ser santificado, sendo um tempo para o culto coletivo, outro para o culto familiar, e outras obras de caridade, assim no Santo Dia do Senhor não tem lugar para nenhuma obra servil - Se desviares o teu pé do sábado, de fazer a tua vontade no meu santo dia, e se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do SENHOR digno de honra, e se o honrares, não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falar as tuas próprias palavras - Isaías 58.13.
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Superstição
Neste ponto, entretanto, não cedemos às observâncias dos judeus e às superstições. Pois, não cremos que um dia seja mais santo do que outro, nem pensamos que o repouso em si mesmo seja aceitável a Deus. Além disso, guardamos o Dia do Senhor, e não o sábado como livre observância.
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Comentário: O ensino apostólico é claro neste ponto. Não é feita distinção entre um dia e outro no sentido cerimonial como os judeus faziam. Os judeus observavam muitos dias santos, entre eles, o sétimo dia literal. Os cristãos observam o princípio de um dia em cada sete ser dedicado ao serviço espiritual. Observam apenas o Domingo porque nesse dia o Senhor Jesus terminou seu trabalho, sua obra de expiação e ressuscitou entrando no seu shabat. Dos sete dias da semana o Senhor reservou o sétimo para ser um shabat. O sétimo dia que os judeus observavam apontava para Cristo, a realidade do shabat. Então a Igreja passou a observar o shabat no dia que Cristo ressuscitou e apareceu aos apóstolos, o primeiro dia da semana. Assim, o princípio do quarto mandamento continua sendo observado pela Igreja no primeiro dia da semana. A Igreja católica de Cristo, por tradição apostólica, sempre observou o primeiro dia da semana para o culto público solene. O shabat semanal foi separado por Deus na criação; ele separou esse dia para si e o santificou. Antes de ver o shabat como um dia específico, vêmo-lo como um período de tempo após seis dias de trabalho. Em cada sete dias, um dia deve ser separado para meditar no descanso de Deus e dedicar esse dia em adoração a Deus pela criação, pela redenção e pela providência. A importância do shabat está no princípio de parar tudo naquele dia e dedicá-lo ao Senhor. Mesmo na antiga dispensação, o dia não era exatamente o mesmo em todo lugar; assim como hoje, cristãos que moram na Ásia observam o dia do Senhor várias horas antes daqueles que o observam na América. Houve caso na antiga dispensação que Deus deixou que a Páscoa fosse celebrada por alguns, um mês após, mostrando que antes do dia em si vem o princípio (2º Crônicas 30). A tradição apostólica de observar o primeiro dia da semana em lugar do shabat judaico, além de ser o dia da ressurreição do Senhor que marcou a era da Igreja católica de Cristo, é também um maravilhoso sinal da graça, o descanso de Deus. A graça é assim – não começo trabalhando, mas começo descansando. Começamos a semana entregando a Deus as primícias, o primeiro dia da semana. A vida cristã começa quando entendemos que Cristo é o nosso shabat e nossa salvação não está baseada nas obras e sim na graça. Aqueles que são das obras entendem que a avaliação vem no final da sua vida e se suas obras forem muitas e suficientemente boas, obterão salvação. Os que são da graça, entendem que quando cremos em Cristo começamos salvos. Então trabalharemos para ele como forma de gratidão, como escravos voluntários (1a Coríntios 15.10).
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As festas de Cristo e dos santos
Ademais, se na liberdade cristã, as igrejas celebram de modo religioso a lembrança do nascimento do Senhor, a circuncisão, a paixão, a ressurreição e sua ascensão ao céu, bem como o envio do Espírito Santo sobre os discípulos, damos-lhes plena aprovação. Não aprovamos, contudo, as festas instituídas em honra de homens ou dos santos. Os dias santificados têm a ver com a primeira Tábua da Lei e só a Deus pertencem. Finalmente, os dias santificados, instituídos em honra dos santos, os quais abolimos, têm muito de absurdo e inútil, e não devem ser tolerados. Entretanto, confessamos que a lembrança dos santos, em hora e lugar apropriados, pode ser recomendada de modo aproveitável ao povo em sermões, e os seus santos exemplos, apresentados como dignos de serem imitados por todos.
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Comentário: Então, não há nenhuma prescrição para que os cristãos observem dias especiais. Todavia, reunir a congregação para trazer à memória os atos redentivos de Cristo é boa tradição, mas que não se desvie o foco do Senhor Jesus. Todo serviço religioso na era da Igreja é espiritual, abolindo, portanto as representações físicas, como teatros, presépios, etc. O presépio, por exemplo, além de conter imagens que são proibidas, ainda transmite ensino errado. Os magos do Oriente não visitaram o Senhor Jesus na manjedoura, mas quando ele já estava em casa, muito tempo depois (Mateus 2.11).
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Jejum
Ora, quanto mais seriamente a Igreja de Cristo condena a gula, a embriaguez e toda a espécie de lascívia e intemperança, tanto mais e com insistência, recomenda-nos o jejum cristão. Pois, jejuar nada mais é do que a abstinência e moderação dos piedosos e uma disciplina, cuidado e castigo de nossa carne, exercitados segundo a necessidade do momento, pelos quais nos humilhamos diante de Deus, privando nossa carne de seu combustível, de modo que possa mais espontânea e facilmente obedecer ao Espírito. Portanto, aqueles que não dão atenção a tais coisas não jejuam, mas imaginam que o fazem se abarrotam o estômago uma vez por dia e a certa hora ou em horário prescrito abstêm-se de certos alimentos, pensando que, pelo fato de terem praticado essa obra agradam a Deus e estão fazendo algo de bom. O jejum vem a ser um auxílio para as orações dos santos e para todas as virtudes. Mas, como se vê nos livros dos profetas, o jejum dos judeus, que se abstinham de alimento, não porém da iniquidade, não agradava a Deus.
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Comentário: O jejum é prática dos santos, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Contudo ele deve ser observado como uma disciplina de domínio próprio. Jejum é abstinência de alimentos, mas implica mais que isso, é autocontrole que prioriza o espiritual sobre o físico. Encher bastante o estômago e ficar algum tempo sem comer, para em seguida voltar a comer com voracidade, não é o jejum correto. Ficar sem comer por horas ou dias seguidos e após isso se empanturrar de manjares, é pecaminoso. O que o Senhor quer nos ensinar é que não vivemos apenas de pão, mas também e principalmente da sua Palavra. O alvo não é apenas se abster por algumas horas de alimento ou outras coisas terrenas, mas exercer contínuo autocontrole sobre seus instintos carnais. O cristão deve comer e beber moderada e criteriosamente sempre. A vida cristã é de autodisciplina. Todas as coisas temporais e terrenas, enfim tudo que pertence a este mundo deve ser tocado com cuidado. A prática do jejum é um exercício piedoso de esquecer-se do corpo por certo período de tempo para dedicar-se ao espiritual, esta prática deve nos levar a uma maior consciência do pecado e maior aproximação de Deus. Consequentemente isto resultará numa vida mais piedosa, maior controle sobre seus sentimentos, sobre suas emoções, sobre seus instintos, sobre seu temperamento, sobre seus apetites, sobre suas palavras. Assim o jejum temporário deve levar ao crescimento espiritual e uma vida regrada que glorifique a Deus.
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Jejum público e particular
Há jejum público e pessoal. Nos tempos antigos celebravam-se jejuns públicos, em tempos de calamidade ou em situações difíceis da Igreja. Abstendo-se totalmente de alimento até o anoitecer, dedicavam-se todo o tempo a santas orações, ao culto a Deus e ao arrependimento. Eles diferiam pouco do luto, havendo frequente menção do mesmo nos Profetas, especialmente em Joel, cap. 2. Tal jejum deve ser observado ainda hoje, sempre que a Igreja se encontre em situação difícil. Os jejuns particulares podem ser praticados por qualquer um de nós, quando se sente afastado do Espírito. Pois, dessa maneira, priva-se a carne de seu combustível.
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Comentário: Dentro das condições e da necessidade de cada um em particular, pode-se recorrer à prática do jejum. E a igreja pode e deve recorrer ao jejum coletivo e público diante de situações complicadas, para orar e buscar a face de Deus, pedindo sua intervenção e orientação.
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Características do jejum
Todo jejum deve partir de um espírito livre, espontâneo e realmente humilde, e não simulado, só para conquistar o aplauso ou favor dos homens, e muito menos para que por meio dele pretenda o homem ser merecedor de justiça. Mas, que cada um jejue para este fim - não dar lugar aos desejos da carne e servir a Deus mais fervorosamente.
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Comentário: Obviamente que a prática do jejum deve ser apenas para nos aproximar de Deus e nos humilhar perante ele e jamais com o pensamento de obter ou merecer algo. É um tempo para afligir nossas almas - Mas, aos dez deste mês sétimo, será o Dia da Expiação; tereis santa convocação, e afligireis a vossa alma, e oferecereis oferta queimada ao SENHOR – Levítico 23.27. Jejuar para mostrar espiritualidade é falta de espiritualidade.
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Quaresma
O jejum da Quaresma tem o testemunho dos antigos, mas não dos escritos apostólicos, pelo que não deve e não pode ser imposto aos fiéis. É certo que no princípio havia várias formas ou costumes de jejum. Por isso, diz Irineu, escritor muito antigo: “Uns pensam que se deve observar o jejum somente um dia, outros, dois dias, outros mais dias, e alguns, quarenta dias. Tal diversidade na observância do jejum não começou em nossos tempos, porém, muito antes de nós por aqueles, suponho, que não se apegavam simplesmente ao que lhes havia sido entregue desde o princípio, mas passaram a outro costume por negligência ou ignorância” (Fragm. 3, ed. Stieren, I, 824 s). Além disso, Sócrates, o historiador, diz: “Visto que não se encontra nenhum texto antigo acerca deste assunto, penso que os apóstolos o deixaram à opinião de cada pessoa, de modo que cada qual pudesse fazer o que é bom, sem temor ou constrangimento” (Hist. ecclesiast, V. 22,40).
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Comentário: Não há nenhuma orientação apostólica específica quanto ao jejum. Quem o observar deve fazê-lo com humildade e com temor para não incorrer no pecado de orgulho. Todas as nossas práticas espirituais devem glorificar a Deus e não a nós mesmos. Se oramos e jejuamos não é para comparar com outros que não o fazem como nós, como se tivéssemos algum mérito nisto. Isso não é cristão.
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A escolha dos alimentos
Quanto à escolha dos alimentos, julgamos que no jejum se deve negar à carne tudo o que possa torná-la mais arrogante e deleitá-la mais, aguçando-lhe o desejo de peixe, ou carne, ou condimentos, ou de guloseimas e bons vinhos. Além do mais, sabemos que todas as criaturas de Deus foram feitas para o uso e serviço dos homens. Tudo o que Deus fez é bom, devendo ser usado no temor de Deus e com moderação (Gên. 2.15 s). Diz o apóstolo: “Todas as coisas são puras para os puros” (Tito 1.15), e mais: “Comei de tudo o que se vende no mercado, sem nada perguntardes por motivo de consciência” (1ª Cor. 10.25). O mesmo apóstolo chama a doutrina daqueles que ensinam abstenção de carnes “doutrina de demônios”; pois “... alimentos, que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis, e por quantos conhecem plenamente a verdade; pois, tudo o que Deus criou é bom e, recebido com ações de graça, nada é recusável” (1ª Tim. 4.1 ss).
Seitas
Portanto, condenamos inteiramente os tacianos e os encratitas, bem como todos os discípulos de Eustátio, contra quem foi convocado o Sínodo Gangrense.
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Comentário: Nossa dieta é comer e beber, com ações de graças, do que estiver a mesa, e fazê-lo com domínio próprio, moderação, equilíbrio. Tudo que se come para saciar a fome é abençoado e purificado com as ações de graças. Alguns supõem que a continência deve ser apenas com respeito ao beber vinho, não vendo nenhum problema quando se refere as comidas. Controlam apenas o álcool e não a gula e os manjares. Escandalizam-se com excesso de álcool, mas não se ofendem com a glutonaria. Contudo, ambos são igualmente reprováveis. Quem tem domínio próprio não é controlado pelo estômago ou apetites desordenados.
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25. Da catequese, do conforto e das visitas aos doentes
A juventude deve ser instruída na piedade
O Senhor ordenou ao seu povo antigo que tivesse o maior cuidado no sentido de que a mocidade, desde a infância, fosse devidamente instruída, e mais do que isso, expressamente ordenou em sua Lei, que a ensinasse e lhe interpretasse os mistérios dos sacramentos. Sabe-se pelos escritos dos evangelistas bem como dos apóstolos que não é menor o interesse de Deus hoje, pela juventude do povo da nova aliança, pois claramente nos dá testemunho disso, dizendo: “Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus” (Mc 10.14). Por isso, os pastores das igrejas agem de maneira a mais sábia, quando desde cedo e com cuidado, catequizam a juventude, transmitindo-lhe os primeiros fundamentos da fé, fielmente ensinando-lhe os rudimentos da nossa religião pela explicação dos Dez Mandamentos, do Credo Apostólico, da Oração Dominical e da doutrina dos sacramentos, com outros princípios semelhantes e tópicos principais da nossa religião. Que a Igreja mostre a sua fé e diligência trazendo as crianças para serem catequizadas, desejosa e feliz de ter seus filhos bem instruídos.
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Comentário: Desde o princípio Deus incluiu os filhos na Aliança. Ele começou a criação com uma família com o propósito de confirmar esse modelo ao povo da Aliança. Foi assim com Adão, Eva e Sete; Noé, esposa e filhos; Abrão, Sara e Isaque. Ele disse a Abraão que a Sua Aliança era com toda a sua casa: E estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência depois de ti em suas gerações, por aliança perpétua, para te ser a ti por Deus, e à tua descendência depois de ti - Gênesis 17.7. De modo que instruir as crianças e os jovens na fé reformada deve ser prioridade tanto na igreja quanto nas famílias. Precisamos primar por transmitir a doutrina e conselho de Deus para as próximas gerações. Jovens que são instruídos dessa forma e crescem ouvindo a importância da doutrina e suas implicações nas nossas vidas, a importância do culto ao Senhor, são jovens saudáveis espiritualmente, que serão bons cidadãos, úteis à sociedade, que irão glorificar a Deus. A Igreja é uma família adoradora, onde todos os filhos são chamados para adorar Aquele do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome - Efésios 3.15. E é importante que todos participem intensivamente dessa atividade, primeiro em particular e depois coletivamente.
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A visitação dos doentes
Visto que os homens nunca estão mais expostos às mais penosas tentações do que quando enfraquecidos por enfermidades do espírito ou do corpo, sendo afligidos por elas, não há dúvida de que nada é mais próprio aos pastores das igrejas do que zelar com o maior cuidado pelo bem-estar do rebanho, em doenças ou fraquezas. Portanto, que visitem os enfermos, prontamente, e que sejam chamados em tempo pelos doentes, se as circunstâncias assim o exigirem. Que os confortem e confirmem na verdadeira fé, ajudando-os a lutar contra as perniciosas sugestões de Satanás. Devem também orar pelos doentes no lar, e se necessário, orar por eles também no culto público; e cuidem para que sintam felizes ao partir desta vida. Dissemos anteriormente, que não aprovamos a visitação papista ao doente com a extrema unção, por ser absurda, não tendo a aprovação das Escrituras canônicas.
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Comentário: Quando algum membro estiver adoecido e fraco, física ou espiritualmente, então deve receber visitas para ser fortalecido e permanecer firme em meio às lutas, confiando que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito - Romanos 8.28. O próprio Senhor ensinou a prática da visitação quando disse: Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me - Mateus 25.35-36. O apóstolo Tiago faz ressoar em nossos ouvidos: A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo - Tiago 1.27.
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26. Do sepultamento dos fiéis e do cuidado que se deve ter com os mortos; do purgatório e da aparição de espíritos
O sepultamento dos corpos
Sendo os corpos dos fiéis o templo do Espírito Santo, que seguramente cremos hão de ser ressuscitados no último dia, as Escrituras mandam que sejam entregues à terra, honrosamente e sem superstição, e também que se façam referências honrosas aos santos, que dormiram no Senhor, bem como se cumpram todos os deveres de piedade familiar para com suas viúvas e órfãos. Não ensinamos que se tenha qualquer outro cuidado com os mortos. Portanto, damos ênfase ao fato de que desaprovamos os cínicos, que negligenciavam os corpos dos mortos e descuidada e desdenhosamente os lançavam à terra, nunca pronunciando uma boa palavra acerca do falecido, ou se preocupando com os seus que ficaram.
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Comentário: Assim que o corpo morre aqui na terra o espírito vai para Deus. Ainda que o corpo seja apenas um elemento a se decompor e unir-se a terra, devemos sepultá-lo reverentemente, pois ele não é apenas pó devolvido ao pó, mas a semente de onde surgirá o novo corpo. Assim diz a Bíblia: Assim também a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitará em incorrupção… Semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual - 1a Coríntios 15.42-44. Sepultar os mortos e consolar os familiares faz parte do apascentamento do rebanho.
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O estado da alma que deixou o corpo
Cremos que os fiéis, depois da morte do corpo, vão diretamente para Cristo e, portanto, não há necessidade de sufrágios e orações dos vivos pelos mortos, nem de seus ofícios. Igualmente, cremos que os incrédulos são imediatamente lançados no inferno, do qual não há saída possível para os ímpios por quaisquer ofícios dos vivos.
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Comentário: Desde o princípio Deus revelou que o homem é um ser bipartido, isto é tendo uma parte física (material) e outra espiritual (imaterial). A redenção começa com a parte espiritual. Nascemos de novo espiritualmente e continuamos morando no corpo caído. Quando chega o fim dos nossos dias e nosso corpo desfalece, nossa alma parte para estar com o Senhor. Nosso corpo deve ser devolvido à terra, onde aguardará até o último dia, quando também será redimido e glorificado. Enquanto nossa alma vai direta e imediatamente ao Paraíso (Lc. 16.22), nosso corpo fica na terra esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo (Rom. 8.23). Então, naquele dia, nosso corpo será novamente unido à nossa alma, para sempre. A morte do corpo encerra definitivamente o ciclo do pecado em nossas vidas. Indo para o Senhor não mais pecaremos e quando Jesus vier, no último dia, o Dia do Juízo, nossos corpos ressurgirão incorruptíveis, então alma e corpo unir-se-ão novamente e nunca mais estarão sujeitos a pecar, mas somente a permanecer na comunhão do Senhor para todo o sempre. Amém.
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O cuidado pelos mortos
Por outro lado, não aprovamos aqueles que se preocupam excessiva e indevidamente com os mortos; que, à semelhança dos pagãos, lamentam os seus mortos (embora não censuremos o luto moderado, que o apóstolo permite em 1 Tes 4.13, julgando até desumano não entristecer-se alguém de modo nenhum); e que oferecem sacrifícios pelos mortos, murmuram certas orações, não sem paramento, com o fim de, por meio de tais cerimônias, libertar os entes queridos dos tormentos em que foram imersos pela morte, e pensam serem capazes assim de libertá-los por meio de tal magia.
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Comentário: Quanto ao luto pelos nossos mortos, os cristãos não devem agir como os pagãos, que só têm suposições e incertezas sobre a vida após o túmulo e então se desesperam diante da perda de um ente querido ou da própria morte. Poucas coisas na vida nos ferem mais do que a dor da perda e separação dos nossos entes queridos. Chorar na hora da separação é natural, contudo não devemos ficar tristes como se a perda fosse eterna, porque sabemos que um dia nos veremos todos, naquele lugar que Deus preparou para os seus filhos. Sabemos que a morte define a situação do homem; se sair daqui reconciliado com Deus irá para o Paraíso eterno, mas se sair daqui sem a reconciliação, na condição de inimigo de Deus, irá para o lugar do fogo e do tormento eterno. E nada se pode fazer para remediar a situação daqueles que já partiram deste mundo para a eternidade. É descansar na soberania e sabedoria do nosso Pai amoroso. A certeza de que no céu não faltará um só de todos os filhos de Deus, deve nos trazer descanso e alegria.
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Purgatório
O que alguns ensinam a respeito do fogo do purgatório se opõe à fé cristã, a saber, “creio no perdão de pecados e na vida eterna”, e à perfeita purificação mediante Cristo, bem como a estas palavras de Cristo, nosso Senhor: “Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (João 5.24). E estas: “Quem já se banhou não necessita de lavar senão os pés; quanto ao mais está todo limpo” (João 13.10).
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Comentário: De fato, o falso ensino sobre um lugar chamado purgatório, não se coaduna com o ensino do Senhor Jesus, dos apóstolos e dos profetas. Haja vista a declaração do Símbolo, que expressa os pontos cardeais da doutrina cristã. Purgatório não existe como um lugar físico onde o excesso de pecado é purgado. A Bíblia Sagrada nos ensina que o sangue de Jesus Cristo nos purga total e completamente de todo pecado, e não deixando alguns pecados a serem purgados nesse tal lugar denominado pelos papistas de purgatório. Podemos afirmar seguramente que o sangue do Cordeiro é purgatório ou purgador, pois nos lava e purifica completamente de todos os nossos pecados, do passado, do presente e do futuro. Há total e completa suficiência no sangue de Jesus Cristo, que fez uma única oferta de expiação, oferecendo-se a si próprio como propiciação pelos nossos pecados. Quem nele crê é lavado e purificado no seu preciosíssimo sangue. O falso ensino romanista sobre purgatório baseia a salvação em obras. Ele afirma que cada um de nós deve praticar muitas boas obras, durante toda a vida neste mundo. Após a morte cada qual comparece ao julgamento onde suas obras serão pesadas e avaliadas. Se elas não forem suficientes para pagar seus pecados então resta passar algum tempo no tal purgatório e depois ser finalmente encaminhado para o céu. Esse falso ensino desonra grandemente o grande sacrifício do Cordeiro de Deus, como se a morte de Jesus na cruz do Calvário não fosse suficiente o bastante para nos purificar de todo pecado e injustiça.
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A aparição de espíritos
No tocante aos espíritos, ou às almas dos mortos, que algumas vezes aparecem aos vivos e pedem a estes certos trabalhos, pelos quais possam ser libertados, incluímos tais aparições entre os ludíbrios, as artimanhas e os enganos do Diabo, que, como pode se transformar em anjo de luz, assim se esforça para, ou transtornar a verdadeira fé, ou lançar dúvida sobre a mesma. No Velho Testamento, o Senhor proibiu a busca da verdade com os mortos e toda espécie de contacto com os espíritos (Deut. 18.11). Ao rico glutão, que estava em tormentos, como narra a verdade evangélica, se negou a faculdade de voltar a seus irmãos. Assim diz o divino oráculo: “Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (Luc 16.29 ss).
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Comentário: O erro de muitos aqui é tomar alguns episódios narrados na Bíblia como sendo base para fundamentarem uma doutrina. Isto é, muitos fatos narrados na Bíblia não são para desenvolver uma prática do povo de Deus. Só porque Moisés e Elias apareceram com Jesus no Monte da Transfiguração (Mateus 17.3) o que foi uma maravilha de Deus, não significa que os crentes devem buscar tal contato com aqueles que se foram. Aquele foi um caso único. Muitos mortos ressuscitaram juntamente com o Senhor e apareceram aos seus familiares (Mateus 27.53) o que foi outro episódio maravilhoso que seguiu a ressurreição de Cristo, contudo, foi um fato isolado para mostrar o poder da ressurreição de Jesus, pelo qual, um dia todos os mortos em Cristo também ressuscitarão. O fato do rei Saul ter consultado uma médium e supostamente ter falado com o espírito do profeta Samuel, não dá a ninguém o direito a tal prática. Basta ver que Saul morreu enganado por espíritos enganadores - Assim morreu Saul por causa da transgressão que cometeu contra o SENHOR, por causa da palavra do SENHOR, a qual não havia guardado; e também porque buscou a adivinhadora para a consultar - 1º Crônicas 10.13. Temos, isto sim, que observar todo o Conselho de Deus, isto é, o ensino da lei, dos profetas e apóstolos, os quais nos proíbem terminantemente tentar contactar os que já se foram deste mundo, como também nos alertam para as terríveis artimanhas do inimigo das nossas almas em falsificar aparições, justamente para iludir os desavisados e os que abusam do desconhecido, aventurando-se na busca de experiências sobrenaturais.
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27. Dos ritos, cerimônias e coisas indiferentes
Cerimônias e ritos
Ao povo do Velho Testamento foram dadas no passado, certas cerimônias, como uma espécie de instrução para os que estavam sob a Lei, como sob um pedagogo ou tutor. Mas, quando veio Cristo, o Libertador, e a Lei foi abolida, nós os fiéis, não estamos mais debaixo da Lei (Rom 6.14), e as cerimônias desapareceram; por isso os apóstolos não quiseram conservá-las ou restaurá-las na Igreja de Cristo, a tal ponto que, abertamente declararam não desejarem pôr nenhuma carga sobre a Igreja. Portanto, pareceria estarmos introduzindo e restaurando o Judaísmo, se multiplicássemos as cerimônias e os ritos na Igreja de Cristo, segundo o costume da Igreja antiga. Por isso, de nenhum modo aprovamos a opinião daqueles que pensaram que a Igreja de Cristo deve ser regulamentada por diferentes ritos, como uma espécie de treinamento. Pois, se os apóstolos não quiseram impor ao povo cristão cerimônias ou ritos, que foram indicados por Deus, quem, pergunto eu, em perfeito juízo haveria de impor-lhes invenções imaginadas pelo homem? Quanto mais aumenta o volume de ritos na Igreja, tanto mais ela se despoja da liberdade cristã, de Cristo, e de sua fé nele, enquanto o povo busca nos ritos aquilo que deveria buscar somente pela fé no Filho de Deus, Jesus Cristo. Por conseguinte, basta aos crentes, alguns ritos moderados e simples, que não sejam contrários à Palavra de Deus.
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Comentário: O povo do Antigo Testamento serviu ao Cristo que lhes estava velado, pelo que foram-lhes ensinados muitos cerimoniais que eram tipológicos do Messias Jesus Cristo. Todo seu serviço religioso consistia em sombras que apontavam e anunciavam o Ungido. Quando o corpo daquelas sombras chegou, obviamente não faz mais qualquer sentido continuar com elas. Os sacrifícios realizados no templo judaico após a morte de Cristo na cruz do Calvário, não eram apenas desnecessários, mas terríveis abominações. Por isso o Templo físico foi destruído para dar lugar ao Templo espiritual. Trazer para dentro da Igreja qualquer coisa usada no serviço religioso do povo terreno, é andar para trás no plano da redenção. O povo de Deus do passado tinha a lei moral, as leis civis e as leis cerimoniais. Destas permanece apenas a lei moral de Deus que é eterna. Sendo as leis cerimoniais abolidas não fariam qualquer sentido aplicá-las no Novo Testamento. Foram abolidas, encerradas e proibidas. Cristo, para quem todo o cerimonial do Antigo Testamento apontava, já veio. Temos tudo nele e toda tentativa de trazer de volta coisas que foram parte do cerimonial abolido é um retrocesso e contrassenso, como voltar as ruínas do Templo físico. Por isso o apóstolo condenou os judaizantes, aqueles que queriam ser cristãos e ao mesmo tempo continuar com alguns ritos judaicos. Triste é que ainda hoje, dois mil anos após a transição da era das sombras para a era da realidade, haja pessoas que ainda se apegam a muitos daqueles cerimoniais. Está claro que o modelo bíblico da igreja segue o da sinagoga e não o do Templo judaico que era tipológico.
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Diversidade de ritos
Se nas igrejas se encontram ritos diferentes, ninguém deve pensar que por isso estejam as mesmas em desacordo. Diz Sócrates: “Seria impossível colocar junto no papel todos os ritos das igrejas, em todas as cidades e países. Nenhuma religião observa os mesmos ritos, ainda que reconheça a mesma doutrina a respeito deles. Pois, os que pertencem à mesma fé discordam entre si mesmos acerca dos ritos” (Hist. ecclesiast. V. 22, 30, 62). Isto é o que diz Sócrates. E nós, hoje, tendo em nossas igrejas diferentes ritos na celebração da Ceia do Senhor e em algumas outras coisas, contudo não discordamos na doutrina e na fé; nem é, por esse fato, rasgada em pedaços a unidade e a comunidade de nossas igrejas. Sempre tiveram as igrejas, sua liberdade em tais ritos, como sendo coisas indiferentes. O mesmo fazemos nós hoje.
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Comentário: Quanto às formas de ministrações e à liturgia, sempre haverá alguma variação quanto isso. Tais variações não devem ser motivo de separação entre igrejas fiéis, mas deve haver também nesse sentido uma catolicidade. Não é possível que duas igrejas locais, as quais pertencem a única Igreja católica, ainda que estejam em países diferentes, sejam tão distintas em suas formas de ministrações ou nas suas liturgias, que nem se pareçam irmãs. Algo estaria errado, pois assim como há uma catolicidade na tradição, na doutrina, na interpretação das Escrituras, na história, também há uma catolicidade na liturgia e formas litúrgicas. No mais, cada cristão deve estar sensível aos demais irmãos e procurar fazer tudo que os edifique e abençoe, nunca sendo motivo de tropeço. Cada igreja local deve seguir a doutrina dos apóstolos e observar aquela boa tradição que nos legaram nossos antigos pais. O que deve ser rejeitado são as tendências a contextualizações para tornar a igreja moderna e atual.
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Coisas indiferentes
Mas, ao mesmo tempo as admoestamos a se manterem em guarda, a fim de não considerarem indiferentes coisas que de fato não o são, como querem alguns em relação à missa e ao uso das imagens em lugares de culto. “Indiferente”, escreveu São Jerônimo a Santo Agostinho, “é aquilo que não é bom nem mau, de modo que, se você o fizer ou não fizer, não é justo nem injusto”. Portanto, quando para dar validade às coisas indiferentes se torce a confissão de fé, deixam as mesmas de ser indiferentes. São Paulo mostra que está certo o homem comer carne, desde que alguém não o informe de que foi oferecida aos ídolos; pois, de outra forma estaria errado, visto que comendo, parece aprovar a idolatria (1 Cor 8.9 ss; 10.25 ss).
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Comentário: Indiferente pode ser dito em relação aos acessórios e não às coisas essenciais. Quanto aquilo que não há clareza nas escrituras e na tradição apostólica devemos seguir o bom senso. Coisas como horários de cultos, locais, extensão de cada ato – a ordem da leitura, pregação, orações, cânticos, ensinos e outros -, podem variar de um lugar para outro. Todavia a essência deve ser a mesma em todo lugar, em qualquer tempo, independente da cultura, dos costumes, da época, das tradições locais.
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28. Dos bens da Igreja
Os bens da Igreja e seu justo uso
A Igreja de Cristo conta com recursos provindos da generosidade de príncipes e da liberalidade dos fiéis, que doaram seus bens à Igreja. Necessita a Igreja de tais recursos, e desde os tempos antigos tem-nos tido para a manutenção de tudo o que lhe é necessário. Ora, o verdadeiro uso dos bens da Igreja era outrora, e ainda o é, o de manter o ensino nas escolas e nas reuniões religiosas, bem como o culto, ritos e edifícios sagrados; manter mestres, discípulos e ministros, juntamente com outras coisas necessárias, e especialmente ajudar a alimentar os pobres.
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Comentário: A relação da igreja com o dinheiro deve ser a mais cautelosa possível, porque a falta de zelo, clareza e cuidado neste assunto pode ser a causa de muitas injustiças, escândalos e tropeços que mancham o testemunho do evangelho numa sociedade. Todo cuidado, sabedoria e prudência no recebimento e na aplicação dos recursos são necessários.
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Administração
Além disso, homens sábios e tementes a Deus, destacados na administração dos negócios devem ser escolhidos para administrar legitimamente os bens da Igreja.
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Comentário: Quem lida com as finanças da igreja local deve ser isento, íntegro e de caráter. Não precisa necessariamente fazer parte do conselho ou governo da igreja, pode ser alguém indicado e supervisionado pelos anciãos.
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O mau uso dos bens da Igreja
Mas, se por uma calamidade ou por causa da ousadia, ignorância ou avareza de alguns, os bens da Igreja forem malbaratados, devem ser restaurados para o uso sagrado por homens fiéis e sábios. Pois, não se pode ser conivente com o abuso, o que seria o maior sacrilégio. Portanto, ensinamos que as escolas e instituições, que se tenham corrompido na doutrina, no culto e na moral, devem ser reformadas, e que o serviço aos pobres deve ser organizado de uma forma responsável, prudente e de boa fé.
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Comentário: Complementando queremos dizer que todos os recursos que a igreja receber, e tais recursos devem ter origem lícitas e públicas, devem ser geridos com o maior temor porque pertencem a Deus e não ao homem. Aquele que fizer mau uso desses recursos estão sendo infiéis e maus mordomos das coisas de Deus, e terão que prestar contas disso. Ainda que o dinheiro tenha vindo facilmente, mas nem sempre este é o caso, porque muitas vezes vem apenas dos próprios fiéis que lutam com parcos recursos, deve ser cuidadosamente administrado. Deus sempre capacita homens para as tarefas importantes no seu reino e seguramente capacitará em cada igreja local irmãos que cuidem, administrem, apliquem todos os recursos recebidos pela igreja de maneira sábia e piedosa. É bom que aqueles que estão dedicados ao ministério – pregação, ensino, missão, supervisão, não estejam envolvidos diretamente na administração dos recursos materiais da igreja. Quem foi chamado para o ofício religioso deve dedicar-se a ele exclusivamente, deixando as coisas que envolvam dinheiro e bens da comunidade com outros homens fiéis que Deus há de levantar.
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29. Do celibato, casamento e administração dos negócios domésticos
Pessoas solteiras
Os que têm do céu o dom do celibato, de modo que, de coração ou de toda a alma podem ser puros e continentes e não são levados pelos ardores do sexo, sirvam ao Senhor nessa vocação, enquanto se sentirem dotados do dom divino. E não se julguem melhores do que os outros, mas sirvam o Senhor continuamente em simplicidade e humildade (1ª Cor. 7.7 ss). Estes estão mais aptos a lidar com as coisas divinas do que aqueles que se distraem com os interesses particulares de uma família. Mas, no caso de ser-lhes retirado o dom, e sentirem um durável ardor, lembrem-se das palavras do apóstolo: “É melhor casar do que viver abrasado” (1ª Cor. 7.9).
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Comentário: O celibato não torna ninguém mais santo e nem é garantia de pureza sexual. Há pessoas que se obrigam e impõem sobre si mesmos essa condição, há outras que a própria vida lhas impõe. Contudo nem uma nem outras devem se apegar a sua condição como meio de separação ou santificação. A única coisa que o apóstolo fala é que quem não tem que se preocupar com uma esposa ou com um marido, pode dedicar-se mais ao reino de Deus. Ainda assim seu trabalho não será mais importante do que o daquele que está ocupado com uma família, criando filhos para a glória de Deus.
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Casamento
O casamento (que é o remédio da incontinência e é a própria continência) foi instituído pelo Senhor Deus mesmo, que o abençoou da maneira mais generosa, e que desejou que o homem e a mulher se unissem um ao outro inseparavelmente e vivessem juntos em completo amor e concórdia (Mat. 19.4 ss). Sobre isso sabemos o que disse o apóstolo: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula” (Heb. 13.4). E outra vez: “Se a virgem se casar, por isso não peca” (1ª Cor. 7.28).
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Comentário: Muito poucas pessoas têm vocação para ficar sozinhas. Somente aquelas a quem Deus mesmo estabelece nessa condição e as sustenta. Do contrário, a orientação apostólica é que por causa da prostituição, cada um tenha a sua própria mulher, e cada uma tenha o seu próprio marido - 1ª Coríntios 7.2. Esse é o caminho mais natural, não apenas por causa do assunto aqui em questão, que é a impureza sexual, mas também para que o céu seja povoado pelos filhos da aliança. Por isso mesmo também o apóstolo diz que o casamento deve ser honrado como algo sagrado. Ele foi instituído junto com a família e como instrumento de formação da família, a qual é a primeira célula da sociedade e também da igreja. O povo de Deus é formado por famílias e também a sua aliança foi feita com as famílias. Ele fez a aliança com Abraão e sua família e disse que através daquela seriam abençoadas inúmeras outras famílias em toda a terra - E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra – Gênesis 12.3.
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As seitas
Condenamos, portanto, a poligamia e os que condenam o segundo casamento.
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Comentário: Obviamente que a poligamia não se ajusta ao padrão bíblico que Deus estabeleceu desde o princípio da criação: um Adão para cada Eva, uma Eva para cada Adão. Como disse o apóstolo Paulo: cada homem tenha a sua mulher e cada mulher tenha o seu marido. O casal é feito de um par e não de uma tríade. Enquanto viverem, homem e mulher estão unidos pela mão de Deus e qualquer infidelidade é pecado. Porém, morrendo um parceiro, outro estará livre para contrair novas núpcias, desde que seja no Senhor, isto é, com outro crente. Se, contudo, desejar permanecer sem contrair novas núpcias, fique assim. Na infelicidade de ocorrer a infidelidade conjugal por uma das partes e a parte infiel buscar outro cônjuge, então a parte ofendida está livre. Mas antes de qualquer decisão, a parte ofendida deve lembrar sempre a lei maior que é a lei do amor e do perdão. O cristão deve estar sempre pronto a perdoar e buscar a reconciliação por causa do Senhor. Em cada época a Igreja deve estar atenta para combater os falsos ensinos e as seitas que a ameaçam continuamente. Até mesmo uma super ênfase numa coisa boa pode tornar-se extraordinariamente perigosa. Quando se trata da vida espiritual, toda cautela e vigilância se faz necessária, por todos, mas especialmente por parte dos bispos.
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Como deve ser contraído o casamento
Ensinamos que o casamento deve ser contraído legalmente no temor do Senhor, e não contra as leis, que proíbem certos graus de consanguinidade, a fim de que o casamento não seja incestuoso. O casamento deve ser feito com o consentimento dos pais, ou dos que estão em lugar dos pais, e acima de tudo para o fim para o qual o Senhor instituiu o casamento. Além disso, devem conservar-se santos, com a máxima fidelidade, piedade, amor e pureza dos que se uniram. Portanto, evitem-se as discussões, as dissenções, a lascívia e o adultério.
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Comentário: A orientação bíblica é que crente deve se casar com crente e não se colocar sob jugo desigual com infiéis - Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; Porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? - 2a Coríntios 6.14-16. Não basta se casar na igreja, mas cada jovem deve ter certeza de que seu futuro cônjuge ama ao Senhor Jesus e o serve, para que Deus seja honrado e glorificado nessa aliança.
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Fórum matrimonial
Devem estabelecer-se coortes legais na Igreja, tendo juízes santos, que possam cuidar dos casamentos, reprimir a impureza e a impudência, diante dos quais se resolvam os conflitos matrimoniais.
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Comentário: O aconselhamento pré-matrimonial é válido e recomendado entre os santos. Contudo é responsabilidade dos pais criar seus filhos no temor de Deus, como verdadeiros filhos da aliança. Ao crescerem saberão a importância da pureza sexual fora e dentro do casamento.
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A criação dos filhos
Devem os filhos serem criados pelos pais, no temor do Senhor; e devem os pais prover o sustento dos seus filhos, lembrando-se do que disse o apóstolo: Ora, se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos de sua própria casa, tem negado a fé, e é pior do que o descrente (1a Tm 5.8). Mas, devem principalmente ensinar a seus filhos para terem uma carreira ou profissões honestas com que possam manter-se a si mesmos. Devem conservá-los afastados da ociosidade, e em tudo inculcar neles a verdadeira fé em Deus, a fim de que, pela falta de confiança ou demasiada segurança ou pela feia avareza venham a tornar-se dissolutos, e a fracassar na vida.
Aliás, é muito certo que as obras praticadas pelos pais com verdadeira fé, mediante os deveres domésticos e administração de sua casa, são, aos olhos de Deus, santas e verdadeiramente boas obras. Não são menos agradáveis a Deus do que as orações, os jejuns e as obras de beneficência. Pois, assim ensinou o apóstolo em suas epístolas, especialmente nas dirigidas a Timóteo e a Tito. E com o mesmo apóstolo incluímos entre os ensinos de demônios a doutrina dos que proíbem o casamento e abertamente o criticam ou indiretamente o desacreditam, como se não fosse santo e puro.
Execramos também, a vida impura dos solteiros, a lascívia secreta ou às claras, e a fornicação dos hipócritas, que simulam continência, sendo os mais incontinentes de todos. A todos estes julgará Deus. Não desaprovamos as riquezas dos que as possuem, quando são piedosos e fazem bom uso delas. Mas, rejeitamos a seita dos Apostólicos, etc.
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Comentário: Cada casal que procria deve ter consciência que seus filhos não são seus, mas primeiramente são do Senhor. Deus reivindica para si todas as crianças nascidas sob a aliança. Todos são dele mas ele faz menção especial daqueles que recebem o selo da aliança - Além disso, tomaste a teus filhos e tuas filhas, que por mim geraras, e os sacrificaste a elas, para serem consumidos; acaso, é pequena a tua prostituição? E mataste meus filhos e os entregaste a elas para os fazerem passar pelo fogo - Ezequiel 16.20-21. A formação do caráter dos futuros homens e mulheres deve se dar em casa. Os filhos da aliança devem ser instruídos e guiados desde o berço a obedecer à lei de Deus e viver vida piedosa. Esta é a maior incumbência dos pais crentes.
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30. Da magistratura
A magistratura vem de Deus
A magistratura em todas as suas formas foi instituída por Deus mesmo para a paz e a tranquilidade do gênero humano, devendo pois, ter o lugar mais importante no mundo. Se o magistrado for inimigo da Igreja poderá entravar a sua ação e perturbá-la muito; mas sendo amigo ou membro da Igreja, torna-se o mais útil e excelente entre os seus membros, podendo ajudá-la muito e dar-lhe assistência melhor do que todos os demais.
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Comentário: Isso constitui o ideal para toda sociedade, isto é, que seus magistrados e demais autoridades sejam cristãos e andem na verdade e justiça. Seria excepcional que todas as autoridades constituídas em todos os escalões tivessem princípios e tradições cristãos. A igreja deveria incentivar seus membros a ingressarem nessas fileiras para assegurar a justiça e o direito a todos, mas é útil lembrar que os oficiais da igreja, especialmente os ministros da palavra, não devem se envolver com essa política, porque a tarefa deles é outra.
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O dever do magistrado
O principal dever do magistrado é garantir e preservar a paz e a tranquilidade pública. Indubitavelmente, ele nunca realizará isso com tanto sucesso como quando é de fato temente a Deus e religioso. Quer isso dizer, quando segundo o exemplo dos mais santos-reis e príncipes do povo do Senhor, promove o magistrado a pregação da verdade e a fé sincera, extirpa as mentiras e toda a superstição, juntamente com toda impiedade e idolatria e defende a Igreja de Deus. Certamente, ensinamos que o cuidado da religião pertence especialmente ao santo magistrado.
Tenha ele, pois, em suas mãos a Palavra de Deus, tomando cuidado de que não se ensine nada contrário à mesma. Governe também o povo, que lhe foi confiado por Deus, por meio de boas leis, elaboradas segundo a Palavra de Deus, conservando-o na disciplina, no dever e na obediência. Exerça o seu ofício de magistrado, julgando com justiça. Não faça acepção de pessoas, nem aceite subornos. Proteja as viúvas, os órfãos e os aflitos. Use sua autoridade para punir os criminosos e até bani-los, bem como aos impostores e bárbaros. Pois, não é sem motivo que ele traz a espada. (Rom. 13.4).
Portanto, desembainhe a espada de Deus contra todos os malfeitores, sediciosos, ladrões, homicidas, opressores, blasfemadores, perjuros, e contra todos aqueles, a quem Deus lhe ordenou punir e até mesmo executar. Reprima os hereges incorrigíveis (verdadeiramente heréticos), que não cessam de blasfemar contra a majestade de Deus, e de perturbar e mesmo pôr em perigo a Igreja de Deus.
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Comentário: Novamente falamos que o ideal seria que as autoridades temessem a Deus e exercessem seus ofícios justamente fundados na Palavra de Deus. Que bom seria se todas as autoridades, especialmente os legisladores, compreendessem que as leis de Deus são perfeitas e sábias e que nenhum homem seria capaz de criar legislação mais perfeita e justa. Que os homens não suponham que podem fazer leis mais sábias do que as leis de Deus. Por exemplo a lei da restituição é a melhor e mais sábia, perfeita e justa que existe. Que nossos magistrados atentem para a sabedoria divina e não queiram implementar segundo a psicologia, segundo o humanismo, retocando tal lei, nunca levando o homem a arcar com as consequências de seus atos. Por isso também devemos orar pelos nossos magistrados e governantes.
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Guerra
E, se for necessário preservar pela guerra a segurança do povo, que o magistrado declare guerra em nome de Deus, desde que tenha primeiramente procurado por todos os meios possíveis fazer a paz, não podendo pois, salvar seu povo a não ser pela guerra. Quando, pela fé pratica o magistrado estas coisas, serve a Deus por aquelas obras, que são verdadeiramente boas, e recebe a bênção do Senhor.
Condenamos os anabaptistas que, ao negarem possa o cristão exercer o ofício de magistrado, negam também que o homem possa ser, com justiça, condenado à morte pelo magistrado, ou que este possa declarar guerra, ou que se prestem juramentos ao magistrado, e coisas semelhantes.
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Comentário: A Palavra de Deus nos diz que toda autoridade procede de Deus; que foi Deus quem estabeleceu toda a cadeia de autoridade, no céu e na terra, entre os homens e entre os anjos. E ele o fez para que houvesse boa ordem em toda a sua criação. De modo que todos nós estamos, de alguma forma, envolvidos com a autoridade e fazemos parte da cadeia de autoridade, no princípio da qual está o trono de Deus, de onde emana e flui toda autoridade e governo. Deus, em sua infinita sabedoria, fez tudo com absoluta precisão e perfeição. Acabando de criar o homem, deu-lhe autoridade sobre todas as demais criaturas que havia feito, dizendo: … Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra - Gênesis 1:28. Estabeleceu também uma ordem de autoridade na família quando disse que Adão governaria sobre Eva e obviamente sobre os filhos: … e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará - Gênesis 3.16. Assim, a primeira cadeia de autoridade está dentro da família, primeiro vem o marido, seguido da mulher e depois os filhos. O marido é a autoridade máxima dentro da família. Lembrando sempre que a autoridade não é questão de superioridade nem de grandeza, mas de função e honra. Não significa que o homem seja melhor, mais capaz nem mais inteligente do que a mulher, mas que Deus lhe deu um ofício diferente. Ele deu capacidades diferentes para homem e mulher se completarem. Quando os filhos aprendem a respeitar e honrar as autoridades dentro do contexto da família, não terão dificuldade de reconhecer as autoridades na escola, na igreja, no escritório, na fábrica, no parque ou em qualquer lugar que estejam. Feliz quem aprendeu desde cedo que, obedecendo a cadeia de autoridade estabelecida por Deus para que haja ordem na criação, será abençoado e será uma bênção, e evitará muitas dores. Como cristãos devemos apoiar aqueles que nos governam e nos submeter a eles sempre, com uma única exceção que é quando alguma ordem deles contrariar a Santa Palavra de Deus. Nesse caso, devemos ficar sempre com a autoridade do Criador que é a única perfeita e infalível. Mas, não contrariando a Palavra de Deus, devemos estar prontos para apoiar os nossos superiores em tudo que for justo, honesto e que tenha bom propósito, ainda que seja uma guerra para promover a paz, segurança e bem-estar da sociedade. Diariamente devemos levar a Deus em oração todos aqueles que estão em posição de autoridade, para que sejam orientados por Deus e tenham sabedoria para desempenhar a função e tarefa para a qual foram chamados e pela qual serão cobrados.
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O dever dos súditos
Como Deus efetua a segurança do povo através do magistrado, a quem deu ao mundo para ser como uma espécie de pai, assim ordena a todos os súbditos que reconheçam este favor de Deus no magistrado. Que os súditos, pois, honrem e respeitem o magistrado como ministro de Deus; que o estimem, colaborem com ele, orem por ele como por um pai, e obedeçam às suas decisões justas e legítimas. Finalmente, paguem fiel e prontamente todos os impostos e taxas e todos os demais direitos. E se a segurança pública do país e a justiça o exigirem, e vir-se o magistrado obrigado a empreender uma guerra, deem até suas vidas e derramem o seu sangue pela segurança pública e pela do magistrado. E o façam em nome de Deus, espontaneamente, com bravura e alegria. Pois, quem se opõe ao magistrado provoca contra si mesmo a severa ira de Deus.
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Comentário: Exatamente isso. Aos cidadãos cabe a obediência e suporte àqueles que os governam. Disse o apóstolo: Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai o rei - 1a Pedro 2.17. Honrar as autoridades é honrar Àquele que as delega e incumbe do seu ofício. O cristão respeita o ofício e a patente de cada autoridade por causa do Senhor Jesus Cristo. O cidadão honra e obedece em tudo quanto lhe for exigido, fazendo ressalva somente nalguma coisa que contrarie diretamente a palavra de Deus.
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Seitas e sedições
Condenamos, portanto, todos quantos desprezam o magistrado - os rebeldes, os inimigos do Estado, os vilões sediciosos, enfim, todos os que aberta ou astuciosamente se recusam a cumprir qualquer das obrigações, que lhes competem. Oramos a Deus, nosso mui misericordioso Pai do Céu, para que abençoe os governantes, a nós e a todo o seu povo, mediante Jesus Cristo, nosso único Senhor e Salvador, a quem seja o louvor e a glória, e as ações de graças, para todo o sempre. Amém.
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Comentário: Se todos seguissem os padrões estabelecidos por Deus respeitando os ofícios de cada um, cooperando para haja paz na sociedade, teríamos menos desavenças e dissensões na comunidade, e os cristãos devem ser exemplos também nesta parte, porque o cristão é alguém que foi salvo do grupo dos rebeldes e trazidos para a sociedade dos obedientes. O crente é um seguidor do manso e humilde Nazareno. Não podemos confundir bravura e intrepidez com rebeldia. Deus seja glorificado nos seus santos. Amém.
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Tradução: Seminário Teológico Presbiteriano do Rio de Janeiro - (www.stprj.br)
Comentário: Pr. Nelson Nincao
Londrina – Agosto – 2025
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